O Brasil ama Black Eyed Peas. E vice-versa

Estadão

05 de novembro de 2010 | 19h13

O figurino transformou Fergie em uma mulher muito especial, quer dizer, espacial

O Black Eyed Peas ama o Brasil, e o Brasil ama o Black Eyed Peas. Foi até constrangedor o número de vezes que o vocalista will.i.am falou sobre seu amor pelo nosso país, nossa música, nosso povo. E ele não disse da boca pra fora, como seria de se imaginar: o BEP foi uma das poucas bandas no topo do mundo que aceitou realizar uma verdadeira turnê pelo Brasil: passaram por Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Florianópolis, Rio de Janeiro e São Paulo, ontem à noite, num show apoteótico no Estádio do Morumbi. A maioria das bandas vem para cá para tocar em Rio e São Paulo e olhe lá.

Além de dizer que o show de ontem foi o melhor da turnê, will.i.am prometeu que voltará no ano que vem porque quer comprar uma casa no Rio e um apartamento em São Paulo. Sabia que não pareceu puxação de saco? O discurso foi tão sincero que não acharei nem um pouco estranho ver o líder do Black Eyed Peas tomando um choppinho no Leblon ou passeando pela feirinha Benedito Calixto, na Vila Madalena. Ele já havia dito que torceria para o Brasil na Copa da África do Sul, até entrou com nossa bandeira no palco do show de abertura… Também gostei porque will.i.am subverteu a ideia de que todo gringo tem que gostar de encher a cara com caipirinha sempre que está no Brasil. ‘Não tomo caipirinha, prefiro guaraná com vodka’, brincou will.i.am. ‘Eu também’, gritei, mas não tenho certeza se ele me ouviu.

Perdoe o clichê, mas o Black Eyed Peas no palco não faz um show: faz uma festa, uma balada. A noite começou com o David Guetta, uma mistura de DJ com rockstar. O cara vai lá, aperta o botão de play no toca-discos… e todo mundo acha o máximo! Deve ser bom, né? Não precisa perder tempo aprendendo a tocar guitarra, cantar, tocar teclado, baixo, bateria… Mas tudo bem: David é meio pop demais para o meu gosto, mas sua apresentação teve pelo menos um momento genial: ‘Sexy Bitch’, com a participação do rapper-mela-cueca Akon.

Lights out. E o Black Eyed Peas surge das profundezas do palco-nave espacial, subindo por quatro elevadores (como o Michael Jackson fazia, diga-se de passagem) localizados sob a mega-estrutura. A primeira música do show é provavelmente uma das mais perfeitas introduções de todos os tempos: ‘Let’s Get it Started’ levanta até defunto. Há muito tempo eu não pulava tanto em um show (não que eu seja um defunto, claro). Infelizmente, não posso contar nada disso para meus amigos/fãs de heavy metal. Só garanto uma coisa: eu não dancei com os bracinhos pra cima. Juro.

Há uma história curiosa sobre a canção ‘Let’s Get it Started’; não tem nada a ver com o show, mas se eu não contar agora eu vou esquecer: na primeira versão que saiu do disco ‘Elephunk’, essa música se chamava ‘Let’s Get Retarded’ (Vamos ficar retardados). Era uma figura de linguagem, com o sentido ‘vamos ficar loucos’, etc. Mas pegou mal entre os politicamente corretos e o refrão teve que ser regravado com outra letra. Ficou então, bem mais light: ‘Let’s Get Started’ (Vamos começar).

Na sequência do show vieram ‘Rock That Body’, outra favorita da casa. Nesse caso, literalmente: minha filha adora essa canção, porque a Fergie canta com voz de robô. E aí a Bebel fica dizendo que a cantora é a ‘garota-robô’). Depois dela, veio a linda ‘Meet me Halfway’, que já foi até tema nesse blog

(Veja o repertório completo abaixo)

O visual do show – palco, figurino, cenário – é incrível e super futurista. O telão é enorme e a qualidade do som foi a melhor que já ouvi em um estádio (até porque o BEP deve ter muito material pré-gravado, o que facilita as coisas para os técnicos, mas tudo bem). Só não gostei muito das bailarinas que entravam no palco, ora vestidas de robôs, ora vestidas como mulatas de escolas de samba. Quer dizer, eu gostei delas, se é que você me entende. Mas que balé no palco é algo muito brega, ah, foi.

