Idade: O videocassete não mente

Estadão

28 de julho de 2008 | 11h08

Luciana Vendramini

Luciana Vendramini: A minha musa nos anos 80 continua linda até hoje… Puxa, fiquei com saudades. Vou ligar para a Lu

Nada como amigos de infância para nos lembrar de quem realmente somos. Outro dia encontrei uns caras do colégio na casa de um deles. Antes de sair para jantar, numa sessão estilo ‘naftalina’, exibiram um vídeo gravado há muito, muito tempo.

Já disse aqui que toco numa banda de rock, mas não mencionei que faço isso desde 1985. Éramos tão pirralhos que os roqueiros velhões nos apelidaram carinhosamente de ‘Menudos do Heavy Metal’. E esse vídeo mostrava justamente isso: cinco garotos fazendo barulho num programa independente exibido numa terça-feira às três da manhã. A audiência deve ter sido enorme.

Além das músicas, havia uma entrevista. Uma coisa é uma foto da época; outra, bem diferente, é um vídeo. É muito mais real, acredite.

Fiquei chocado ao ver um dos garotos. Parecia comigo, mas… quem era aquele cara? Um garoto simpático, sem dúvida. Bem articulado, até. Mas o cabelo era ridículo. A roupa? Pior ainda. Havia, porém, algo que me incomodou ainda mais: uma ansiedade, um jeitinho meio dono da verdade, arrogantezinho. Perguntei aos meus amigos se eu era mesmo daquele jeito. “Era. E ainda é.”

Aí caiu a ficha. Descobri quem era o garoto de quinze anos tocando guitarra e achando que sabia todos os segredos do universo. Era eu.
Nunca imaginei que eu fosse assim na adolescência, muito menos agora. Mas aceitei humildemente o fato. Eu nunca pensaria no assunto se não fosse por um simples videocassete, aparelho cada vez mais abandonado em nossas estantes. Naquela noite ele foi o herói: conseguiu reunir uma máquina do tempo e um divã de analista na mesma geringonça.

Olhei em volta. Meus amigos também eram os mesmos caras do colégio, disfarçados apenas com rugas e roupas de adulto. Quer dizer, então, que somos e seremos sempre as mesmas pessoas? Mas e a evolução humana? E a experiência de vida? Não sei. Me considero muito diferente do que eu era na época, mas talvez seja só impressão minha. A memória tenta inventar uma imagem nossa que nunca tivemos, mas ainda existem videocassetes que não nos deixam mentir.

Foto: J. Sainte-Rose/Playboy

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: