Kiss: Rock and roll a noite inteira e festa todo dia

Estadão

08 de abril de 2009 | 17h24

Gene Simmons, por J.F. Diório/AE

Gene Simmons: O demônio do rock, em foto de J.F. Diório

O maior trauma da minha vida roqueira aconteceu em 1983, primeira vez em que o Kiss esteve no Brasil. Fui ao show no Morumbi acompanhado por meia dúzia de amigos, todos fanáticos pela banda. Como éramos muito novos, minha mãe ficou responsável por levar o grupo até o show, exigência feita pelas respectivas famílias para que mães e pais ficassem tranqüilos (é bom lembrar que nessa época eram comuns os boatos sobre o Kiss, do ‘assassinato de pintinhos’ no palco à influência satânica nas letras da banda).

Ao chegar lá, meu irmão, que na época tinha apenas dez anos, foi barrado na entrada por um segurança porque o show tinha censura proibida até 14 anos. Conclusão: eu, minha mãe e meu irmão fomos embora desolados, sem ver o Kiss. Como compensação, saímos para comer uma pizza na Micheluccio da Consolação. Meus amigos entraram, adoraram o show. E descobri na marra o significado da palavra inveja.

Em 1994, minha banda de rock, Viper, foi convidada para tocar no festival Monsters of Rock, no Estádio do Pacaembu. A atração principal? Kiss, que na época havia abandonado as máscaras – ou seja, já não era a mesma coisa. Cinco anos depois, vi novamente a banda aqui em São Paulo, em um show no Autódromo de Interlagos, desta vez com as máscaras de volta. Nenhuma dessas apresentações, no entanto, chegou perto da emoção que senti ontem, quando vi o Kiss bem de pertinho (graças a Deus inventaram a Pista VIP) tocando um setlist baseado nos primeiros discos da banda – justamente os que eu mais gostava.

Bom, reconheço que eles poderiam ter incluídos algumas canções de outras fases, como ‘I Want You’, ‘Creatures of the Night’ e ‘Hard Luck Woman’, por exemplo. Mas tudo bem: ao lado dos meus amigos do Capital Inicial, pulei o show inteiro e cantei boa parte das músicas. Sim, hoje estou rouco. E feliz.

Se o glam rock é feito de exageros quase caricaturais, o Kiss é uma espécie de Beatles do estilo. Se o rock é um circo, eles são o ‘Circus Maximus’. O quarteto nova-iorquino foi formado no início dos anos 70 com um line-up inspirado no quarteto de Liverpool: baixista e guitarrista-base dividem o microfone principal, mas todos os músicos cantam; há uma dupla de compositores principais, hits radiofônicos melódicos de refrões fáceis e grudentos… Gene Simmons e Paul Stanley são Lennon-McCartney após uma visita ao inferno.

Como se imagina, tudo no Kiss é ‘over’. E o show de ontem teve tudo a que temos direito: Gene Simmons vomita sangue, cospe fogo e levita até o topo do palco para cantar ‘I Love it Loud’ lá em cima; a guitarra Les Paul de Thommy Tayer (que usa maquiagem de Homem-Espacial, personagem originalmente criado por Ace Frehley) solta faíscas e bombas, além de ele tocar com o instrumento apoiado nas costas; o baterista Eric Singer (maquiado como Homem-Gato e substituto do membro original Peter Criss) canta, roda as baquetas no ar e detona um solo de bateria no melhor estilo anos 70; Paul Stanley rebola e mexe com o público o tempo inteiro, além de sobrevoar a plateia para cantar ‘Love Gun’ ao lado da mesa de som e destruir a guitarra no final da apresentação. Fora isso, um show do Kiss ainda tem fogos de artifício e pirotecnia de sobra, efeitos vintage super legais que as megabandas não usam mais (não sei por que, talvez porque seja meio perigoso). Fora as luzes, o cenário com logotipo gigante atrás do palco, as escadarias que sobem ao lado da bateria…

You wanted the best, you´ve got the best. The hottest band in the world, KISS!!!

