Eu nunca mais vou a um festival de rock (sim, isso é mentira)

Estadão

09 de novembro de 2009 | 13h01

Tudo bem que São Paulo entrou definitivamente para o circuito de shows internacionais, mas os produtores locais poderiam ter o bom senso de não marcar dois grandes festivais no mesmo dia. Foi isso o que aconteceu no sábado, com edições do Planeta Terra, no Playcenter, e do Maquinária, na Chácara do Jockey. O Maquinária ainda teve um show no domingo, mas o sábado realmente dividiu as plateias roqueiras da cidade. Só de birra, não fui a nenhum dos dois.

(Brincadeira, não fui por outras razões que não vem ao caso.)

Em primeiro lugar, vamos nos ater à noite de sábado. Em termos de line-up (adoro essa expressão da língua portuguesa, ‘line-up’), o Maquinária foi melhor. Elogios ao Terra pela criatividade de usar o Playcenter como local de evento, me falaram que a produção estava ótima e que os brinquedos e outras atrações deram um colorido especial ao evento. (Fora que é perto da minha casa, uma razão a mais para eu achar que as produtoras deveriam fazer mais shows lá.) A Chácara do Jockey é um lugar legal para festivais, mas é longe pra burro.

No Planeta Terra tivemos Iggy Pop, Sonic Youth e Primal Scream, além de alguns nomes brasileiros como Móveis Coloniais de Acaju e Macaco Bong. Iggy Pop não me atrai nem um pouco até porque acho que ele é mais importante culturalmente do que musicalmente. “Uau, mas ele influenciou o Nirvana!”, vão dizer. Sim, muitas bandas boas são influenciadas por artistas medíocres. Iggy Pop e The Stooges são importantes como atitude, mas o punk nunca foi importante como música, a não ser para mostrar a ouvidos menos exigentes que alguém que não sabe tocar um instrumento… pode tocar um instrumento.

Sonic Youth talvez seja uma das bandas mais chatas que já pisaram em um palco. Suas músicas são barulhentas e sem dinâmica. “Uau, mas eles inventaram o indie rock”, vão dizer. Sim, muitas bandas que inventaram estilos interessantes se mostraram péssimas representantes desse próprio estilo. Quanto ao Primal Scream, eles eram legais nos anos 90, mas não sei por que alguém se interessaria pelo som deles hoje em dia. Acho que têm apenas uma música realmente boa, ‘Movin on up’, e só. Anos 90 por anos 90, seria mais legal tentar reunir o Stone Roses, não? Ou trazer o Happy Mondays, que voltou e está em turnê atualmente. Não vou comentar as bandas brasileiras porque não conheço muito, só sei que o Macaco Bong é uma banda instrumental. O que, definitivamente, não é uma boa opção para um grande festival, por mais que eles sejam bons.

O Maquinária me atraiu mais, principalmente porque eu era (sou?) um grande fã do Faith No More. Quando eles estouraram, com o disco ‘The Real Thing’, eu simplesmente furei meu vinil de tanto ouvir aquilo. Aquilo é que era World Music: um baterista rastafári, um tecladista surfista, um guitarrista hippie, um baixista heavy metal e um vocalista… bem, não sei definir Mike Patton. Acho que nem ele saberia.

Quem não se lembra do impacto que ‘Epic’ teve? Ninguém sabia se aquilo era rock, rap, funk, metal… todo mundo só sabia que era bom, muito bom. Não me empolguei para vê-los porque acho que a banda virou uma paródia de si mesmo: ninguém mais acredita que os caras dividem o palco porque estão a fim de tocar juntos, não é? É claramente uma turnê para ganhar uma grana e tchau. Mesmo assim, deve ter sido bem legal.

Jane’s Addiction foi legal nos anos 90, e como eles nunca vieram ao Brasil acho que foi uma escolha legal trazê-los. Dave Navarro é um guitarrista legal e Perry Farrel é um vocalista interessante, apesar de às vezes parecer mais como um Ney Matogrosso que tomou ecstasy. O som não é muito a minha praia, mas tenho amigos (aê, Rodrigão!) que curtem bastante. Deftones é muito barulhento para o meu gosto; Sepultura e Nação Zumbi são aquilo de sempre: bons, e só.

