Eu queria saber tudo sobre tudo

Estadão

13 de abril de 2009 | 11h56

Calendário Pirelli 2009 (Peter Beard)
Foto do calendário Pirelli 2009, por Peter Beard: Na minha época, os mecânicos eram menos fashion

Olha que cena ridícula: sábado à noite, tomo banho, faço a barba, escolho uma roupa legal. Desço até a garagem todo animado para sair para um jantar e… meu carro não pega.

A sensação de impotência é tão grande que dá vontade de bater a cabeça na direção várias vezes, como aqueles monges que praticam autoflagelação em algum país distante. Claro que não faço isso: não tenho nada de masoquista, muito menos de monge. Ligo para a seguradora. O único sujeito do mundo que pode salvar minha noite de sábado dá uma olhada geral e diz que não pode fazer nada. O carro terá que ser guinchado.

Só para você ter uma ideia, essa foi a parte boa. A parte ruim foi levar o carro a um mecânico e ter que assistir ao showzinho dele. O cara, arrogante como um cientista formado em Harvard, abre o capô, enfia a mão lá dentro e começa a fazer caretas. Daí ele se abaixa, some debaixo do carro e você não vê mais as caretas, o que por um lado é bom. Mas, por outro, você ouve uns ruídos e fica imaginando o que diabos está acontecendo debaixo do seu carro.

Depois de levantar as sobrancelhas, coçar o queixo e mexer na orelha, ele pronuncia o veredicto com a autoridade de um juiz do Supremo Tribunal: meu carro está com um problema sério.

Se eu tivesse um fusca 1961 que nunca passou por uma troca de óleo, acho que até aceitaria numa boa. Não sou um daqueles caras de bermuda-jeans-sem-camisa que passam o domingão lavando o carro (seria outra cena ridícula se eu fosse), mas até que sou cuidadoso. Por isso fico louco quando um mecânico diz que meu carro precisa da peça rebimbocanuclear e não consigo saber se ele está falando húngaro ou japonês.

Se ele dissesse que eu teria que trocar as quatro rodas, inclusive, eu concordaria. Se ele garantisse que eu deveria plantar bananeira na calçada para o carro pegar, eu também diria amém e obedeceria cegamente.

Odeio não entender sobre um assunto. Sei que esse é o primeiro passo para a megalomania, mas eu adoraria saber tudo sobre tudo. E eu (quase) daria a vida para não parecer um idiota na frente de um mecânico. Infelizmente, eu pareço.

Após pagar uma fortuna, meu carro ressuscitou e voltou à paz da minha garagem. Não sei se o mecânico trocou um parafuso ou o motor inteiro, só sei que ele deve estar rindo da minha cara até agora. Se o mundo fosse justo, ele seria obrigado a me contratar para escrever um texto sobre sua oficina. Aí quem começaria a fazer caretas, levantar as sobrancelhas e coçar o queixo seria eu. Mas quem disse que o mundo é justo?