Eu escrever bem um dia

Estadão

09 de julho de 2008 | 12h54

Sedaris

Sabe aqueles livros que a gente lê devagar, com pena porque está chegando ao fim? Pois é, ‘Eu Falar Bonito um Dia’, de David Sedaris, é assim. O escritor americano esteve na Flip (para ver os destaques da Festa Literária de Paraty pelo crítico Ubiratan Brasil, clique aqui) e trouxe na mala seu humor refinado e ultra-sarcástico. Sedaris é dramaturgo, colaborador de revistas como New Yorker e Esquire, tem um programa no rádio e trabalha ainda como humorista estilo stand up comedy.

O título ‘Eu Falar Bonito um Dia’ (que saiu lá fora em 2000) é uma referência às dificuldades que ele teve para aprender francês, já que se mudou de Nova York para a Normandia para acompanhar o namorado, Hugh. Os problemas do casal gay, inclusive, são temas de várias de suas crônicas, onde ele faz questão de confessar situações pessoais e muito, muito engraçadas.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, ele conta ‘causos’ da infância, expondo ao ridículo sua família e, principalmente, seu pai. No segundo, os alvos são suas ‘aventuras’ na Normandia, com todos os choques culturais a que alguém tem direito.

Há várias, mas a crônica mais divertida, na minha opinião, é ‘Jesus Sálvia’, em que Sedaris fala sobre a sala de aula onde, ao lado de vários outros imigrantes adultos, aprendeu as primeiras expressões em francês. Os textos são bastante politicamente incorretos, como uma espécie de Woody Allen gay. Nesse texto, ele e os outros alunos tentam explicar para uma colega muçulmana o que representa a Páscoa. Mas como ninguém sabe falar francês direito, começa uma série de frases desconexas e gramaticalmente absurdas, típicas de quem está aprendendo uma língua.

Não gosto de dizer que ver um estrangeiro tentando aprender um novo idioma é motivo de piada. Mas reconheço que é muito engraçado ouvir expressões que não querem dizer nada. Não vou usar os exemplos do livro, porque aqui ficarão sem contexto – e sem graça. Mas lembro de uma amiga minha, americana, que veio morar no Brasil e não sabia falar nada de português. Ela passou uns dias na casa de outras amigas minhas e, após uma refeição, resolveu elogiar a cozinheira. Em português.

“Você comida bem”, ela disse.

Eu e minhas amigas Marcy, Claus e Sandrola tivemos que segurar o riso com muita, muita força. É claro que, nas costas da americana, choramos de gargalhar. É que o sotaque, aliado a uma ingenuidade própria de quem não sabe falar direito, transforma um adulto numa criança – e uma situação normal em uma situação ridiculamente engraçada.

(Não preciso nem dizer que isso acontece com todo mundo, geralmente quem está no exterior e tenta se comunicar em alguma língua que não sabe direito.)

Quem gostar desse livro do Sedaris deve ler ‘De Veludo Cotelê e Jeans’, livro de crônicas de 2004, que acabou saindo antes no Brasil pela Cia. das Letras. E também é muito legal.

PS. Esse post poderia estar na seção ‘Eu Queria Ser Esse Cara’, mas não está apenas porque David Sedaris é gay.

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