Chris Brubeck: Jazz no sangue, rock na alma

Estadão

08 de setembro de 2009 | 13h20

Chris Brubeck tem um sobrenome que chama a atenção de quem gosta de boa música: ele é filho de ninguém mais ninguém menos que Dave Brubeck, lendário pianista cujo disco ‘Time Out’ está completando 50 anos de uma revolução no jazz. Mas Chris Brubeck não é reconhecido apenas pelo talento familiar: ele é um músico completo. Além de compositor, toca trombone, baixo elétrico e piano. O músico esteve no Brasil em agosto para se apresentar ao lado do pianista João Carlos Martins e de sua Orquestra Bachiana em um concorrido concerto no Teatro CIEE, em São Paulo. Horas antes, ele me concedeu uma entrevista exclusiva, que reproduzo aqui. Se preferir, veja abaixo o vídeo da TV Estadão.

Como você conheceu João Carlos Martins?É uma história um pouco louca. Tenho um amigo que costumava tocar Bach no banjo. Quando eu tinha uns 12 anos, ele me dizia: ‘você tem que ouvir esse pianista brasileiro, ele toca Bach de uma maneira totalmente diferente’. Era João Carlos Martins. Alguns anos mais tarde, eu estava tocando com meu pai em um festival no Alasca e fomos ver Martins se apresentar. Apesar de ser um respeitado pianista clássico, ele tocou uma composição do meu pai, ‘Blue Rondo a la Turk’, e ele ficou muito honrado. Fomos apresentados a Martins e acabamos ficando amigos. Depois nos encontramos muitas vezes. Uma vez, em Nova York, quando dei a ele um disco que eu havia acabado de lançar com a Sinfônica de Londres chamado ‘Bach to Brubeck’ eu disse: ‘você me ensinou a ser livre com a música de Bach’. Ele tocou esse arranjo numa apresentação no Carnegie Hall, o que me deixou muito feliz. E agora Martins e meu pai vão tocar juntos pela primeira vez no Lincoln Center, em Nova York, no dia 2 de outubro. E a Orquestra Bachiana vai tocar meu concerto para trombone e orquestra, o mesmo que tocamos juntos em agosto em uma apresentação aqui em São Paulo.

Na sua opinião, quais são as maiores diferenças entre jazz e música clássica?
Vejo poucas diferenças entre jazz e música clássica, até porque meu pai foi um dos primeiros a misturar os estilos nos anos 60 tocando com Leonard Bernstein. Acho normal transitar entre blues, jazz, folk… Tenho feito isso como compositor porque nunca estudei música em conservatórios, sou um músico das ruas, aprendi tocando com grandes bandas e orquestras. Há algum tempo havia um preconceito porque eu era considerado um músico muito aberto, tocava vários estilos. Hoje isso é uma qualidade, porque mostra que posso transitar entre várias linguagens e sou chamado para tocar com muitas orquestras e artistas diferentes.

Você se apresentou com a Orquestra Bachiana… o que você acha de Villa-Lobos?
Gosto de Villa-Lobos porque ele não é um compositor totalmente acadêmico, que busca a perfeição. Cada músico tem um espaço de liberdade que não é muito comum na música clássica, ao contrário do folk ou jazz. É lindo. Villa-Lobos parecia mais preocupado com a emoção e a beleza da obra, não tanto com a sequência perfeita das notas.

Que outros compositores brasileiros você conhece?
Não conheço muito a música brasileira, talvez porque tenha havido uma influência americana muito grande nos últimos 30 anos e isso tenha provocado uma conseqüência negativa. Conheço a banda Azymuth, e, claro, Gilberto Gil, Tom Jobim, Hermeto Paschoal, Airto Moreira e Flora Purim.

Como o fato de ser filho de Dave Brubeck influenciou sua vida e sua carreira musical?
Ser filho dele não me influenciou apenas porque ele é meu pai, mas porque tocar baixo em sua orquestra me fez crescer como músico. Como pianista ele toca tão fácil, de forma tão espontânea, que até hoje fico impressionado com a qualidade do seu improviso. Mas sou diferente dele porque para mim rock & roll e funk são coisas naturais, mas para ele não, porque não é a música da sua geração. Na música pop, gosto de Yes, Emerson Lake & Palmer. Amo os Beatles e acho Rolling Stones uma música muito simplista, um rhythm and blues de segunda linha. Gosto de algumas coisas deles, mas odeio ‘Satisfaction’. É uma canção muito primitiva…


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