Eu queria ser Peter Frampton

Estadão

27 de setembro de 2010 | 18h26


Foto: Eliseo Fernandez / Reuters

Na semana passada, o guitarrista Peter Frampton se apresentou no Via Funchal, em São Paulo. Eu estava lá, na primeira fila, ansioso para ver de perto seus solos de guitarra e conferir se ele ainda toca tão bem quanto no disco Frampton Comes Alive, seu maior sucesso.

Frampton entrou no palco com sua guitarra Gibson Les Paul preta. Careca e de cavanhaque ralo, vestia botas de motoqueiro, calça jeans, camiseta e camisa básica.

Corta.

1980. Tenho dez anos e nunca fui a um show de rock. Um colega da minha classe, mais velho, tem duas entradas para o show de Peter Frampton. O garoto que iria com ele ficou doente e não poderá acompanhá-lo.

“Felipe, você quer ir ao show do Peter Frampton?”

A mãe dele nos leva até o Ginásio do Corinthians. Não conheço nenhuma música de Peter Frampton, mas não importa. O local está lotado de roqueiros mal-encarados e hippies com roupas floridas. As luzes se apagam e Peter Frampton entra no palco.

Ele é loiro, bonitão, cabelos compridos e cacheados tipo surfista. Tem nas mãos uma guitarra Fender Stratocaster vermelha e branca, linda. O roqueiro usa um camisão sem botões, como um quimono, não lembro a cor.

Estou em êxtase, é o primeiro show de rock da minha vida. Frampton toca superbem, como ele pode fazer um som tão legal? Na última música, ele toca um aparelho que soa como se estivesse falando com a guitarra. Ao ver aquele cara loiro, cabeludo, ‘falando’ com a guitarra, decido que quero ser ele quando crescer.

Corta.

Estamos de volta a setembro de 2010, no show do Peter Frampton no Via Funchal. Hoje eu conheço as músicas (nem todas), sei como ele faz aqueles sons tão legais com a guitarra. Apesar do show ser muito bom, não é nenhuma novidade para mim. Já fui a milhares de shows de rock. Mesmo assim, é incrível olhar para aquele cara ali e saber que é a exatamente a mesma pessoa que vi há 30 anos no Ginásio do Corinthians. Quer dizer, não sei se dá para dizer que é a mesma pessoa. Nem ele nem eu somos as mesmas pessoas, apesar de termos os mesmos nomes, Peter Frampton e Felipe Machado.

Eu queria ser ele quando crescesse, mas acabei crescendo e virando outra pessoa. Acabei virando eu, por mais óbvio que isso possa soar. Como ser humano, não sou melhor nem pior que Peter Frampton. Sou apenas outra pessoa. Por mais que tenhamos ídolos e modelos de vida, nunca seremos iguais a eles. Somos únicos. Mas como é bom rever os ídolos de infância… é incrível como isso nos ajuda a descobrir quem somos.

Thanks, Peter.

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