Esperanza Spalding e George Benson: Jazz para todas as idades

Estadão

08 de junho de 2009 | 15h54

Pera aí, pera aí! O que um cara que gosta de heavy metal foi fazer em um show do George Benson cantando Nat King Cole?

Bom, vamos por partes. Em primeiro lugar, eu gosto de música boa, independente da idade. Em segundo, eu acabei conhecendo o pessoal da produção e aceitei o convite para o show. E em terceiro, a abertura estava a cargo da cantora/baixista Esperanza Spalding, que é uma figura sensacional.

Essa americana com ares de brasileira é realmente incrível. Seu repertório é baseado em um som de jazz super suingado, complexo, moderno, com toques de música brasileira (deve ser o sotaque brasileiro da banda, o guitarrista Ricardinho). Mas apesar de ela cantar muito bem, o que chama a atenção é sua performance como baixista/cantora: a garota de apenas 25 anos detona no baixo elétrico, mas é no acústico que ela realmente chama a atenção. Esperanza não é apenas talentosa; ela consegue transformar um objeto gigantesco que é um baixo acústico de dois metros em um instrumento sensual. Ela age como se tocar, para ela, fosse um verdadeiro ato de amor.

Não posso deixar de mencionar a versão maravilhosa que ela fez de ‘Wild is the Wind’, que ficou famosa nas vozes de Nina Simone e, mais tarde, de David Bowie. Olha só como é o destino: eu fui embora do show de ontem sem saber qual era o nome dessa música, que foi a minha favorita do show. Mas volto do almoço hoje, aqui no Estadão, e dou de cara com quem? Esperanza Spalding no elevador. Achei que ela tinha vindo me encontrar, mas infelizmente ela estava apenas saindo de uma entrevista na Rádio Eldorado. Conversamos um pouco e perguntei a ela o nome da canção que havia me hipnotizado na noite anterior. Ela me disse que era ‘Wild is the Wind’, e que estaria no seu próximo disco. Daí ela se virou para o empresário e disse: “Não falei que essa era a melhor música do show?” Ou seja, eu e Esperanza temos o mesmo gosto musical. Sem escapar do trocadilho, há esperanza para mim.

(Nossa, essa foi realmente péssima.)

Após o furacão Esperanza, entra no palco uma orquestra composta por umas 30 pessoas, que acompanhariam George Benson em seu tributo a Nat King Cole. Tudo pronto, o locutor típico de shows ‘on Broadway’ anuncia que o vencedor de 10 prêmios Grammy está pronto para o show. E Benso entra ‘em campo’ elegante, charmoso… e meio botocado, para falar a verdade. Ele explica que seu sonho era cantar como Nat King Cole, seu artista favorito… e manda a ver em ‘Mona Lisa’. Daí vem uma série de sucessos, como ‘Stardust’, ‘Route 66’, ‘Looking Back’, e, claro, ‘Unforgettable’. Vou ser sincero: acho ‘Unforgettable’ uma música careta pra burro, mas não dá para negar que a melodia, quando a gente esquece que já ouviu bilhões de vezes, é… inesquecível.

Benson transformou o Via Funchal em um palco da Broadway. E durante todo o show, além de crooner ele ainda ataca como o velho (no bom sentido) mestre da guitarra que é, fazendo sua Gibson 335 cantar uma melodia aveludada, gostosa. O som de Benson é único: são belas frases que parecem contar uma história, uma história de um homem de 66 anos que é um dos últimos ícones de uma turma que mudou a música e ajudou a popularizar o jazz.

No final da apresentação , o artista ainda detonou o que ele chamou de ‘Benson’s Party’, com sucessos como ‘Give Me The Night’, ‘Moody’s Mood’ e ‘On Broadway’. Como disse um amigo meu da produção, Benson is ‘the last of his kind’, o último da sua geração. É uma pena, quando lembramos disso. Mas, ao mesmo tempo, ao ver o gás da garota que abriu o show, eu sou obrigado a repetir mais uma vez o trocadilho: há Esperanza.

Como não há registros de Esperanza Spalding cantando ‘Wild is the Wind’, segue uma versão que encontrei no YouTube cantada por David Bowie. A de Esperanza é mais groove e dissonante; a de Bowie é mais dramática e arrastada. Mais abaixo, Esperanza apresentando ‘She Got to You’ em um programa de TV. De qualquer maneira, enjoy.

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