E Pavarotti se foi

Estadão

06 de setembro de 2007 | 15h39

pavarotti

Não sou especialista em ópera, não entendo nada sobre o assunto. Só quero deixar registrado minha tristeza com a morte do Pavarotti. A primeira vez que eu o ouvi foi graças a um amigo meu, Ricardo Labate. Éramos crianças e o cara cantava ‘La Donna É Mobile’ no recreio, era muito estranho e legal ao mesmo tempo. Dava uma sensação de que a gente era culto por saber a letra da música, uma besteira que só faz sentido quando você tem treze anos.

Enfim, a gente aplaudia o Ricardo ‘Rufino’ Labate e ele dizia: “vocês têm que ouvir um cara chamado Luciano Pavarotti”, ou algo do tipo. Daí eu fui ouvir, alguns anos mais tarde, e achei maravilhoso. Não é o tipo de som que ouço em casa; estou na fase jazz/clássico e ainda não cheguei na ópera. Mas a voz do Pavarotti tinha algo de especial, uma emoção que não existia em nenhum outro cantor. Falam muito do Caruso, mas confesso que nunca consegui ouvir; para mim o Pavarotti foi o grande tenor da história, principalmente porque tinha a cabeça aberta para se apresentar com artistas de outros estilos, como Queen e U2. A sua participação na canção ‘Miss Sarajevo’, do projeto Passengers (U2 + Brian Eno) é muito emocionante, tenho que me segurar para não chorar sempre que ouço. A letra fala de uma história real, de uma garota escolhida como Miss em meio à destruição da guerra na Iugoslávia; a letra é tão triste que a gente imagina que o mundo não tem salvação, que estamos afundando na idiotia humana. Daí vem o Pavarotti e, em poucos segundos, nos restitui a esperança, como se uma simples voz pudesse salvar a humanidade da ignorância, como se um ‘dó de peito’ pudesse redimir o homem da tragédia e levá-lo a um futuro melhor.

Desculpe o tom melancólico, acho que fiquei meio emocionado mesmo. Além do talento, eu achava o Pavarotti um cara legal, simpático, carismático. Sei lá, parecia aquele tio italiano que chega de surpresa e insiste em cantar na sua festa de aniversário. Vou ligar para dar um abraço no meu amigo Ricardo Labate, que deve estar afogando as mágoas numa garrafa de conhaque.

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