Hoje é dia de eleição

Estadão

31 de outubro de 2010 | 01h01

André Mattos é Fortunato, apresentador de TV que vira deputado. O personagem é muito engraçado; a realidade é que é triste

Hoje é dia de eleição.

Nunca antes na história deste País houve um filme como ‘Tropa de Elite 2. Se você é um dos sete milhões de brasileiros que viu o filme – nosso maior público em todos os tempos –, sabe do que estou falando. Se não viu, corra para o cinema e entenda melhor o País em que você vive.

Se Mazzaropi e Glauber Rocha imortalizaram em película o País de suas épocas, José Padilha faz uma radiografia perfeita do momento em que vivemos. Infelizmente, o resultado é podre.

Hoje é dia de eleição.

‘Tropa 2’ mostra como o Estado brasileiro é corrompido, como espalha seus tentáculos malignos sobre a sociedade e como, em contrapartida, a sociedade responde com o que há de pior no submundo de suas fileiras.

Na tela, o já lendário personagem Coronel Nascimento, do Bope carioca, torna-se Secretário de Segurança. O alvo são as milícias cariocas, formadas por policiais mais criminosos que os próprios criminosos. Traficantes e favelados pagam para não ser assaltados por policiais. Sim, é inacreditável.

Hoje é dia de eleição.

Não vou contar o final do filme; só que as pessoas aplaudem de pé. Há catarse, revolta, indignação, mas não sei por quê: a culpa por tudo isso é nossa, só nossa. Somos nós que elegemos os políticos que nos saqueiam.

Hoje é dia de eleição.

Acaba de sair uma lista da Transparência Internacional sobre a percepção da corrupção no mundo. Estamos muito mal, o que não é nenhuma novidade, somos corruptos mesmo. De 0 a 10 em honestidade, tiramos 3,7. Se a corrupção fosse uma matéria escolar pela qual os países seriam julgados, levaríamos bomba. Ué, um país que não passa de ano pode ser considerado… um país?

Hoje é dia de eleição.

Dos 178 países pesquisados , ficamos em 69º lugar. Ao lado de Cuba, veja só que coincidência. Em 2009, ficamos em 75º. Melhoramos? Não, os outros é que pioraram. ‘Não há algo de podre no reino da Dinamarca’, como diria o Hamlet de Shakespeare: a Dinamarca tirou zero em corrupção. Há algo de podre no nosso País. Se a corrupção é um crime (e é), somos um país criminoso.

Hoje é dia de eleição.

A canção ‘Sob o Mesmo Céu’ diz: Com quantos Brasis se faz um Brasil? Com quantos Brasis se faz um país, canta Lenine. Com quantos Brasis se faz um país? Com o Brasil que tira carteira de estudante falsa para pagar meia-entrada? Com o Brasil que compra DVD pirata? Com o Brasil que molha a mão do guarda para não pagar multa? Com o Brasil que paga impostos para ser assaltado pelos políticos? Com quantos Brasis se faz um país, mesmo?

Hoje é dia de eleição.