Veja os vídeos produzidos pela TV Estadão:

Faith No More tocando ‘From Out of Nowhere’
Jane’s Addiction tocando ‘Mountain Song’
Deftones tocando ‘Lotion’
Sepultura tocando ‘Moloko Mesto’

No domingo, consegui ir ao Maquinária, que teve Duff Mckagan (ex-baixista do Guns ‘N’ Roses), Dir en Grey (quem?), Panic at the Disco e Evanescence. Me avisaram que seria uma noite ‘emo’, mas eu sou corajoso e encarei. Não tenho nada contra o emo, aliás, nem contra nenhum outro estilo. Gosto de música boa, não de estilos bons. E lembro que fiquei impressionado (no bom sentido) com o show do My Chemical Romance, outra banda que classificam como emo.

Eu queria, mesmo, ver o Panic at the Disco. Essa banda de Las Vegas faz um som bem interessante, pesado e pop ao mesmo tempo, e muito influenciado por Beatles. Me disseram que os vídeos deles eram super produzidos, mas eu nunca cheguei a ver. Acho que era exatamente porque eu não tinha uma referência visual sobre a banda que eu achava o disco ‘A Fever You Can’t Sweat Out’ muito legal. Hoje em dia a imagem é tão associada ao som que as pessoas parecem ter que ver a foto da banda antes de decidir se gostam dela ou não. Se eu tivesse visto a foto deles talvez eu nem quisesse ouvir a banda, porque eles são muito, digamos, exagerados para o meu gosto.

O show do Duff foi bem legal. É uma banda roqueira, de verdade, daquelas bandas americanas que ligam a Les Paul em um Marshall distorcido e mandam ver. Na sequência veio uma banda muito engraçada, o Dir em Grey. Eles são uma banda emo japonesa super estranha. O vocal parece uma mulher e canta de uma maneira ultra-radical: ou com uma voz fininha, de garotinha, ou com uma voz gutural, cavernosa como uma banda de death metal. No meio disso, a banda faz um som eletrônico com guitarras pesadas e influenciado por nü metal. Pode até soar engraçado e original, mas na prática era um barulho infernal. E muito ruim.

No meio do festival, dei uma caminhada até o palco do MySpace, que tinha algumas bandas novas. Tive uma grata surpresa: Danko Jones, um trio pesado com um vocalista que era simplesmente um sósia (sem cabelo) de James Hetfield, do Metallica. A banda era boa, nada de incrível, mas… honesta (adoro esse adjetivo, uma banda ‘honesta). O som era como punk, mas tocado por músicos que sabem tocar.

Daí veio o Panic at the Disco e, junto com eles, a chuva. Os caras se saíram bem, são simpáticos e ótimos músicos. Tenho uma simpatia especial por eles, acho que o primeiro disco é realmente muito bom. Se você não tiver preconceito por eles serem uma banda adorada principalmente por adolescentes histéricas, pode até gostar do som. Veja a banda tocando ‘Nine in the Afternoon’ e decida.

Daí veio o Evanescente, grande atração da noite. Incrível como as garotas (e alguns garotos) amam a vocalista Amy Lee. E ela é realmente muito talentosa: canta bem, toca piano, escreve boas canções. Quanto às boas canções, estou fazendo uma crítica sem me basear no meu gosto musical, já que acho o som da banda meio dramático demais. Mas o público amou, ela tem vários hits e todo mundo sabe as letras. É fácil entender por que suas letras sobre ‘desilusão’ e ‘ninguém-me-entende-ninguém-me-ama’ fazem sucesso entre as jovens desiludidas que ‘ninguém entende’ e ‘ninguém ama’.

Esses grandes festivais são tão cansativos que a gente sempre imagina que nunca vai voltar a um evento assim. É mais ou menos como ressaca, quando você jura que não vai voltar a beber e na noite seguinte esquece o juramente e está tomando uma cervejinha como se nada tivesse acontecido. Hoje, dia seguinte ao festival, com o corpo descansado e cabeça cheia de informação, já começo a fazer planos para o próximo grande festival. Ainda bem que São Paulo entrou definitivamente para o circuito de shows internacionais.

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