Frutos, flores e sementes

Estadão

04 de outubro de 2009 | 20h00

Grace Kelly

Grace Kelly: A atriz mais bonita da história do cinema é o belo retrato de uma época em que os amores queriam ser eternos

No início de setembro, tive o prazer de comparecer a um evento bastante diferente das baladas a que estou acostumado. Não era exatamente uma festa super-radical, mas tudo bem: estou falando da celebração das Bodas de Ouro de um casal de tios muito queridos. Para quem não sabe, comemora-se a data por impressionantes 50 anos de casamento.

Cheguei atrasado (para variar) e só quando sentei na mesa de jantar é que me dei conta do que estava acontecendo ali: duas pessoas estavam dando uma festa para comemorar cinco décadas juntos. Você tem ideia do que é isso? Eu não tenho.

Passar cinquenta anos sozinho já deve ser difícil; imagine só passar todo esse tempo vivendo a dois. Acordando, dormindo, acordando, dormindo… e todas as infinitas atividades que acontecem entre esses dois verbos.

Para a geração dos meus tios, na faixa dos 70 e poucos anos, não é assim tão raro comemorar Bodas de Ouro. Mas hoje em dia é muito mais difícil; a existência se tornou mais efêmera, imediatista, on-line. Mesmo assim, por mais que Einstein estivesse certo ao dizer que o tempo é relativo, ele também passa para todo mundo, não importa em que ano você nasceu. Cinquenta anos juntos são cinquenta anos juntos. Ponto final.

Poder comemorar essa data com os filhos, netos e amigos deve ser uma emoção indescritível. Tão importante quanto a intensidade de um amor é sua longevidade. Sem querer misturar a utilidade de instrumentos criados pelo homem, eu diria que, quando se trata do amor, o relógio também pode funcionar como uma espécie de termômetro.

Passar 50 anos juntos exige um tipo de amor que não se encontra em grandes quantidades por aí. Nem ontem, nem hoje, nem nunca.

Nem preciso dizer que a festa foi linda. Houve uma cerimônia que poderia ser descrita como, sei lá, um recasamento. Como sempre acontece na minha família, o ‘noivo’ não perdeu a oportunidade de pegar o microfone e dizer algumas palavras. Foi lindo ver um homem pleno, emocionado, olhando para a mulher ao seu lado e confessando que ainda a amava.

Antes disso, porém, outro querido tio fez um discurso em homenagem ao casal com trechos de um texto atribuído ao Henfil:

‘Se não houver frutos, valeu a beleza das flores. Se não houver flores, valeu a sombra das folhas. Se não houver folhas, valeu a intenção da semente’.

O casal homenageado deixou frutos, belos como as flores, tranquilos como as folhas. E pela felicidade no rosto dos convidados, acho que essa era exatamente a intenção da semente.

Que venham as Bodas de Diamante.

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