Bon Jovi: O típico rockstar americano

Estadão

07 de outubro de 2010 | 16h51

Bon Jovi by JF Diorio: Ele é um bom vocalista, bom compositor… e bom garoto

Antes de ser um rockstar, Jon Bon Jovi é um all american boy. A expressão em inglês descreve o típico garoto criado nos Estados Unidos nos anos 70, o arquétipo do menino perfeito, bonito, sadio, bom aluno, bom filho. A expressão cai como uma luva de couro a Jon Bon Jovi: ele é um all american rockstar.

Difícil encontrar tempo e disposição para acompanhar a maratona roqueira na cidade, local que já apelidei de ‘São Paulo Rock City’. Ontem o Bon Jovi lotou o Morumbi; amanhã é a vez do Rush. Sábado, domingo e segunda temos o megafestival SWU, também conhecido como ‘Itústock’, com Rage Against the Machine, Dave Matthews Band, Linkin Park e outros. Na quinta-feira o Cranberries toca no Credicard Hall; no outro sábado tem o festival Natura, com Snowpatrol e Jamiroquai. Ufa.

Vamos voltar ao Bon Jovi, ontem à noite, uma linda noite, por sinal. No final da tarde, pouco antes do show, estive na coletiva da banda. Em termos de conteúdo, essas coletivas têm a profundidade de um pires. As bandas gringas adotam sempre uma postura defensiva, com respostas vagas e sem o menor interesse em mostrar algum sinal de simpatia. Acho que a culpa é nossa mesmo: da imprensa, que mistura deslumbramento de fã com jornalismo; da organização, que impõe regras rígidas e profissionais para preservar o artista, mas que, com isso, cria um fosso enorme entre o entrevistador e o entrevistado; e até da propria banda, que está acostumada a tudo isso e insiste em manter o ar blasé como se fossem a turma (mimada) do Peter Pan.

Jon Bon Jovi é realmente bonitão, o cara está ótimo para 48 anos. Meio esticado, com um cabelo que não se move um milímetro na cabeça, mas tudo bem. Parecia uma espécie tímida de Clark Kent que está esperando a hora H para se transformar no Super-Homem. Richie Sambora é mais ‘poser’, jaquetinha militar e óculos escuros (depois, no show, percebi que ele deve ter dormido no sol de óculos escuros, porque ao redor dos olhos havia duas manchas brancas). Sambora está inchadão, deve ser fruto do botox e/ou do álcool, problema que chegou a afastá-lo da banda durante um tempo na turnê passada. E pensar que esse cara era casado com a atriz Heather Locklear e se separou para ficar com a igualmente gata Denise Richards; milionário, famoso. Ficar deprimido por quê, mesmo?

David Ryan, o tecladista, parece que ainda está nos anos 80: tem o mesmo cabelo estilo ‘Ovelha’ daquela época (Uou-uou Yeah-Yeah). Dá vontade de puxar os cachinhos e passar a tesoura, mas não faço isso por razões óbvias. O baterista Tico Torres parece ser a reserva moral da banda. Por quê? Bem, porque ele não fala uma palavra e ainda mantém uma cara de mau. Depois, porque ele também costuma ter relacionamento com modelos internacionais, nada mau para um cara que tem cara, sei lá, de mafioso de New Jersey.

Após a coletiva, conversei com o tecladista David Bryan e, entre outras, perguntei três coisas interessantes:

“Quem representa melhor New Jersey, Bon Jovi ou The Sopranos?”
“Bon Jovi. The Sopranos já acabou, nós continuamos no palco.”
“Enchia o saco ter um cara como o Jon Bon Jovi na banda, todo mundo dizendo que ele era lindo, etc?”
“Nossa, eu nem dormia à noite (risos). Na verdade, foi ótimo porque ajudou a divulgar nosso trabalho e nos tornou mais famosos. Mas sempre nos concentramos na música.”
“Você conhece música brasileira?”
“Conheço muito, estudei os ritmos. Mas não sei o nome de nenhum artista.”

Então tá.

Quem abriu o show do Bon Jovi foi o Fresno, e acho que os caras merecem ao menos um parágrafo. Havia um boato na internet, gente dizendo que eles seriam recebidos com vaias e xingamentos. Em primeiro lugar, vamos deixar claro que o público do Bon Jovi não teria por que ser radical, considerando que a banda tem várias baladinhas radiofônicas (não estou dizendo que isso é ruim, note-se) e é nitidamente uma banda de rock comercial. Desse ponto de vista, por que vaiar o Fresno se eles são até mais pesados que o Bon Jovi? Porque o público brasileiro é preconceituoso e ignorante. Qual o problema de uma banda brasileira abrir o show do Bon Jovi? Quem seria o nome mais adequado, o Sepultura? Por que tudo tem que ser 8 ou 80 por aqui? Por que ter raiva de uma banda nova? Brasileiro não gosta de quem faz sucesso, já dizia o ditado. Que tal esperar apenas meia hora, ouvir os gaúchos, conferir se o som é bom ou não? Se gostar, parabéns. Se não gostar, não precisa vaiar: o Bon Jovi já estava pronto para entrar em cena.

As luzes se apagam, o telão anuncia a chegada dos quatro músicos, bla bla bla. Jon Bon Jovi está realmente muito bem, o cara tem uma boa voz e uma ótima presença no palco. É simpático, bonitão, abre a toda hora o sorriso branquíssimo, afinal ele é um all american rockstar.

O repertório do show do Bon Jovi é de responsa mesmo quando comparado a quase qualquer banda no planeta (veja abaixo o set list completo). O show começa com ‘Blood on Blood’ e o telão de alta definição (sensacional, aliás) vira um gigantesco quadro vermelho. Daí vem ‘You Give Love a Bad Name’ e ‘Born to be my Baby’, e me sinto imediatamente transportado para o final dos anos 80/início dos 90. Foi uma época boa na minha vida, solteiro, morando sozinho. A música tem o poder de nos levar para outra época, outro lugar.

O show do Bon Jovi, mesmo que eu não tenha sido um grande fã na época, me leva para lá. É gostoso.
Bon Jovi e Richie Sambora tem uma excelente química no palco, como as grandes bandas da história do rock. A comparação é estrutural, não qualitativa: eles seguem a mesma fórmula de bandas como Rolling Stones (Mick Jagger / Keith Richards), Led Zeppelin (Robert Plant / Jimmy Page), Aerosmith (Steven Tyler / Joe Perry), U2 (Bono / The Edge), etc. As grandes bandas têm sempre um herói e um vilão no palco, além de um bufão e um ser mais espiritual (criei essa teoria a partir dos Beatles, claro, é incrível constatar que ela se aplica às grandes bandas de rock). Jon é o herói; Richie é o vilão. Quanto ao espiritual e ao bufão… não conheço os outros caras do Bon Jovi tão bem assim, talvez você saiba dizer melhor que eu.

Bon Jovi foi um só, e vários ao mesmo tempo. Encarnou momentos de Mick Jagger, rebolando e seduzindo a plateia; em outros, tentou (sem muito sucesso, aliás) simular a postura messiânica do Bono, atitude que lhe rendeu o apelido de ‘Bono Jovi’ durante o show, criado pelo meu amigo Miguel Icassatti (não prometi que ia dar o crédito?).

Uma análise mais profunda da personalidade pode revelar um artista que, apesar do sucesso, parece manter os dois pés (e o corpo inteiro) na realidade. Não duvidaria se ele dissesse que viaja o mundo com sua banda de rock, mas que liga para a mãe de todos os hotéis onde se hospeda depois dos shows. Como todo all american rockstar, não duvidaria se ele dissesse que vive numa casa de subúrbio com a mulher, a namoradinha que conheceu ainda na High School quando era capitão do time de futebol americano e ela era a líder das cheerleaders. Bon Jovi lota estádios mundiais, mas o que ele gosta mesmo de fazer é passar as tardes jogando baseball com seus filhos e brincando com seu cão Labrador ‘Boss’, em homenagem ao ídolo Bruce Springsteen, também de New Jersey.

(As informações no parágrafo anterior foram inventadas. Mas podem ser verdadeiras, vai saber.)

