Brasília, Capital Inicial

Estadão

16 de julho de 2008 | 09h40

capital

Aos 37 anos, confesso que tenho dificuldades em ouvir bandas de rock brasileiras. As bandas novas parecem fazer música apenas para adolescentes, com letras cheias de clichês e melodias grudentas e enjoativas. Já as bandas que fizeram parte da minha, digamos, ‘geração’, ou acabaram ou viraram simulacros de si mesmos. Ver uma turnê com Paralamas e Titãs dividindo o palco é interessante, mas seria mais legal vê-los lançando material inédito – e da mesma qualidade dos discos antigos.

Nada contra ganhar dinheiro com música, pelo contário. Fazer música é uma atividade profissional, ou pelo menos deveria ser. Essa bandas têm não apenas o direito de estar na estrada, mas a obrigação, principalmente em respeito aos seus fãs. Mas é que o verdadeiro artista não tem apenas que sair para a estrada: pressupõe-se que ele tenha a necessidade de criar. E é isso que essas bandas poderiam estar fazendo. Aliás, tenho certeza de que farão em um futuro muito breve porque têm qualidade, tradição para isso, e não vão mais aguentar tocar apenas músicas do passado.

Há, no entanto, uma exceção entre as bandas que costumamos chamar de ‘dinossauros’. E essa banda é o Capital Inicial. Não estou dizendo isso apenas porque sou amigo dos músicos (e sou, assim como do Titãs e Paralamas), mas porque tenho prestado atenção na carreira da banda, principalmente em comparação a seus colegas geracionais.

Sim, o Capital renasceu das cinzas graças a um disco acústico da MTV, que marcou principalmente a volta de Dinho Ouro Preto ao vocal depois de um período afastado – Dinho montou uma banda mais pesada, Vertigo, que não foi a lugar nenhum. E o Capital sem Dinho, substituído por outro amigo meu, Murilo Lima, também não deu certo. E isso não teve nada a ver com o talento ou capacidade artística de nenhum dos envolvidos: o Vertigo era uma banda legal e Murilo Lima é um excelente vocalista. Mas a mágica do Capital era, justamente, Dinho e os irmãos Flávio e Fê Lemos JUNTOS, apresentando o repertório do Capital. ‘Dinho’ sozinho não era tão interessante quanto o ‘Dinho do Capital’; o ‘Capital’ sozinho não era tão interessante quanto o ‘Capital com Dinho’. E a banda hoje está ainda mais coesa, desde que o guitarrista Loro Jones (um cara muito legal, mas musicalmente fraco) foi substituído por Yves Passarell, meu ex-colega de Viper.

Bom, análises ‘cabeça’ à parte, é bom lembrar que antes do ‘Acústico MTV’, o Capital havia tomado a corretíssima decisão de lançar um disco de inéditas, ‘Atrás dos Olhos’. E, apesar do ‘Acústico’ privilegiar o repertório antigo, claro, a banda apostou suas fichas nas novas canções desse disco. E esse foi um gol de placa: não apagar o passado, mas não (sobre)viver apenas dele. Foi exatamente o erro de outros dinossauros do rock brasileiro: não souberam (ou não quiseram) investir em novo repertório, novas composições, novos públicos. Eles entraram em campo com o jogo vencido, sem lembrar que poderia haver uma prorrogação ou uma disputa de pênaltis (Metaforicamente, claro, ninguém aqui está falando do RockGol 🙂

Com isso, o Capital ganhou um público jovem, teen. Claro que a personalidade de Dinho ajudou nisso, já que ele incorpora o papel de rockstar com naturalidade impressionante – e por uma simples razão: ele é um rockstar. Mas mais importante que isso, na minha opinião, foi a empatia entre as canções da banda (escritas principalmente pelo compositor carioca Alvin L., o próprio Dinho e, algumas delas, pelo meu colega Pit Passarell) e esse novo público. ‘Natasha’, ‘À Sua Maneira’ e ‘O Mundo’ foram incorporadas ao repertório dos shows e ganharam o mesmo destaque que ‘Música Urbana’ e ‘Fátima’, possibilitando uma transição do tradicional (e envelhecido) ‘Rock Brasil’ dos anos 80 para um rock mais moderno, leve, assumidamente pop… e legal.

Isso nos traz aos dias de hoje: acabo de assistir ao show do Capital no Multishow e, apesar da amizade com eles, fiquei impressionado. Para mim, foi a coroação dessa estratégia. Se alguém tiver a chance de ver, vai constatar que foi o maior show da história do rock brasileiro, mais impressionante até do que aqueles shows caóticos (e inesquecíveis) do Legião Urbana nos anos 80. O show foi em Brasília, em uma noite maravilhosa; o palco, o cenário e as luzes foram impressionantes e não deixaram nada a desejar a nenhum show internacional de rock. O público foi um caso à parte, cantando e acompanhando os comandos de Dinho sem pensar duas vezes. Parecia um comício pós-moderno das ‘Diretas Já’, com todas as óbvias diferenças conceituais.

Para não perder o hábito, o Capital apresentou duas músicas novas no show de Brasília. Para que tocar músicas inéditas num show para quase um milhão de pessoas, onde está sendo gravado um disco ao vivo? Não sei. E nem perguntei. Mas suspeito que seja a vontade de mostrar que a vida segue em frente, de entrar em campo sabendo que a partida não está ganha. Principalmente quando se joga para uma multidão.

(Foto: Marcelo Rossi)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: