Clarice, uma mulher misteriosa

Estadão

03 Maio 2007 | 17h54

clarice

Fui visitar a exposição de Clarice Lispector no belíssimo Museu da Língua Portuguesa, um lugar da Cidade que me enche de esperança na raça humana de maneira geral. Como profissional da palavra, acho o museu tão bonito e criativamente funcional que dá vontade de ficar horas e horas andando para cima e para baixo. A palavra, lá, é tratada como ela merece: como uma obra de arte.

Acho que exposição anterior, ‘Grande Sertão: Veredas’, estava um pouco mais interessante, mas a de Clarice também é muito interessante. Acho que o próprio estilo da escritora que nasceu na pequena cidade de Tchetchelnik, na Ucrânia, e viveu no Rio de Janeiro da bossa nova, é mais cerebral, enquanto o mundo de Guimarães Rosa era mais lúdico. O que isso significa? Que Clarice criava um mundo dentro da nossa cabeça, enquanto Rosa abria nossos olhos para um universo que podia ser do tamanho do maior sonho que existe. Na prática, Rosa escreveu (fisicamente) muito sobre a região do norte de Minas Gerais, enquanto Clarice tem textos que poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo. Na minha modesta opinião, isso permite uma curadoria mais visual da obra literária. Mas não quer dizer que uma coisa é melhor que a outra. Apenas mais visual.

Enfim, chega de comparações. As duas exposições foram/são muito legais, um passeio ótimo para quem mora em São Paulo ou quer nos visitar. Destaque para as ‘paredes de gavetas’, que permitem aos visitantes conhecerem um pouco da vida pessoal de Clarice – uma personagem, ela mesma, tão misteriosa.