Especial de Natal do Rei: Eu já vi esse filme. E adorei

Estadão

16 de dezembro de 2009 | 09h47

Todo ano é a mesma coisa: filas nos shoppings, luzinhas nos prédios e especial de Natal do Roberto Carlos. De alguns anos para cá, uma outra coisa tem se repetido: a jornalista Helô Machado (o sobrenome igual não é mera coincidência, ela é minha mãe) vai ao show do Rei e escreve um texto para este blog.

Como sou muito apegado às tradições de Natal, em 2009 não poderia ser diferente.

Obrigado, Helô.

Bjs, F.

O presente de Natal é o mesmo. E a gente adora

Helô Machado

Quantas vezes você já viu o seu filme predileto? O preferido entre todos, aquele que só de lembrar você se emociona, chora, ri, quer ver de novo, a qualquer hora? E de preferência sozinho, para ninguém pôr defeito ou fazer um comentário ridículo bem naquela hora máxima, em que você está morrendo de emoção. Aquele filme que, para você, apenas para você, é uma verdadeira obra-prima? Aquela película – como estou antiga hoje! – que nenhum Oscar de ouro maciço cravejado de diamantes seria suficiente para premiá-lo em todas as categorias?

Você sabe bem do que eu estou falando. Quantas vezes você já viu ‘o seu’ filme? Aquela fita – nossa, estou antiga mesmo! – que parece ter sido feita somente para você? Várias vezes, claro.

Eu tinha uns 13 anos quando vi ‘Melodia Imortal’ pela primeira vez. E posso garantir que até hoje ele é ‘o meu filme’, o melhor da minha vida. Trata-se da história do brilhante pianista americano Eddie Duchin – na pele do belo ator (lindo mesmo) Tyrone Power – e da sua amada Marjorie, vivida pela igualmente linda Kim Novak.

Assisti a este filme nada mais nada menos do que quinze vezes. No cinema. Fora as vezes que vi o vídeo em casa, sem legendas, presente do meu filho Felipe, comprado no lugar onde ele nasceu: Hollywood. (O filme, não o Felipe.)

Em um só dia no cinema, assisti ‘Melodia Imortal’ nas sessões das duas, das quatro e das seis! E me lembro que cheguei em casa com um gostinho de ‘quero mais’.

Mas confesso que já fazia um bom tempo que não me lembrava de ‘Melodia Imortal’. A não ser quando alguém falava de filmes antigos, românticos ou comentava sobre a beleza dos artistas de cinema, de qualquer época… Ou ainda quando eu ouvia alguma música do filme: ‘Noturno’, de Chopin, ou ‘Manhattan’, por exemplo. Se fosse ao piano, então, a imortalidade do ‘Melodia’ revivia…

Nesta terça-feira, sem Tyrone, Novak, sem Nova York ou o cassino do Central Park do meu festejado filme, sem a menor nostalgia, em pleno Ginásio do Ibirapuera lotado na São Paulo de trânsito engarrafado, eu me lembrei de ‘Melodia Imortal’. Ou do que ele representou e representa na minha vida, apesar do tempo.

Diante de uma platéia absolutamente lotada e ansiosa, me dei conta de que todas aquelas pessoas estavam ali para ver e rever e ver novamente, mais uma vez, o que já viram dezenas de vezes, como se assistissem felizes ao mesmo filme, com pouca variação de figurinos e do avanço da tecnologia: o show de fim de ano de Roberto Carlos.

As mesmas músicas, as mesmíssimas frases, o mesmo sorriso tímido, as mesmas rosas brancas e vermelhas, entregues para o público no final do espetáculo, a mesma orquestra afiada com os mesmos músicos, o mesmo maestro e uma orquestra de cordas, que também já é a mesma – uma vez que já foi incluída em diversas apresentações do Rei. De novidade, apenas as presenças de Ana Carolina, do cantor Daniel, do grupo Calcinha Preta – que Roberto chamaria de Calcinha Azul – com o seu sucesso em ‘Caminho das Índias’ e da própria protagonista ou musa deste sucesso: a atriz Dira Paes, a Norminha da novela, que, linda num vestido azul (para agradar o Rei), deu um show cantando com Roberto.

Mesmo assim, os convidados artistas, todos súditos-fãs de Sua Majestade Roberto Carlos, são apenas detalhes deste e de todos os especiais, que encerram o ano com o cantor. A gravação do show desta terça, presente de Natal que a Globo oferecerá aos seus telespectadores na noite de 25 de dezembro, não foi diferente… mas foi especialíssima.

A gente já sabe de cor o que vai ver, mas parece sempre que é a primeira vez. A orquestra toca uma seleção de seus sucessos, as luzes vermelhas e brancas que piscam sem parar mudam de cor: azul, claro! Luz, mais luz! Seguem-se os primeiros acordes de ‘Emoções’. A mesma voz masculina de todos os shows do cantor anuncia pausadamente: “Senhoras e senhores, com vocês, Roberto Carlos!

Aplausos, gritos, sussurros. Ele surge de mansinho do fundo do palco do mesmo jeito. Terno azul claro sem gola, ombreiras grandes, camisa estampada de azul clarinho, tênis branco de solado alto. A gente aplaude, se emociona por vê-lo ali. Já sabe o que ele vai dizer, mas ri e aplaude como se ele fizesse uma surpresa. Como se ele fosse uma surpresa.

Há 50 anos é assim. Desse mesmo jeito. Muitas emoções, apesar do cabelo um pouco mais curto, das risadinhas mais contidas e do rosto um pouco abatido. Talvez a coluna ainda incomode um pouco o Rei. Ele teve de adiar o show de quinta=feira para ontem… Mas ele é um artista. ‘O’ artista. E o show tem que continuar. “Olha aqui, presta atenção: nas curvas da estrada de Santos, além do horizonte, é proibido fumar. Como vai você? No fundo do meu coração, eu te amo, te amo, te amo. Olha: as jovens tardes de domingo. Outra vez, cama e mesa, eu amo demais a mulher que eu amo… Como é grande o meu amor por você… A namoradinha de um amigo meu, eu te proponho: se o bem ou o mal existem, é preciso saber viver.”

“Ainda somos os mesmos. E vivemos como nossos pais… Os mais velhos poderão filosofar sobre os versos de Belchior… Mas depois de duas horas, ‘Jesus Cristo’ avisa que o show já está no fim. E, como num ritual religioso, as rosas são beijadas por Sua Majestade, uma a uma, e entregues com carinho (e muita calma nesta hora) às mãos mais fervorosas. Um monte de flores. Mas poucas, muito poucas para tantas mãos agitadas.

Roberto caminha para o fundo do palco e desaparece. A multidão sorridente vai deixando vagarosamente o ginásio. Sem pressa de ir embora. A ansiedade da entrada se transforma em estado Zen na saída. Todos parecem ter entrado em alfa: aparentam calma, serenidade. Muitos até se despedem dos seguranças, como se fossem amigos de fé, irmãos camaradas… Polícia? Para quê, se o clima é só de amor e cumplicidade?

Já vi este filme. E adorei! Que bom se a vida fosse sempre assim… Na rua, alguns ainda cantam baixinho o refrão da última música do show: ‘Jesus Cristo, eu estou aqui’. De novo e mais uma vez, estivemos aqui. E, com certeza, voltaremos. Se Deus quiser.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.