Mad Men: Uma máquina do tempo

Felipe Machado

08 de fevereiro de 2011 | 15h33


Don Draper, o Tony Soprano da publicidade: Eu queria ser esse cara

No episódio ‘Inventando a Roda’, no final da primeira temporada, há um trecho que define e, de certa forma, explica o sucesso da série americana ‘Mad Men’. Para quem não conhece, o seriado mais premiado dos últimos anos retrata o dia a dia de uma agência de publicidade de Nova York. Detalhe: se passa nos anos 60.

Na tal cena, o Diretor de Criação da agência e protagonista da série, Don Draper, prepara uma apresentação para os executivos da Kodak.

O produto abordado pela campanha é um projetor de slides. Lembra o que é isso? Sim, aquela velha geringonça que projetava fotos na parede da sala de jantar.

O carismático publicitário usa slides pessoais na apresentação: fotos de seu casamento, imagens de seus filhos na praia. E seduz os executivos da Kodak, que pretendiam vender o aspecto ‘tecnológico’ do produto.

“Criar uma conexão profunda com o produto é mais importante que falar sobre a tecnologia. Sua máquina de slides não é um foguete, é uma máquina do tempo. Vai para frente, vai para trás, nos leva a lugares onde desejamos voltar. Nos faz viajar como crianças, não como adultos. Saímos por aí, mas acabamos voltando para casa. Voltamos para um lugar onde sabemos que somos amados.”

Silêncio. Um executivo da Kodak esconde as lágrimas.

O discurso, pontuado por belas fotos da família do personagem, é feito para emocionar. Ao final, claro, Don Draper aprova a campanha. Mas por que o trecho simboliza o sucesso de ‘Mad Men’?

Porque ‘Mad Men’ é exatamente como o projetor de slides. Não é um foguete, é uma máquina do tempo. E nos leva direto para os anos 60, quando o mundo começava lentamente a se transformar no lugar onde vivemos hoje.

Ninguém ali estava preocupado com o último lançamento do Steve Jobs; o chefão da Apple ainda era uma criança. Kennedy não apenas era vivo, como ainda disputava a eleição presidencial com Nixon. E as pessoas fumavam e bebiam sem culpa, ingenuamente até, sem saber que fazia mal ou que era politicamente incorreto.

A vida era perfeita? Claro que não. O machismo era gritante, a hipocrisia reinava. Mas não havia terrorismo, não havia essa ansiedade social que abala o planeta.

O mundo era feliz e não sabia? Talvez. Quem lembra do passado sempre tende a achar que tudo era melhor. Esse mundo não existe mais, e é justamente isso que seduz o público. Queremos acreditar que aquele mundo ainda é possível, o que é totalmente impossível. O mundo só existe durante os 47 minutos de cada episódio.

A verdade é que entre o projetor de slides e o iPhone há uma distância tão grande que nem Don Draper conseguiria nos convencer do contrário.

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