Quem conhece o Kiss, sabe que o show começa sempre com a seguinte introdução, em voz gutural: ‘Você queriam o melhor, vocês têm o melhor. A banda de rock mais quente do mundo, Kiss!’ Ontem não foi diferente. Uma coisa que chama a atenção desde o início do show é que há apenas os quatro caras no palco, e todo aquele barulho (no bom sentido, pelamordedeus) sai dos instrumentos deles. Digo isso porque hoje em dia anda cada vez mais comum a gente ver bandas que utilizam bases e vocais pré-gravados para garantir a qualidade do som ao vivo. Com o Kiss, não: as guitarras, o baixo e a bateria são de verdade, o que nos transporta a um evento de rock and roll clássico, é verdade que não tão perfeitinho, mas extremamente sincero. Exatamente como no disco ‘Alive’, de 35 anos atrás, é um rock perigoso, que corre riscos. E sai vencedor.

A banda hoje conta com Thomy Tayer e Eric Singer no lugar de Ace Frehley (que saiu porque tinha problemas com álcool) e Peter Criss (que saiu porque tinha uma personalidade deprê, segundo a própria banda), mas não acho que o público sentiu muito a diferença. Como a banda usa máscaras e fantasias, temos a impressão de que os integrantes originais estão lá – na verdade, musicalmente os novos são bem melhores. E daí vem a genialidade em marketing de Simmons e Stanley: eles já anunciaram que em breve vão pendurar as chuteiras e contratar outros músicos mais jovens para vestir suas fantasias, encarnar seus personagens e maquiagens e sair em turnê sob direção da dupla de veteranos. Conclusão: o Kiss pode ser a primeira banda de rock and roll eterna, exatamente como o vampiro estilizado encarnado por Gene Simmons. Imagine o dinheiro que Simmons e Stanley continuarão a ganhar com essa empreitada – como, claro, se eles ainda precisassem.

Milionários após quase quarenta anos de turnês mundiais, recordes de discos nas paradas e vendas de produtos que vão de bonecos a caixões de defunto, Simmons e Stanley agora passam o tempo livre se divertindo com projetos paralelos. Simmons, o demônio linguarudo, participa de reality shows posando de mau e de garanhão com currículo superior a 2 mil mulheres (ele é casado com uma ex-coelhinha da Playboy e foi uma das celebridades que mais frequentaram a Playboy Mansion até hoje). Stanley produz e participa de musicais, onde rebola um pouco, posa de galã e exibe sua voz rouca. São gênios, pois descobriram que há poucas coisas no mundo mais atraentes para um adolescente do que roqueiros maquiados como personagens misteriosos tocando guitarras, cuspindo fogo e voando por aí. E, como se isso não bastasse, existe algo mais atraente para um garoto do que uma banda que prega o estilo de vida ‘rock and roll a noite inteira e festa todo dia’?

Visualmente, o Kiss é uma mistura de teatro japonês Kabuki, histórias em quadrinhos, filmes de terror B e guerreiros medievais, entre outras dezenas de referências. Mas muita gente acha que isso é mais importante que o som da banda. Não é. É, no máximo, tão importante quanto. Porque o som do Kiss é muito bom, um rock and roll de primeira com riffs de guitarra a la Black Sabbath, mas com muito mais groove. Os refrões são pegajosos, as vocalizações melódicas remetem a Beatles, os solos são venenosos e típicos de um ‘guitar-hero’. A batida da bateria é pulsante e pesada. Por trás daquelas máscaras tão famosas brilha uma banda de rock de verdade, daquelas que levantam multidões e arrancam emoções de roqueiros de todas as idades. Perdi o show em 1983 aos 13, mas ontem, aos 38, eu tirei o atraso.

Rock and roll all nite and party every day!

Setlist São Paulo – 7/4/2009

Deuce
Strutter
Got to Choose
Hotter Than Hell
Nothin’ to Loose
C’Mon and Love Me
Parasite
She
Watchin’ You
100.000 Years
Cold Gin
Let Me Go Rock ‘n’ Roll
Black Diamond
Rock & Roll All Nite
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Shout It Out Loud
Lick It Up
I Love It Loud
I Was Made For Lovin’ You
Love Gun
Detroit Rock City

Kiss, por JF Diório/AE

Se o rock and roll é um circo, o Kiss é o Circo Máximo (outra belíssima foto de J.F. Diório/AE)