Desejo e arrependimento

Estadão

28 Janeiro 2008 | 10h18

Keira

Acho que alguém em Hollywood anda lendo meus pensamentos: após ‘O Amor nos Tempos do Cólera’, mais um dos meus livros favoritos ganhou versão para o cinema. ‘Reparação’, de Ian McEwan, chega às telas por aqui com o nome de ‘Desejo e Reparação’ – o desejo do título, aliás, é totalmente desnecessário… mas deixa pra lá.

É uma história sutil, mas de tirar o fôlego. McEwan escreve tramas que mudam de uma hora para outra, alteradas pelas pequenas peças que o destino prega em todos nós. E é isso que o livro/filme tem de melhor: a certeza de que nunca estamos a salvo de nós mesmos.

Não se preocupe, não vou contar a história aqui (embora meus dedos estejam tremendo no teclado, loucos para fazer isso). Vou dizer apenas que a história começa com Briony, uma garotinha vaidosa e inteligente de 13 anos que num momento de fraqueza comete um ato de injustiça que traz conseqüências para muitas vidas. Inclusive na vida de Cecilia, personagem de Keira Knightley (foto).

A história é mais do que isso, mas tudo bem. McEwan gosta de nos deixar incomodados, imaginando o que a vida poderia ter sido e não foi. O que poderíamos ter feito e não fizemos. Dizem que é sempre melhor se arrepender de algo que se fez do que de algo que não se fez. McEwan esfrega essa idéia no rosto da humanidade, expondo nosso medo mais íntimo: o de que podemos não ter nos tornado as pessoas que sonhávamos ser. Quantas vezes você já se arrependeu de não ter dito algo? E o contrário? Quantas vezes você já se arrependeu de ter falado demais? A vida é cruel: temos que tomar uma decisão e viver com ela.

Invariavelmente, cada caminho leva apenas a um lugar. E esse lugar precisa ser escolhido antes de pegar a estrada, o que dá aquela sensação de sentar num trampolim e balançar os pés no vazio.

‘Arrependimento’ é mais do que uma palavra. É uma memória que queima a alma, de forma recorrente. É incrível como não nos acostumamos com isso, uma vez que tomamos dezenas de decisões todo dia, toda hora. Na literatura é possível reparar nossos erros, mas na vida real é mais difícil. Aqui, fora das páginas, o tempo corre sempre numa direção só: para frente. E isso é o máximo que podemos fazer: olhar para trás, aprender com os erros… e continuar vivendo.