LCD Saunasystem ou 'O segredo de James Murphy'

Felipe Machado

21 de fevereiro de 2011 | 23h32


James Murphy: O cara só usa camisa branca, vai saber por quê… Deve ser para ressaltar sua pele morena. A foto é de Matt Biddulph/Creativecommons.org

O nome correto da banda/projeto de James Murphy é LCD Soundsystem, mas quem esteve na Warehouse/Pachá sexta-feira à noite, em São Paulo, sabe do que estou falando. Cerca de três mil pessoas dançando loucamente em um ambiente fechado com pé direito baixo e sem ar condicionado têm o previsível poder de transformar uma casa noturna em uma panela de pressão.

Isso quer dizer que o show foi ruim? Pelamordedeus: longe disso.

Quando Murphy anunciou que essa seria a última turnê do LCD Soundsystem, muita gente correu para comprar o ingresso. Mesmo feliz por conseguir uma vaga na festa de despedida do LCD, a verdade é que todo mundo ficou triste ao saber que o cara ia acabar com tudo aquilo. Com razão: desde seu início, em 2002, a banda de rock eletrônico de James Murphy sempre foi uma das mais hypadas pela crítica e público independente em todo o mundo, levando inclusive alguns órgãos (exagerados) da imprensa a colocar Murphy como artista do ano. Quem? Exatamente, é esse o ponto. A imprensa ‘indie’ adora descobrir personalidades que o grande público não conhece: se Murphy tivesse escrito músicas para Britney Spears, como quase chegou a acontecer, aposto que ele teria sido eleito o ‘traidor do movimento indie do ano’. Mas ‘se’ não existe em nenhum universo, muito menos na lúdica cena independente.

Todo mundo me crucificava quando eu dizia que nunca havia visto o LCD ao vivo. “Eles são ótimos, já vi vários shows em Nova York” era o que alguns amigos especialistas diziam, se exibindo. Sorry, já vi muitos shows bons no exterior, mas não tinha realmente tido a chance de ver o LCD. Poderia ter visto no Brasil – sim, eles já estiveram por aqui duas vezes –, mas confesso que a banda nunca tinha realmente me chamado a atenção. Sou meio fresco com essas coisas: não gosto de ir atrás de bandas hypadas, prefiro que elas me encontrem. Não me pergunte como isso acontece, mas acontece.

Desta vez a cobrança da galera mudéérrna foi tão forte que comecei a ouvir os discos do LCD na semana anterior ao show, só para curtir melhor e poder dançar com as mãozinhas pra cima e cantarolando a letra correta (mas não cheguei a fazer isso, juro). Sabe quando você coloca um disco para tocar com a esperança de gostar dele muito, muito, só para poder dizer que também é fã da banda mais hypada do momento? Pois eu fiz isso. Apertei o play, comecei a balançar a cabeça. “Pô, que somzera!”, falei para mim mesmo. Mas trinta segundos depois passei para a próxima música. E assim foi até o final do disco. E dos outros discos.

Desculpem os mudéérrnos, mas achei o som meio chato, monótono, uma espécie de New Order de segunda sem boas canções, apenas com boas levadas. O que são levadas? Ora, os ritmos. Nisso tenho que reconhecer que James Murphy é muito bom: suas batidas são envolventes, seus arranjos pulsam com competência. Mas no disco é tudo muito frio, linear, sem graça. Mesmo a música mais famosa da banda, ‘Drunk Girls’ (o nome é ótimo, não?) é de uma obviedade que parece ter sido composta por uma criança de dez anos). Por que será que esse cara faz tanto sucesso, então?