Bon Jovi tem tantos hits que é até covardia. A banda faz o típico show em estádio, onde o público passa metade do tempo com as mãos para cima e a outra metade com as mãos ao redor de alguma cintura do sexo oposto. ‘I’ll be there for you’ tem grandes chances de ser uma das baladas mais bonitas do rock americano; ‘Bad Medicine’ é um rockão rasgado e eletrizante. O destaque instrumental do show é obviamente o guitarrista Richie Sambora: o cara manda muito, muito bem. Nada daqueles arpejos a 1.000 km/h, estilo que a garotada anda gostando ultimamente: Sambora é blueseiro, abusa dos licks meio sujos, esbanja categoria e melodia nos solos. Fora as guitarras: ele entrou com uma série de instrumentos (Les Paul Gold Top, Fender Stratocaster Sunburst 57, algumas ‘Franksteins’ maravilhosas’) que me deixaram babando. Sambora também canta muito bem, como provou na versão Gospel-hard-rock de ‘Lay Your Hands on Me’. Mas quem resiste a Jon Bon Jovi cantando ‘Always’?

Engraçado pensar que a melodia de uma canção como essa poderia estar na voz de Zezé di Camargo ou Fábio Jr., dependendo do arranjo e, claro, da letra em português. É dramática, exagerada, quase sertaneja. Mas a voz de Bon Jovi imprime um certo clima à música que faz com que perdoemos qualquer efeito ‘rockocó’ que apareça. Bon Jovi é o Elvis pós-moderno: rebola, mas na hora exata e após exaustivos ensaios. No final, só resta suspirar e dizer que é uma linda balada. Mas ainda viriam ‘Blaze of Glory’, do filme ‘Young Guns II’ (o solo no disco é do grande Jeff Beck, mas Sambora fez à altura), ‘Keep the Faith’, ‘These Days’, ‘Wanted Dead or Alive’, ‘Livin on a Prayer’…

Há 15 anos o Bon Jovi não tocava no Brasil. Foi interessante ver que o público era composto por pessoas que ainda não são velhas, mas que já sabem o que é sentir nostalgia em relação a um artista. Quem tinha 15 anos na época hoje tem 30; mal ou bem, já é um adulto e deve se lembrar do show anterior do Bon Jovi como se aqueles fossem ‘os velhos tempos’. Pensando bem, eram mesmo: não havia Twitter, não havia Facebook, não havia iPhone. Coisas do século passado.

O show chega ao fim quase três horas depois; maravilha, os caras fizeram valer o preço do ingresso. Bon Jovi é uma banda de rock perfeita: vocalista carismático e bonitão, bons músicos, repertório quase infinito de sucessos. Se o Bon Jovi é o ‘all american rockstar’, nada mais justo que chamar sua banda de… ‘all american band’. O show foi previsível? Sim. Mas existe algo errado em se tornar parte na catarse de uma multidão de fãs? Qual o problema em ouvir a sua, entre 60 mil vozes, gritando ‘I Love You Baby Forever’?

Nenhum.

Bon Jovi vai voltar com os bolsos cheios de grana para sua casa no subúrbio, onde encontrará sua mulher e voltará a jogar baseball com seus filhos e a brincar com o Labrador ‘Boss’. Então, como se fosse o Super-Homem que traz tatuado no braço, vai entrar na cabine telefônica e sair de lá vestindo casaco de couro, óculos escuros e tudo que um rockstar deve usar. Mas, no fundo, a gente sabe que ele é apenas um bom garoto.

SET LIST

Blood On Blood
We Weren’t Born To Follow
You Give Love a Bad Name
Born To Be My Baby
Lost Highway
Superman Tonight
In These Arms
Captain Crash
When We Were Beautiful
Runaway
We Got It Going On
It’s My Life
Bad Medicine / Pretty Woman / Shout
Lay Your Hands On Me
Always
Blaze Of Glory
I’ll Be There For You
Have a Nice Day
I’ll Sleep When I’m Dead
Working For The Working Man
Who Says You Can’t Go Home?
Keep The Faith
These Days
Wanted Dead Or Alive
Someday I’ll Be Saturday Night
Livin’ On a Prayer
Bed Of Roses

‘I’ll Be There For Your’ (videoclipe)

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