Gostar, adorar, amar

Estadão

24 de setembro de 2009 | 19h57

Lea Michele

Lea Michele: Eu gostaria de vê-la na TV e adoraria ouvi-la cantando na Broadway. Mas eu realmente amaria… conhecê-la melhor

Questões semânticas sempre me fascinaram. Tudo bem, o trabalho me obriga a lidar com a escrita no dia-a-dia, mas acho o tema interessante principalmente porque as palavras que usamos dizem muito sobre quem somos.

Já disse aqui que adoro ir a restaurantes e prestar atenção nas conversas de outras mesas. O papo que ouvi outro dia (era um balcão, mas enfim) é a maior prova de que palavras mal escolhidas podem gerar atritos chatos e desnecessários.

Eu estava mordendo o hambúrguer quando ouvi uma menina dizer: ‘Como assim, você gosta de mim? Ontem você falou que me adorava! A gente já sai há seis meses e você nunca disse que me ama.’ Não lembro exatamente se foi isso, mas foi algo assim.

O namorado não sabia onde enfiar a cara, mas a garota parecia satisfeita com o suposto peso que havia arrancado dos ombros. A bronca, no entanto, ficou parada no ar, sólida como uma nuvem de aço, esperando uma resposta que nunca seria pronunciada.

O cara ficou quietinho, claro. Mas o que o coitado poderia ter dito? Fiquei torcendo para ouvir ‘é isso aí, ontem eu te adorava, hoje fique feliz por eu gostar de você porque você é uma chata’, mas não rolou. É certo obrigar o outro a dizer (ou sentir) alguma coisa?

É engraçado como há diferenças de valor entre as expressões. Quando alguém diz que ‘gosta’ da gente, achamos pouco. Usamos ‘gostar’ para coisas que achamos apenas OK, como alguém que diz que gosta da sogra ou de pizza amanhecida no café da manhã. ‘Até que eu gostei do novo disco do U2’, dizem outros, como se estivessem fazendo um favor. Gostar é coisa do dia-a-dia, é apenas o primeiro passo-sentimento em um relacionamento que não se sabe para onde vai.
Quando falamos ‘eu te adoro’, a luz amarela se acende dentro do outro.

‘Opa, está ficando sério’, costuma-se interpretar. Imagine se você ouve alguém dizer que ‘adooora sanduíche de mortadela com goiabada’…eu já penso que esse cara gosta mesmo dessa coisa horrível.

Mas tudo muda quando alguém diz eu te amo. Uau. É algo para se pensar. As pessoas (normais) costumam dizer poucos eu te amo na vida. Quem está do outro lado, portanto, se acha especial.

E tem que se achar mesmo. Às vezes pode parecer impulso, mas acho que todo mundo escolhe o que vai dizer em determinadas ocasiões, principalmente nos momentos mais marcantes da vida. Se alguém ainda não disse ‘eu te amo’, é bom esperar. Ou dizer primeiro, se você não aguentar.

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