Duas visões sobre Monsieur Aznavour

Estadão

18 de abril de 2008 | 12h55

charles

Quando eu era criança, lembro dos meus pais ouvindo Charles Aznavour em casa, com seu francês empostado cantando aquelas melodias charmosas e elegantes. Há alguns dias, abri o jornal e vi que Monsieur Aznavour estaria em São Paulo para duas apresentações, parte de sua turnê mundial de despedida.

Aznavour, hoje com 83 anos, é o maior ícone da música francesa. Artista sedutor de origem armênia, esse ‘Frank Sinatra francês’ colheu seus dons artísticos do mesmo jardim onde estava plantada sua árvore genealógica: seu pai era cantor e chef de cozinha; sua mãe, uma atriz quase famosa.

Coincidência ou não, eu também aplico aqui o dom artístico herdado da família. Já contei antes, mas não sei se alguém se lembra: sou filho de dois jornalistas, profissionais de grande renome no mercado brasileiro. Nada mais natural, portanto, do que ‘contratá-los’ (que audácia!) para escrever críticas sobre o show de Aznavour, realizado ontem, no Via Funchal.

O resultado, apresentado aqui na forma de duas matérias, é muito emocionante para mim, não apenas porque os textos são lindos e ironicamente complementares, mas porque não há nada melhor no mundo do que ter orgulho de quem nos criou e nos deu amor. Isso me inspira a ser um bom pai; tomara que um dia minha filha tenha o mesmo orgulho de mim.

A seguir, os textos de Helô Machado (ladies first) e Adones de Oliveira:

Romântico total. Aos 83
Helô Machado

Quando a cortina se abre, a orquestra de 11 músicos já está no palco. O público aplaude e ele aparece. Terno preto, camisa preta sem gravata, cabeça branca, magrinho, baixo, bem baixinho. Olha para o maestro e começa a cantar.

É o início da ‘Farewell Tour’, show definido como ‘a despedida de Charles Aznavour’, no Via Funchal, em São Paulo. A apresentação já percorreu várias cidades dos Estados Unidos, Canadá, Ásia, Europa, e tem muitas ainda a percorrer pelo Brasil e pelas Américas…

Aos 83 anos, o cantor francês de origem armênia é o que se pode chamar de um romântico (felizmente) incurável. Ou seria um ‘enfant terrible’, como diriam os franceses?

Chique, discreto, ágil e versátil, ele encanta com a mesma voz e emoção que o consagraram há mais de 40 anos. Sem economia e sem cansaço. Trinta músicas – todas de sua autoria – estão no repertório dessa turnê, desfiladas durante exatas duas horas de um espetáculo inesquecível.

Ouvir Aznavour é ter a certeza de que o amor existe e pode surgir a qualquer hora. É também um retorno garantido no tempo, uma volta mágica à juventude, aos beijos apaixonados do primeiro, do segundo, do terceiro grande amor da vida da gente.

Sim, porque Charles Aznavour embalou todos eles. E aumentou a nossa paixão. E fez com que dançássemos em abraços muito apertados. E cuidou também do nosso francês: queríamos cantar com ele ‘Que C´est Triste Venise’, ‘Il Faut Savoir’, ‘La Bohême’, ‘Avec’, ‘Et Pourtant’, ‘Mourir d´Aimer’…

Francês bem melhorado, com a chegada de ‘She’ é a hora de cuidarmos do nosso inglês… Para continuar garantindo aquela emoção que se instala ‘doucement’, assim que o maior romântico francês de todos os tempos começa a cantar. E entra no coração, na casa e na vida da gente, para não sair nunca mais…

Show de despedida? Que despedida? Aznavour não concorda com isso. Ele está ótimo. E diante dele, todos nós também: quem já passou dos 40 e quem ainda nem chegou aos 30.

Como bem disse o cantor numa entrevista, a juventude o adora: ‘Quando os jovens se apaixonam, é para mim que eles vem’. Certainement.

De novo na vitrola
Adones de Oliveira

Charles Aznavour vai fazer 84 anos em maio, mas, mesmo assim, vendo-o no Via Funchal, no início de mais essa temporada no Brasil, é difícil acreditar que já esteja fazendo ‘ses adieux’… Não que saia por aí dando pulinhos, como um roqueiro, mas sua movimentação no placo, seu à vontade e sua ‘souplesse’, como dizem os franceses, não o diferenciam do artista que há décadas lota o L’Olympia de Paris e os muitos teatros mundo afora.

Último grande representante da tradicional chanson francesa, na linha de Charles Trenet, o armênio Aznavourian continua encantando platéias atraídas pela rouquidão marcante da sua voz, pela diversidade estilística de suas composições e até, como mostrou mais uma vez em São Paulo, pela teatralidade que imprime às interpretações, não fosse ele também um ator de quase 50 filmes. Mas sobretudo Aznavour se impõe, mais do que pela musicalidade, pelas letras das canções, verdadeiros poemas musicados, a propósito tão reconhecidos que seu autor já foi até editado pela famosa coleção francesa ‘Poetes d’Aujourd’hui’.

O show de São Paulo foi um tour pelos muitos temas que Aznavour percorre, alguns quase obsessivamente, como o tempo, principalmente o de quando se tem 20 anos e é preciso beber a juvenude até a embriaguez, diz ele em ‘Sa Jeunesse’. Ou, nostalgicamente o tempo que não volta mais, como em ‘Q’ue C’èst Triste Venise’. Há canções novas e canções antigas, como ‘Il Faut Savoir’, ‘La Bohème’, ‘She’ e , a mais aplaudida de todas, a valsa em que romanticamente o cantor dança consigo próprio, de rosto colado, ‘joue contre joue’, como no ‘cheek to cheek’ de Fred Astaire e Ginger Rogers.

A teatralidade de Aznavour dá também o ar da graça quando canta ‘Comme ils Disent’, em que sugere um melancólico travesti. No palco, é acompanhado por uma banda com piano e acordeon, na melhor tradição francesa, e duas backing vocals, uma das quais Kátia Aznavour, que deve ser sua filha. Aznavour, um artista que é sempre bom tocar de novo.

Foto: Tiago Queiroz/AE

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