Franz Ferdinand: Riffs de guitarra chiquérrimos

Estadão

24 de março de 2010 | 14h09

Franz Ferdinand: Isso é que é estilo no palco (foto: José Patrício/AE)

Franz Ferdinand: Isso é que é estilo no palco

Ir a um show do Franz Ferdinand é bem diferente de ir a um show do Metallica, do Coldplay ou de qualquer outra banda de rock. Não apenas porque o som dos escoceses é original e diferente de tudo, mas porque shows de rock são geralmente freqüentados por pessoas vestidas com roupas confortáveis e desencanadas. Já um show do Franz Ferdinand é quase como um desfile da São Paulo Fashion Week: muita gente bem vestida, muitos descolados, muita gente do ‘mundinho’ da moda.

Começando pelo palco. O baixista Bob Hardy, o guitarrista Nick McCarthy, o baterista Paul Thomsom e o guitarrista e vocal Alex Kapranos entraram no show vestidos como se fossem a uma festa. Camisas justinhas, gravatas, sapatinhos de bico fino combinando com os cintos. Se abaixassem o som do show, eu nunca imaginaria que os escoceses estavam tocando tão pesado. Ao vivo eles não abusam dos teclados nem dos beats eletrônicos. As guitarras são distorcidas, com aquele som de amplificador valvulado que se tornou tão marcante na história do rock britânico. Há bons riffs de guitarra, alguns chegam a soar até meio heavy metal. E quando os quatro músicos tocaram bateria ao mesmo tempo foi o momento ‘catarse’ (adoro essa palavra) do show.

Na plateia havia também os nerds-independentes, que adoram fingir uma despretensão. Sabe como reconhecê-los? Eles estão sempre usando All-Star, calças desbotadas e camisetas com mensagens simples como Pornstar ou um pouco mais complexas, como a que trazia a imagem de uma Kryptonita com o sinal de ‘proibido’ sobre ela. Sacou, Superman?

(Enquanto eu via o show, uma garotinha adolescente no camarote ao lado me perguntou: ‘quem é o Franz, é o cara que canta?’ Eu: ‘Não, imagina, o Franz é o baterista’)

O show de ontem no Via Funchal começou quente: e não foi apenas por causa da banda de abertura (Anacrônica, de Curitiba) nem do ótimo repertório do Franz Ferdinand. A noite estava tão abafada que o ar condicionado não foi suficiente para as seis mil pessoas que lotaram o local. Nem eu imaginava que o Franz Ferdinand tinha tantos fãs.

Se em estúdio o Franz Ferdinand tem alguns elementos eletrônicos, ao vivo a banda apresenta um som cru e muito legal. Kapranos é carismático e parece realmente gostar do Brasil: para uma banda formada há menos de dez anos, estar no país pela quarta vez deve significar alguma coisa.

Lembro quando vi o Franz Ferdinand pela primeira vez, abrindo o show do U2 em 2006. Eles não eram conhecidos e não tinham vocação (na época, pelo menos) para shows em estádios. Na verdade, pareciam um pouco como salmões (qual será o peixe típico da Escócia?) fora d’água. Ontem eles estavam totalmente ambientados: em meio a fãs que conheciam todas as músicas e cantavam junto com a banda praticamente o show inteiro. Muito bom.

O estilo do Franz Ferdinand é bastante original, embora algumas canções soassem muito com New Order, Joy Division e outros sons ingleses do início dos anos 80. Dá para dizer que eles fazem ‘Dancing Rock’, rock para dançar. O repertório do show foi baseado em canções de seus três discos, com ênfase no mais recente, ‘Tonight’. Hits como ‘Do you want to’, ‘Take me out’ e ‘walk away’ detonaram a plateia e mostraram que, como diz o Faustão, ‘quem é bom faz ao vivo’ (acho que foi a única coisa interessante que ele disse em toda a sua vida).

Achei o Kapranos um cara bem simpático, e depois essa impressão melhorou ainda mais quando fiquei sabendo que ele fez o show meio doente. Resumindo, foi uma ótima apresentação de uma banda que vai chegar ao megaestrelato daqui a uns dois ou três anos. O Franz Ferdinand tocou com tanta garra que nem parecia que estavam tão bem vestidos. Na próxima vez eu prometo ir de blazer. Eles merecem.

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