A quantidade de hits do BEP impressiona, mas, além do setlist-parada-de-sucesso, cada ‘ervilha’ (Peas, em inglês, é ervilha) ainda faz um showzinho ‘solo’ (o que deve ser ótimo para as outras ervilhas descansarem). Antes de falar sobre isso, porém, gostaria de comentar os nomes/pseudônimos/apelidos dos integrantes da banda. São super estranhos; só para começar, o DJ se chama ‘PoetNameLife’, ou seja, PoetaNomeVida. Não é exatamente o nome mais comum do mundo. (Imagina os amigos dele: “E aí, PoetaNomeVida, beleza?”)

E os integrantes do BEP, então? will.i.am se chama William, mas é tão cheio de graça que inventou essa sigla esquisita aí para complicar a vida de jornalistas brasileiros. O resultado é um apelido confuso que significa ‘Vou Eu Sou’ ou algo do gênero. Pronuncia-se ‘Uíu Ai Ém’, OK? É bom saber em caso de você encontrar com ele dia desses andando pela rua.

Daí veio o showzinho solo de apl.de ap. Eu não sei direito o que quer dizer. ‘apl’, mas acho que vem de ‘maçã’ (apple). O resto do nome eu não tenho a menor ideia, só sei que o tal do apl.de.ap é das Filipinas e seu nome verdadeiro é ‘Allan Pineda Lindo’ (não concordo com o último sobrenome, mas beleza). Na sequência veio o momento de glória-solo do cantor-rapper Taboo, um mexicano altão, branquelo e esquisitíssimo. E o gran finale não podia ficar com ninguém mais que não fosse ela: Fergie, a deusa.

Fergie merece um parágrafo especial. Não apenas porque ela é linda, carismática e canta bem, mas também porque… bem, isso tudo já é suficiente. Se você não acredita que no poder sexual que sua figura emana no palco, é só ver sua performance cantando ‘My Humps’. No vídeo já é bom, mas ao vivo é melhor. A Gretchen seria considerada uma freira perto dela.

O momento-solo mais divertido dos integrantes do BEP (fora o da Fergie, claro) foi o de will.i.am. O cara se transformar em DJ e toca várias introduções de canções conhecidas, como ‘Thriller’ (Michael Jackson), ‘Sweet Child O’Mine’ (Guns ‘N’ Roses) e até a inesperada ‘Time of my Life’, do filme clássico-cult-brega ‘Dirty Dancing’. As 60 mil pessoas que lotaram o Morumbi piravam a cada sucesso. E will.i.am dava risada, ê vida boa.

A última música do show também é a típica canção perfeita para encerrar um espetáculo desse tamanho. Além de achar que ela foi a música do ano (em 2009 e 2010, para falar a verdade), gosto porque acho que é uma espécie de hino da balada. Não foi à toa que ‘I’ve Gotta Feeling’ foi a primeira música a atingir a marca de seis milhões de downloads digitais. Seis milhões de pessoas compraram essa música pela internet, dá para acreditar? Dá. ‘I’ve gotta feeling that tonight is gonna be a good night…’ (Tenho a sensação de que hoje à noite vai ser uma boa noite… simples e perfeito).

No final do show, aquela chuva de papel picado nos lembrou com certa melancolina que a festa chegou ao fim. Dá vontade de apertar o botão do controle remoto e voltar aos primeiros acordes de ‘Let’s Get it Started’. Mas será que eu agüentaria mais uma festa dessas, assim, logo na sequência? Claro que sim. Afinal, se eu morresse de cansaço, o som ‘levanta-defunto’ do Black Eyed Peas garantiria minha ressurreição.

Setlist

Let’s Get it Started
Rock That Body
Meet Me Halfway
Alive / Don’t Phunk With My Heart
Solo de will.i.am
Imma Be
My Humps
Hey Mama / Mas Que Nada
Missing You
Solo de apl.de.ap
Solo de Taboo
Rockin To The Beat / La Paga
Solo de Fergie (Fergalicious / Glamorous)
Big Girls Don’t Cry
I.Am.Robot (DJ Set)
Pump It
Don’t Lie
Shut Up
Where is the Love?
Boom Boom Pow
I Gotta Feeling

Foto: Leonardo Soares/AE

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