Coldplay em São Paulo: Viva la banda

Estadão

03 de março de 2010 | 12h46

Chris Martin veste visual à la Sgt. Pepper's

Chris Martin troca o piano pelo violão: Qualquer semelhança com o uniforme dos Beatles em 'Sgt. Pepper's' não é mera coincidência

Não é de hoje que jornalistas e críticos musicais brasileiros têm o mau hábito de falar mal de artistas que fazem sucesso. Desde que estourou no mundo inteiro, o Coldplay tem sido vítima desse tipo de cacoete. Pois eu tenho um recado para todo mundo que fala mal do Coldplay: vocês estão errados. Não dá para negar que o Coldplay é uma excelente banda, independente do gosto musical de cada um. Gostar de um determinado estilo é uma coisa; constatar um fato que está na sua frente é outra completamente diferente. Goste ou não, o Coldplay é bom.

Essa perdoável hipocrisia não é privilégio dos brasileiros. Com exceção da mídia americana, que costuma exaltar o sucesso dos bem-sucedidos (não seria uma coisa meio óbvia fazer isso?), a maioria dos ditos ‘formadores de opinião’ parecem sofrer de uma certa invejinha ‘já-que-todo-mundo-gosta-eu-não-posso-gostar’ que soa meio infantil, na minha opinião. Os ingleses são os que levam o negócio mais a sério: a melhor banda do mundo da semana passada torna-se um fracasso total na semana seguinte. O próprio Coldplay, que ganhou vários Grammys pelo disco ‘Viva la Vida’, o mais vendido do mundo em 2008, não ganhou nenhum Brit Awards. “Fomos humilhados em casa”, teria dito Chris Martin.

Colocando de lado essa introdução chata (e presunçosa), vamos ao show do Coldplay no Morumbi.

A noite começou com o Vanguart, que eu perdi graças ao trânsito de São Paulo. Engraçado foi encontrar o vocalista da banda, Hélio Flanders, na plateia do Coldplay. Disse a ele que infelizmente tinha perdido o show por causa do trânsito. ‘Eu também’, ele respondeu, enigmaticamente.

Na sequência, veio o Bat for Lashes, que está bastante ‘hypada’, como se diz em português. A banda britânica formada por quatro mulheres e um cara tem à frente a talentosa (leia-se ‘gata’) vocalista Natasha Khan, uma paquistanesa de voz firme e psicodélica, como uma versão mais normalzinha da Björk. Ela só não deu sorte no modelito: o friozinho que fazia no Morumbi ontem à noite não combinou nem um pouco com seu shortinho branco modelo ‘Pampers’.

Enfim, uma bandinha legal, mas que não tem nada a ver com o clima de show em estádio. Adoraria vê-las de novo no Via Funchal ou no Credicard Hall, lugares fechados onde as texturas de suas músicas pudessem ser melhor apreciadas, ao sabor de um Pinot Noir e uns queijinhos franceses (u-lá-lá).

Às 21h45, com vinte minutos de atraso (o que não chega a se caracterizar como atraso, a não ser que você seja britânico), entrou no palco o Coldplay.

Os caras entraram girando uns foguinhos de artifício, distribuindo sorrisos e aparentemente de ótimo humor. Isso me lembrou um episódio curioso que aconteceu quando a banda veio ao Brasil para três shows, em 2006, quando tocaram no Via Funchal.

Eu era editor do caderno Variedades, do Jornal da Tarde, e o repórter Marco Bezzi foi designado para cobrir a coletiva do Coldplay. A assessoria da banda pediu que não fossem feitas perguntas sobre a vida pessoal do vocalista Chris Martin, que é casado com a atriz Gwyneth Paltrow. Sem nenhuma maldade, Bezzi perguntou a Martin apenas quais eram os três filmes favoritos estrelados pela mulher. O líder do Coldplay foi na jugular do repórter:

“Isso não interessa. Eu não vim aqui para te perguntar qual é a posição sexual favorita dos seus pais, vim?”

Uau. Não era para tanto, né? O repórter Marco Bezzi ainda tentou retrucar dizendo que os pais dele não eram pessoas públicas, blá blá blá, mas o mal-estar já estava criado. Quando o repórter voltou para a redação, contou o episódio para mim meio cabisbaixo, chateado pelo episódio. E eu pensei: besteira. “Bezzi, escreve aí a matéria ‘O dia em que briguei com o Chris Martin’, sugeri. Lembro que foi a matéria mais interessante sobre a monótona coletiva, como todas as coletivas costumam ser.

