Os heróis e as princesas (da vida real)

Estadão

02 de junho de 2010 | 19h16

No último sábado, fiz um programa bem familiar: fui assistir ao espetáculo Disney on Ice – Heróis e Princesas. Se você não sabe direito o que é isso, imagine a Branca de Neve, a Bela Adormecida e todas as outras princesas patinando no gelo de mãos dadas com seus respectivos príncipes.

Antes que você comece a questionar a minha sexualidade (ou minha idade mental), já adianto que levei minha filha de 3 anos e meio.

Não preciso nem dizer que ela adorou. E eu fiquei emocionado ao ver seus olhinhos brilhando quando as princesas surgiam de seu castelo cenográfico deslizando pelo gelo, lindas, mágicas. Para minha filha, elas eram realmente princesas de verdade.

A primeira coisa que me veio à cabeça, depois de passada toda a emoção, foi uma cena engraçada. Fiquei imaginando uma das atrizes-patinadoras desembarcando em São Paulo, sem seu vestido de princesa, e indo direto para o hotel. Lá, pediriam que ela preenchesse o cadastro na recepção. No campo profissão, ela escreveria: Branca de Neve.

Depois de pensar nisso, voltei à realidade. Ao final do show, ela chorou porque queria ver tudo de novo. Acho que pensou que era um DVD, sei lá. Expliquei que era um show, mas as coisas só melhoraram quando comprei um livro ilustrado e uma boneca da Cinderela mais ou menos do tamanho dela.

Ao conversar com uma amiga sobre o show, ouvi um comentário inesperado. Delicada como um touro numa loja de cristais, ela me criticou por ter levado minha filha para ver um show de princesas. Ela alegou, usando o mínimo de eufemismo possível, que elas representavam uma figura feminina ultrapassada e distorcida. Segundo minha amiga, alimentar o mito do ‘príncipe encantado’ era errado da minha parte e isso só causaria sofrimento e decepção no futuro.

Talvez meia dúzia de feministas concorde com isso. Talvez até alguma psicóloga diga que é verdade. Não importa. Eu achei essa opinião absurda, e vou continuar estimulando o mito da princesa enquanto minha filha for uma criança. Não acho negativo crescer imaginando que é possível encontrar um príncipe ou uma princesa, metaforicamente falando, é claro.

A humanidade deseja isso pelo menos desde 27 a.C., quando o termo foi usado pela primeira vez pelo imperador Otávio Augusto: principis significava em latim o primeiro cidadão do governo.

Quando minha filha crescer, certamente vai saber distinguir entre realidade e fantasia. Obrigá-la a fazer isso agora é privá-la do sonho que nos torna quem somos e, provavelmente, quem seremos. Além disso, minha filha é uma princesa. E disso eu não tenho a menor dúvida.

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