Carnaval 2009: Hollywood contra os orixás

Estadão

20 de fevereiro de 2009 | 15h47

Antonio Lacerda/EFE

As bailarinas do grupo francês ‘Moulin Rouge’ vão desfilar pela Grande Rio no domingo de carnaval. Depois, elas vêm para São Paulo para me ensinar a dançar o CanCan

Dia 22 é domingo de carnaval. Grande coisa. Mais um ano, mais um carnaval chato com os mesmos enredos insuportavelmente repetitivos falando de orixás, forças da natureza, etc. Mais interessante é ver o Oscar, que também acontece no domingo à noite. As mulheres podem até estar mais vestidas, mas pelo menos têm algo a dizer além da linguagem corporal.

Não é a primeira vez que falo que carnaval é chato. E nem será novidade se minha caixa postal ficar lotada com e-mails de foliões dizendo que não respeito as tradições brasileiras e que vendi minha alma aos americanos. Bobagem: elogio as tradições que considero importantes e não estou nem aí para o decadente ex-Império dos EUA. Só acho que o carnaval virou uma festa que só serve para a gente lembrar que ex-BBB existe. E tirar uns dias de folga – essa parte eu não reclamo, afinal ninguém é de ferro (só o Homem de Ferro, diria um engraçadinho amigo meu).

Há muitas coisas que não entendo sobre carnaval, e talvez seja por isso que acho uma coisa tão chata. Nunca entendi, por exemplo, por que as pessoas aplaudem tanto a porta-bandeira. Será que é porque ela consegue dar várias voltas sem ficar tonta e cair no chão?

E por que no final dos desfiles vem sempre uma ambulância? Será que ela conta pontos como carro alegórico? Afinal, ela está ali para quê? Para socorrer algum folião com overdose de samba? Pensando bem, deve ser bastante comum morrer de tédio após passar tantas horas ouvindo exatamente a mesma música.

Outra coisa: por que os carnavalescos dão nomes sérios aos quesitos de avaliação dos desfiles de carnaval? Será que é para (tentar) dar credibilidade? Quando vejo uns desfiles tirando ‘nota 10 em Evolução’, logo imagino o Darwin coçando a barba e anotando no bloquinho: ‘Oh yeah, essa evolução eu assino embaixo’.

E o que são aqueles velhinhos de terno no final do desfile? Será que sou só eu que acho aquilo deprimente? OK, sei que eles representam a velha guarda, a tradição da escola, blá, blá, blá. Mas coitados, depois de tantos anos de dedicação, o prêmio que eles ganham é… desfilar de terno e gravata com uma temperatura de 40 graus? Que presentão.

Mais um ano se passou e eu ainda não consegui emplacar o meu samba-enredo em homenagem ao cineasta Stanley Kubrick. Imagina, que lindo, os personagens de ‘Laranja Mecânica’ e ‘O Iluminado’ na avenida? Só assim para eu trocar Hollywood pelos orixás.

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