(Desculpe pelo longo parênteses, de volta ao show de ontem.)

Lembrando do episódio mal-humorado de Chris Martin, tenho que admitir que os caras não tem nada a ver com essa imagem no palco e são muito simpáticos ao vivo. Eles ainda tinham um motivo a mais para estarem felizes: ontem foi o aniversário de 33 anos de Chris Martin (após o show, a banda havia marcado uma festinha para ele no bar Baretto, no Hotel Fasano, onde estavam hospedados). Deve ser muito legal você comemorar o aniversário em um estádio lotado no Brasil, ainda mais com um plateia de 50 mil pessoas cantando ‘Parabéns a você’. Chris Martin deitou no chão e ficou ouvindo. Imagino que ele deve ter pensado: “nossa, como eu sou bom”.

O palco do Coldplay estava simples e bonito. Acima dos músicos pairavam algumas esferas gigantes que mudavam de cor, criando texturas e um efeito bem legal. Quem olhava para cima, via uma outra esfera tão brilhante quanto as do palco: uma lua cheia e perfeita surgia em meio às nuvens que lentamente desapareciam, para a felicidade do público que torcia para não chover.

Para recepcionar a banda, a plateia agitava bexigas brancas, vermelhas e pretas distribuídas pelos fãs (não, nada a ver com o time do São Paulo, até porque os caras do Coldplay são corintianos e foram até visitar o treino do Timão para tirar fotos com o ídolo deles, Ronaldo); os telões nas laterais do palco eram de alta definição mesmo, não aquela ‘alta definição’ a que estamos acostumados a ver por aqui. Atrás do palco, uma outra tela exibia animações e cenas do show incrivelmente bem editadas. O som, no entanto, estava baixo, sem aquele volume de apresentações recentes como Metallica e AC/DC. Tudo bem, o estilo da banda é outro, mas o volume poderia estar bem mais alto. Fiquei com pena de quem estava longe do palco e pagou tão caro (o preço dos ingressos, aliás, foi absurdo como têm sido nos últimos tempos: R$ 500 por uma pista VIP??? Quer dizer que o casal têm que pagar R$ 1.000, mais o táxi e uma eventual cervejinha? Tem que ser milionário para gostar de rock no Brasil.

Do ponto de vista musical, pode parecer estranho, mas é difícil analisar um show do Coldplay. Sim, eles são uma das maiores bandas do mundo e é totalmente natural que façam shows em estádios. Mas suas canções têm algo de intimista, uma relação pessoal-musical que aproxima banda e público de uma maneira rara que não existe muito por aí. Não, não é o piano de Chris Martin nem as baladas apoteóticas. O Coldplay não tem nada do ‘arena-rock’ de nomes como Queen ou Elton John, que também tinham/têm baladas e arranjos com piano. Enquanto a voz de Freddie Mercury vinha de seus pulmões, de maneira vigorosa e visceral, a voz de Chris Martin é fraquinha, cheia de falsetes. Se fôssemos olhar apenas a curva da equalização no computador, sua voz seria um fiozinho fininho, sem muito volume e consistência.

Antes que você, fã, reclame… claro que não estou dizendo que ele canta mal. Ele canta muito bem. Mas é justamente essa fragilidade na voz, aliada a seu corpinho magro-branquelo-loiro e sua aparente timidez que fazem dele um ídolo pós-moderno tão atraente para adolescentes e fãs femininas. Ele não é o machão, o cantor de rock que traça as groupies no camarim tomando Jack Daniels. Ele é o cara sensível que colabora com ONGs, provavelmente vegetariano, bom pai, bom marido, que toma energético com suco de maçã. Eu arriscaria a dizer até que ele aceita ‘discutir a relação’ com a mulher, de tempos em tempos. E nem se incomoda.

Chris Martin é o Coldplay, e quanto a isso não há a menor dúvida. Jon Buckland (guitarra), Will Champion (bateria) e Guy Berryman (baixo) são meros coadjuvantes, e digo isso sem nenhum julgamento de valor. Eles provavelmente nem querem ser famosos ou glamourosos. Parecem satisfeitos em estar ali, ao lado da ‘estrela Martin’, ganhando seus milhões de dólares e correndo o mundo fazendo o que gostam. Quem pode culpá-los por serem felizes? Quem disse que ser mundialmente megafamoso é bom?

