Lady Gaga não é apenas mais uma cantora maluca

Felipe Machado

11 de fevereiro de 2011 | 17h44

Há algum tempo escrevi aqui sobre mulheres com aura, citando como grande exemplo a maravilhosa atriz Audrey Hepburn, que iluminava qualquer filme com seu rosto expressivo e sua beleza inesquecível. Agora, ao acompanhar a polêmica em torno da nova música de Lady Gaga (‘Born This Way’ seria um plágio de ‘Express Yourself’, de Madonna? É claro que não), me lembrei de um episódio que aconteceu em outubro de 2009, durante um período que passei na melhor cidade do mundo, Nova York.

Fui assistir a um concerto beneficente no lendário Carnegie Hall, uma das casas de espetáculos mais elegantes e sofisticadas do planeta. O evento teria renda revertida para a fundação RED, criada por Bono, do U2. Além da banda irlandesa, desfilaram pelo palco nomes como Lou Reed, Courtney Love, Scarlett Johansson (sim, além de tudo ela ainda canta) e Rufus Wainwright, entre outros. Mas, por incrível que pareça, quem mais me chamou a atenção não foi nenhum desses pesos pesados da música internacional. Foi uma garota muito louca de nome mais esquisito ainda: uma cantora chamada Lady Gaga. Não preciso nem dizer que, na época, ela não era tão conhecida.

Eu nunca tinha prestado atenção em Lady Gaga, até porque achava seus figurinos (e penteados) ridículos. Até essa noite, claro. A plateia recebeu Lady Gaga com risinhos, até porque não é sempre que uma loiraça platinada entra no sisudo palco do Carnegie Hall usando biquíni vermelho, saltos plataforma e óculos escuros. Mas esse desdém do público durou apenas alguns segundos: Lady Gaga sentou no piano, ajeitou o microfone e… mandou ver.

Não acreditei que ela pudesse cantar tão bem, muito menos tocar piano daquela maneira. Achei que ela era apenas uma espécie de ‘nova Madonna’, uma dançarina que cantava somente o suficiente para justificar turnês baseadas em coreografias provocantes. Mas me enganei: Lady Gaga destruiu o Carnegie Hall e, pouco depois dos primeiros acordes, as pessoas se levantaram para aplaudi-la – o que, diga-se de passagem, não aconteceu nem com o mestre Lou Reed.

E daí pensei: está aí outro exemplo de mulher com aura. Não, não estou comparando a Audrey Hepburn com a Lady Gaga. Estou só dizendo que a aura não vem da personalidade ou da tela de cinema: é algo que os americanos chamam de star quality, a ‘qualidade de estrela’ que as pessoas têm ou não. E pode vir tanto ao redor de um rosto angelical como na voz de uma maluca que abusa de perucas roxas.

O único receio que tenho em relação a Lady Gaga é que ela é tão over, mas tão over, que dificilmente ela conseguirá resistir a seus próprios excessos. Minha esperança é que ela aposente as roupas de carne depois de algum tempo e mostre aos céticos que o importante é a sua música. Quem disse que pop não tem valor musical? Quem não é músico costuma achar que é ‘fácil’ compor um hit pop. Não é. E não vamos esquecer que Gaga tem apenas 23 anos.

Olhamos para essas estrelas e constatamos que estamos diante de pessoas especiais, de quem nossos olhos (e ouvidos, no caso) não conseguem se afastar. Lady Gaga tem star quality, e por isso ainda vamos ouvir falar muito dela. Mesmo que a cantora seja, digamos, o oposto de Audrey Hepburn.

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