Copa do Mundo no Brasil: O sonho perdido

Estadão

26 Julho 2010 | 17h52


Shakira canta ‘Waka Waka’ na abertura da Copa da África do Sul: Seria melhor devolver a Copa do Brasil para a Fifa e dizer que não somos capazes

Confesso que não gostaria de estar escrevendo este texto, mas as circunstâncias (e uma certa revolta pessoal) me obrigam.

Acabo de voltar da África do Sul, onde participei da cobertura da Copa do Mundo. Fui a vários jogos, viajei pelo país, conheci boa parte da infraestrutura criada para o megaevento esportivo. Se o país precisava sediar uma Copa já é uma outra discussão, mas posso dizer que a África do Sul executou seu projeto de maneira extremamente profissional, com tudo muito bem feito. E é por isso que me revolta ver como o Brasil está tratando a Copa.

A Copa no Brasil foi anunciada em outubro de 2007. O que foi feito nesses três anos? Nada. Absolutamente nada. Não é tipo ‘tal obra começou, tal obra está encaminhada’. Não. Nada. Não começou sequer o planejamento do que precisa ser feito para começar o planejamento do evento.

A verdade é que não temos a menor noção do que precisa ser feito. Tenho vergonha da incompetência dos nossos governos, que não sabem o que significa a expressão ‘longo prazo’. Sabe por quê? Porque ninguém quer investir em obra que será inaugurada por outro. Bem feito para nós, que os elegemos.

No lançamento do edital para construção do trem-bala (realizado com apenas dois anos de atraso), o presidente Lula disse: “Terminou a Copa do Mundo na África do Sul e já começam a dizer: “Cadê os aeroportos brasileiros? Cadê os estádios brasileiros? Cadê os corredores de trem brasileiros? Cadê os metrôs brasileiros?”. Como se nós fôssemos um bando de idiotas que não soubéssemos fazer as coisas e nem definir as nossas prioridades”.

Talvez eu seja um idiota. Mas eu gostaria realmente de saber: Onde estão os aeroportos? Cumbica não tem estrutura para atender sequer um campeonato mundial de botão, quanto mais uma Copa do Mundo. E tenho pena do turista que chegar aqui e quiser alugar um carro. Se estiver com GPS, talvez ele consiga chegar ao hotel – isso se o carro não cair numa das crateras das excelentes ruas brasileiras. Não sabemos sequer asfaltar as ruas, como construiremos estádios?

Aliás, cadê os estádios? Não existe sequer um estádio decente em nenhuma das 12 cidades-sede. Em São Paulo, não se sabe nem se haverá estádio. Será que acham que são obras ‘rapidinhas’? Só se chamarem a empresa do Sérgio Naya, do Palace 2.

Países sérios usam eventos desse porte para investir em infraestrutura. Se o Brasil fosse inteligente e honesto, investiríamos com competência em infraestrutura, melhoraríamos a vida dos brasileiros e faríamos uma Copa do Mundo perfeita. Pena que, com o nosso jeitinho, isso só seria possível em 2034.