Outra coisa que chama a atenção musicalmente é que as canções do Coldplay seguem uma espécie de fórmula. Começam lentamente, como baladinhas. Aí entra a bateria e o refrão épico e melodramático, terminando com Chris Martin sussurrando alguma letra cabeça acompanhado por um riffzinho no piano. Ao vivo, porém, esse formato ganha uma outra dinâmica, já que muitas canções foram apresentadas em pequenos palcos-passarelas montados nas laterais do estádio (locais, inclusive onde o volume do som era ainda mais baixo. Eu estava na pista VIP, bem pertinho, e tive dificuldades para ouvir. Imagine quem estava na arquibancada).

Nesses palquinhos apertados, os quatro do Coldplay soavam como uma bandinha de adolescentes tocando no quarto de casa, com violões e pouquíssima percussão. Fica então ainda mais evidente que trata-se ali de uma grande banda, e quando digo isso não estou falando apenas sobre os músicos, que são apenas medianos. Estou falando das composições, que são incríveis. As melodias são belas, melancólicas, perfeitas.

Uma amiga disse que eles são a mistura do Radiohead com o U2; eu nunca havia pensado nisso. Não sei se concordo, mas achei a comparação interessante. Eles não são tão radicais artisticamente quanto o Radiohead (certamente é por isso que os críticos brasileiros torcem tanto o nariz), nem tão radiofônicos e megalomaníacos quanto o U2. Eles são uma banda intimista que se viu surpreendentemente tocando em estádios, quatro caras de Londres com um repertório muito bom e um vocalista que chama a atenção sem que a gente saiba muito bem por quê.

Ouvi Coldplay a primeira vez graças a meu irmão, que me apresentou ‘Parachutes’ logo que o disco saiu, em 2000. Gostei de cara de canções como ‘Yellow’ e ‘Shiver’, mas nunca imaginei que eles se tornariam uma das maiores bandas do mundo. Lembro que passei a ouvir o álbum compulsivamente durante algum tempo, até gastar o CD. Verdade seja dita: todos os discos dos caras são bons. Também gosto muito de ‘A Rush of Blood to the Head’, de 2002, que tinha ‘In My Place’ e ‘Scientist’; meu favorito, ao contrário de muita gente, é o ‘X&Y’, de 2005. Muita gente diz que é um ‘disco de transição’ rumo ao ‘Viva la Vida’, de 2008, mas acho que não devemos renegar os discos de transição. ‘Revolver’ e ‘Rubber Soul’’ dos Beatles, foram discos de transição entre a primeira fase e ‘Sgt. Pepper’s’. ‘Master of Puppets’, do Metallica, foi um disco de transição entre as porradas do início da carreira e o famoso ‘Álbum Preto’, que lançou a banda ao estrelato. Por isso eu gosto do ‘X&Y’, particularmente de músicas como ‘Square One’, ‘Fix You’, ‘What If’, ‘The Hardest Part’…

Adoro ‘Viva la Vida’, mas acho que a sonoridade criada pelo produtor Brian Eno deixou a banda muito progressiva, com timbres de teclado muito estéreis e com timbre déjà-vu. Não dá para negar que canções como ‘Violet Hill’ (que abriu o show de ontem, após a introdução de ‘Life in Technicolor’), ‘Viva la Vida’ e ‘Death and all His Friends’ são sensacionais, mas acho que o Coldplay ainda vai lançar o grande álbum de sua carreira. Eles são jovens, Chris Martin acabou de fazer 33 anos…

Não foi a primeira vez do Coldplay no Brasil, mas é a primeira vez que eles tocam em um estádio. Chris Martin, que arriscou várias frases em português (‘Fantástico’, ‘valeu, galera’, etc), terminou o show com uma frase antológica em inglês mesmo: “Sempre me diziam que tocar no Brasil era inacreditável. Agora eu sei por quê.”

Volte sempre, Coldplay. E viva la banda!

Setlist do Coldplay no Morumbi (2/3/2010)

‘Life In Technicolor”
‘Violet Hill’
‘Clocks’
‘In My Place’
‘Yellow’
‘Glass of Water’
’42’
‘Fix You’
‘Strawberry Swing’
‘God Put A Smile Upon Your Face/Talk’
‘The Hardest Part’
‘Postcards From Far Away’
‘Viva La Vida’
‘Lost!’
‘Shiver’
‘Death Will Never Conquer’
‘Don Quixote’
‘Viva La Vida (Remix)’
‘Politik’
‘Lovers in Japan’
‘Death and All His Friends’

Bis

‘The Scientist”
‘Life In Technicolor II’

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