Esse papa é gente fina

Estadão

14 Maio 2007 | 09h52

Se ser católico é responder ‘sim’ quando perguntam ‘você é católico?’, então eu sou. Adoro igrejas, mas acho que isso tem mais a ver com o lado estético do que com o metafísico. No quesito admiração, prefiro Darwin a qualquer profeta religioso. Mas concordo que tenha sido necessária uma força lá de cima para apertar o botão do Big Bang e começar isso que chamamos de vida.

A visita do papa provocou sentimentos contraditórios. Se por um lado as multidões lotam as missas gigantescas, uma certa elite intelectual revela uma certa animosidade. A discussão sobre o aborto, por exemplo. Culpar o papa pela incapacidade mental dos nossos políticos em discutir o tema é de uma má fé absoluta, com o perdão (divino) do trocadilho. Se aborto é tema de saúde pública (e é), então que se discuta na esfera política. O papa não tem nada a ver com as leis brasileiras. Ninguém é a favor do aborto. Alguns como eu são, sim, a favor da legalização do aborto até um certo período. Um feto de um mês ainda não é uma pessoa, por mais que sua existência seja um fato biológico. E ter um filho que não se deseja é o primeiro passo para abandoná-lo logo após o seu nascimento. E onde uma criança largada vai parar? No farol, claro.

É inútil esperar que a Igreja discuta o aborto ou a camisinha. Nenhum papa fará isso, pelo menos não enquanto eu e você estivermos vivos. Bento 16 aceita a ciência, o que já é uma vitória. Em 1633, Galileu disse que a Terra girava em torno do Sol. João Paulo II só reconheceu que ele estava certo em 1992. A Igreja é lenta… como o papamóvel.

Existe, aliás, lugar mais solitário que o interior do papamóvel? Imagine o silêncio lá dentro. Gritos e histeria pelas ruas, mas na cabine sagrada ouve-se apenas a respiração de um homem e seus gestos humanos. Se isso não é solidão, então não sei o que é.

Solidão, inclusive, que ele não sentiria se dependesse do presidente Lula. Alguém reparou quantas vezes o Lula abraçou o papa, encostou no papa, puxou o para para cá e para lá? Alguém do Itamaraty poderia ter avisado que não se encosta no papa assim, como se ele fosse um colega de pelada. O papa não é ‘companheiro’ de Lula. Ainda bem.

Também ouvi por aí frases como ‘esse papa é muito alemão para o meu gosto’, como se a Alemanha tivesse gerado apenas o nazismo e não também Beethoven e Bach. Bach é a prova de que Deus existe.

Acho que estão pegando demais no pé desse papa. João Paulo II beijava o chão, mas condenava a camisinha do mesmo jeito. Pelo que vi na TV, Bento 16 parece ser um cara legal. Graças a Deus.