Jazz: 'Kind of Blue' ao vivo com Jimmy Cobb na batera

Estadão

15 de maio de 2009 | 18h02

Ernesto Rodrigues/AE

Jimmy Cobb’ So What Band: Recriando o lendário ‘Kind of Blue’ em São Paulo (Foto de Ernesto Rodrigues/AE)

Inesquecível.

Tudo bem, eu sei que começar um texto com a palavra inesquecível é manjado. Mas se você não gostou desse início, pode trocar inesquecível por mágico, incrível ou sensacional. Qualquer um desses adjetivos representa bem a primeira noite do Bridgestone Music Festival, ontem à noite em São Paulo.

A apresentação começou com o Robert Glasper Trio, formado pelo pianista que batiza a banda, o baixista Vicente Archer e o batera Chris Dave. O nova-iorquino Glasper é um daqueles virtuosos do teclado contemporâneo, com excelente gosto para melodias e melhor ainda para temas e climas. O power trio de Glasper apresentou um jazz moderno e fascinante, com canções repletas de contratempos interessantes e dinâmicos. Ele é moderninho com conteúdo, talvez influência de seus dias como aluno da New School University, onde estudou com Terence Blanchard e Roy Hargrove, e depois misturou tudo o que aprendeu tocando com rappers como Jay Z e Kanye West.

Bem-humorado e carismático, Glasper detonou seu piano Steinway & Sons ao lado de uma banda formada por outras feras: o baterista Chris Dave é muito bom, o que foi comprovado por um solo de bateria muito bom, principalmente pelo aspecto minimalista: ele ficou restrito ao bumbo, chimbau e caixa, o que muito raro, ainda mais em um solo de bateria. Vicente Archer também se mostrou um ótimo baixista, embora eu tenha achado seu estilo muito dissonante nos momentos de solo (fisicamente, achei ele parecido com o Ronaldinho Gaúcho gordinho). A apresentação terminou com o ‘cover’ (a palavra cover está entre aspas porque foi muito mais do que um simples cover, mas uma versão diferente que acrescenta à original) de ‘Everything is in Right Place’, do Radiohead. É a segunda vez que vejo um jovem e talentoso pianista de jazz tocando Radiohead – a primeira havia sido Brad Mehldau.

No bis, Glasper tocou uma canção bastante percussiva, batendo nas teclas no piano elétrico Rhodes como uma espécie de Thelonious Monk pós-moderno (e mais contido, claro).

Na sequência veio a grande atração da noite: a So What Band, liderada pelo baterista Jimmy Cobb, último remanescente da lendária formação que gravou ‘Kind of Blue’, o maior disco da história do jazz. Como essa turnê celebra os 50 anos de gravação do disco, a expectativa era que tocassem o disco inteiro na sequência e na íntegra. E foi o que aconteceu: liderados pelo baterista de 80 anos, o saxofonista Vincent Herring (no papel de ‘Cannonball Adderley’, o saxofonista tenor Javon Jackson (‘John Coltrane’), o trumpetista Wallace Roney (‘Miles Davis’), o baixista Buster Williams (‘Paul Chambers’) e o pianista Larry Willis (‘Bill Evans’) tocaram a obra-prima inteira. Portanto, também vamos na ordem correta:

1. So What: Talvez seja um sacrilégio dizer isso, mas a versão que a ‘So What Band’ fez da minha música favorita do disco não ficou tão boa. Eles tocam uma versão muito rápida, muito diferente do disco. Tudo bem, o Miles Davis também tocava bem mais rápido ao vivo, como podemos ver em gravações como ‘Live in Stockholm’ e ‘Paris’ (ambos de 1960). Mas confesso que é estranho não ouvir as frases exatamente iguaizinhas ao disco, já que é um disco que todo mundo conhece de trás pra frente. Eu não queria que tocassem igualzinho, porque aí seria quase uma banda cover. Mas eu queria que tivessem mantido, sim, algumas frases maravilhosas do disco…

(Veja o vídeo de ‘So What’ feito pela TV Estadão)

2. Freddie Freeloader: A versão foi um pouco mais parecida com a original, embora a So What Band tenha acrescentado um pouco de suíngue. E ficou bem legal. É engraçado porque até os caras se parecem fisicamente um pouco com os originais (com exceção do pianista Larry Willis, que é negro, enquanto Bill Evans era branquelo; Wallace Roney também é bem mais, digamos, ‘cheinho’ que Miles. Mas, pelo jeito, tem o mesmo péssimo gosto para ternos). Já que estamos falando do pianista, gostaria de ver o Robert Glasper, que é super ‘nova geração’, tocando com esses veteranos feras…

3. Blue in Green: A melhor do show. O fraseado de Miles Davis é tão característico e tão fundamental para a construção da canção que Wallace Roney não teve alternativa a não ser… tocar como o disco. Essa é uma das baladas mais lindas da história da música. É tão sublime que tentei fechar os olhos e imaginar o paraíso, mas as lágrimas não deixaram.

4. All Blues: Outra maravilha, emocionante. Se ninguém me contasse, eu não acreditaria que Jimmy Cobb tem 80 anos: eu queria ser esse cara. Imagina ter tocado com Billie Holiday, Dizzy Gillespie, Wes Montgomery, Stan Getz… e Miles Davis. Uau, que carreira. E, 50 anos depois, fazer uma turnê mundial tocando o disco que você ajudou a imortalizar. Um detalhe dessa música: o pianista Larry Willis inclui o tema de ‘Norwegian Wood’, dos Beatles, no meio do solo. Outro momento mágico…

5. Flamenco Sketches: A segunda melhor do show. Acho que a So What Band foi melhor nas baladas, acho que conseguiram reviver melhor os climas do ‘Kind of Blue’. O nome do disco, aliás, sempre dá discussão entre os puristas do jazz. Alguns traduzem como ‘Um tipo de blues’, outros como ‘Um tipo de tristeza’, outros ainda como ‘Mais ou menos triste’. Flamenco Sketches é uma jóia da música. Sabe gente que usa a expressão ‘obra-prima’ para qualquer coisa. Pois é: nesse caso, ela é merecida.

O show acabou e eles ainda foram generosos e voltaram para um bis. Não lembro o que tocaram. Não lembro nem como cheguei em casa. Só sei que cheguei em casa feliz: nunca pensei que ia ouvir ‘Kind of Blue’ ao vivo com o Jimmy Cobb sentado no banquinho. Miles não estava lá, Coltrane não estava lá. Mas eu não senti nenhum ‘tipo de tristeza’. Pelo contrário: meu coração estava nas nuvens. Bem perto dos mestres.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.