No show de ontem eu descobri o segredo de James Murphy. Antes de contar qual é o segredo do LCD Soundsystem, vamos falar um pouco sobre a banda de abertura, o Turbogeist. Sinceramente, eu nem mencionaria uma banda tão ruim se não fosse pelo pai do vocalista/guitarrista. Só para dar uma dica, o nome dele é Jimmy Jagger. Yeah, ele é filho de Mick. Infelizmente, não tem nem 0,01 do talento do pai. É apenas um guitarrista meia boca de uma banda de moleques metidos a punk que certamente não venceriam sequer um concurso de show de talentos numa high school de Londres. Quem sabe daqui a alguns anos ele pega a manha? Estou pensando em começar uma campanha ‘Turbogeist no Rock in Rio 2026’.

Também teve uma apresentação que pouca gente viu, mas que foi muito legal: os DJs Rafael Urenha e Lúcio Ribeiro tocaram numa pista adjacente um repertório de rock contemporâneo (‘Barbra Streisand!’) bem legal. O Rafa, inclusive, me ensina bastante sobre novos sons, já que ele grava um CD todo ano e distribui para amigos que não têm tempo/paciência/interesse para garimpar tantas coisas novas. E o cara é super fã de U2, o que já prova que tem excelente gosto. Além de brother e publicitário top, Rafa é apenas o melhor DJ de São Paulo. E o Lúcio, além de jornalista conhecido no meio do rock, com direito à coluna no Estadão e autor do respeitado blog Popload, também foi o organizador do festival No Mondays, que teve como atração principal o LCD Soundsystem.

(Parabéns, Lúcio, da próxima vez traz o Suede ou o Morrissey? Eu te ajudo, pô!)

Vamos voltar ao LCD Soundsystem? Vamos.

James Murphy & Cia entraram no palco à uma da manhã. E calaram minha boca como poucas vezes eu vi acontecer em um show.

Para você entender o que é o som do LCD, é importante descrever a formação da banda. James Murphy é o vocal, um tiozinho barrigudo que parece uma espécie de Simon LeBon, do Duran Duran, antes de uma temporada no Spa/clínica de reabilitação. Ele só usa camisetas brancas, também não sei por quê. Temos ainda três percussionistas que se revezam tocando guitarras e baixos; dois tecladistas e mais um cara que se alterna entre DJ e teclado, acho. Não dá para saber direito, porque o guitarrista estava tocando bateria quando eu voltei do banheiro, o percussionista estava fazendo backing vocals… você entendeu.

Ao vivo eu descobri que todo o hype em cima do LCD é verdadeiro: a banda é sensacional. Fiquei pensando, ‘mas por que eu achei os discos meio chatinhos e ao vivo estou pulando como um louco?’ ‘Qual será o segredo de James Murphy? Uma palavrinha chamada ‘dinâmica’. Vou tentar explicar para quem não é músico.

Lembra de ‘Smells Like Teen Spirit’, do Nirvana? Claro que sim. Lembra que a parte cantada é bem suave, com baixo e bateria no fundo, quase falada? E que no refrão entra uma porrada só, com o Kurt gritando os pulmões para fora? Pois é, isso é um exemplo bem simplificado do que dinâmica. Dinâmica consiste em tocar diferentes arranjos durante a mesma música; saber fazer silêncio nas horas certas para valorizar quando entra o barulho; usar o timbre de cada instrumento de uma maneira que ele se sobressaia quando tem que sobressair, e se esconda quando não tem o que mostrar.

Esse é o segredo de James Murphy. As canções ao vivo ganham vida, o que é irônico para um cara que é super respeitado como produtor, ou seja, entende tudo de estúdio. Mas mesmo no disco ‘London Sessions’, que é uma gravação ‘ao vivo no estúdio’ do LCD, Murphy não consegue a empolgação que a gente vê no ‘ao vivo no palco’. Falta público, falta gritaria, falta adrenalina.

Aqui não faltou público: garotas bonitas e mudéérrnas, caras vestindo camisas xadrez e chapéus, playboys bêbados que não sabiam nem onde estavam… foi uma festa muito legal. Para acabar, eu ia mencionar também que o som da banda em disco não é tão bom porque falta ‘calor humano’ no estúdio – coisa que não faltou ao show do LCD Saunasystem.

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