Cuidado com a ameacinha

Estadão

07 de novembro de 2008 | 12h08

Scarlett Johansson

Em ‘Match Point’, a personagem de Scarlett Johansson é especialista em ameacinhas. E se dá mal por isso, claro

Já falei aqui sobre o fenômeno da ‘vingancinha’, aquele sentimento nem um
pouco nobre que reservamos para pessoas que a gente… ama. Na série
‘variações sobre o mesmo tema’, há outra característica bastante utilizada por casais para torturar um ao outro: a ameacinha.

A ameacinha é uma espécie de irmã mais nova da vingancinha. Se algum dia
você já disse ou ouviu a frase ‘você vai ver…’, então sabe do que eu estou falando. Fazer ameacinhas é de uma pobreza de espírito gigantesca, mas nem a pessoa mais boazinha do mundo está a salvo dessa maldição. Eu sei, é quase instintivo. Como nosso corpo faz qualquer coisa para se proteger, podemos sempre culpar nossos genes por esse tipo de comportamento. E se a ameacinha não resolver, há sempre uma vingancinha virando a esquina, prontinha para atacar.

É bom ficar claro que, do mesmo jeito que a vingancinha não é uma vingança, a ameacinha não é uma ameaça. A ameacinha é uma tentativa infantil de se conseguir algo fútil que se deseja. Mas há um paradoxo bastante profundo por trás dessa doce paranóia: Se você precisa fazer uma ameacinha, provavelmente aquilo que você deseja manter já está perdido há muito tempo. Ameacinhas do tipo ‘você vai ver’ são o tipo mais rasteiro dessa técnica rasteira de persuasão. Há variações bem mais complexas – e idiotas ao mesmo tempo – como a famosa ‘se você fizer isso, eu faço aquilo’. Dizem que ameacinhas não levam a lugar nenhum, mas eu discordo: elas te levam sempre a algum lugar – pena que é um lugar horrível para qualquer relacionamento.

Se eu fosse dar uma conselho aqui (lembre-se que não dou conselhos de graça; você paga para acessar a internet), diria para você não perder tempo fazendo ameacinhas – muito menos revidando. Porque essas ameacinhas têm um lado que as pessoas não gostam muito de lembrar: elas têm que ser cumpridas – e é por isso que se tornam tão perigosas. Se você faz uma ameacinha e cumpre, transforma o outro em refém e legitima um poder que você não imaginava ter (e que será indubitavelmente usado novamente para o mal).

Vamos supor, no entanto, que você faz uma ameacinha e não cumpre. Na próxima vez, essa ameacinha terá que ser maior ainda, e provavelmente nem será levada a sério. E aí cria-se um diabólico círculo vicioso. Por isso, desista das ameacinhas. Se você não fizer isso… você vai ver.

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