'Besouro': O Clã dos Baianos Voadores

Estadão

13 de novembro de 2009 | 15h43

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Trailer do filme ‘Besouro’, de João Daniel Tikhomiroff

Só para variar, abuso de um grande amigo para colaborar com este espaço. Luiz Antonio, meu ex-colega de sétimo andar da DPZ, virou escritor e publicou o excelente ‘Minhas Contas’, com ilustrações de outro grande amigo, Daniel Kondo. Como Luiz escreve muito bem e é um capoeirista de primeira, sugeri que ele escrevesse um texto sobre o filme ‘Besouro’, atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros. O resultado você vê abaixo. Luiz, um abraço e obrigado.

Besouro voa baixo
Luiz Antonio

Vá assistir ‘Besouro’ se você não conhece nada de capoeira, nada de candomblé. Ou se você até conhece essa religião e a cultura popular, mas sente falta de filmes em que elas apareçam de alguma forma (qualquer forma). Se você quer ver um ‘herói brasileiro’ de qualquer jeito. Depois disso, dê sua opinião isenta sobre o filme. Porque a minha, definitivamente, não é.

Fui convidado a escrever sobre ‘Besouro’. Antes, é melhor que eu diga: fui assistir ao filme sem esperar muita coisa. O tema é muito importante para mim, faz parte da minha vida, do meu dia-a-dia, das minhas pesquisas. Como público-alvo, fui bombardeado na internet pela campanha on-line da película. Por isso, para não me decepcionar, fui ao cinema esperando um filme de ação ao estilo ‘Clã das Adagas Voadoras’ rodado na Bahia. Afinal, pensando dessa maneira, o trailer é ótimo (veja acima). E o que encontrei? Um filme de super-herói fraco. Tanto o cinéfilo quanto o capoeirista não se empolgaram ao final da sessão. No caso, sou os dois.

Resumindo a história contada no filme: Besouro é um menino aprendiz de capoeirista que cresce no Recôncavo sob o olhar de seu velho mestre (nem tão velho assim). Após o falecimento de seu mentor, que também é o líder dos negros oprimidos na região, Besouro tem tudo para ser seu sucessor. Por uma série de motivos (não vou estragar) ele se afasta de tudo e de todos, até que entende sua vocação, seu chamado, e vai tomar seu lugar na luta contra os opressores. Isso, claro, conta também com uma tumultuada história de amor entre Besouro e uma linda capoeirista.

Bom, como cinéfilo, assisto a tudo. Sem preconceitos. Mas isso não quer dizer que vá gostar de qualquer coisa. Gosto de filmes de ação. Gosto de comédias. Gosto de filmes nacionais. Desde que sejam bem feitos dentro da sua proposta. Em ‘Besouro’, a fotografia é linda. Cenas bonitas mesmo da Chapada Diamantina, de orixás, da feira. As coreografias também são convincentes (como cinéfilo, não vou entrar no mérito capoeirístico das lutas, deixo isso para alguns parágrafos abaixo). Os atores, na sua maioria, estão bem nos seus papéis. Bonitos, com preparo corporal e tudo mais. A história de ‘Besouro’, por si só, é interessante. Então, o que falta? Dramaturgia, roteiro. Simples assim.

As falas muitas vezes não cabem na boca dos personagens. Poderiam culpar os esforçados atores. Mas fica difícil dizer aqueles textos e fazer com que quem assiste ao filme sinta veracidade nas falas. Mais do que isso, falta estrutura de roteiro. Clímax, anti-clímax, desenvolvimento de personagens, drama. Isso mesmo, drama. ‘Mas você quer isso em um filme que se propõe a ser um filme de ação?’ Claro que quero. Se a idéia era fazer um filme no estilo hollywoodiano, um filme de herói, o mínimo que temos é que ter uma jornada bem feita desse herói. Até a edição do filme prejudica o andamento da história, que infelizmente não envolve o espectador como deveria.

O livro que inspirou o filme, ‘Feijoada no Paraíso’, esse sim sai do lugar comum. Bem escrito, uma história bem contada, sem grandes pretensões – mas que consegue surpreender. Marco Carvalho, o autor, deveria produzir mais. Quem sabe, com o dinheiro ganho com o filme, ele não possa produzir outras belas páginas como aquelas, não apenas sobre Besouro. E falando nessa lenda da capoeira, entra em cena o outro lado desse crítico: o capoeirista.

Como capoeirista, conheço Besouro há muitos anos. É uma lenda no meio da capoeiragem, um personagem histórico. Mas que, como todo personagem histórico popular (Zumbi, Lampião, Padre Cícero), teve sua vida misturada com suas lendas. Há poucos anos tive provas de que ele realmente existiu, através de sua certidão de falecimento encontrada em Santo Amaro (Recôncavo Baiano, cidade importantíssima para a cultura popular). Besouro Mangangá, Besouro Preto, Besouro de Santo Amaro, Besourinho Cordão de Ouro, Besouro de Maracangalha. Até Elis Regina já cantou sobre ele (e falou algumas coisas erradas historicamente, também).

Todos nós, capoeiristas, ouvimos algumas façanhas desse homem que veio antes da organização da capoeira em academias. Por isso, tivemos alegria e apreensão ao saber que sua história seria retratada. E, no final, para um capoeirista, o filme também tem problemas. A capoeira apresentada no filme (supostamente a capoeira da década de 20) não tem muito a ver com a capoeira mais tradicional. Isso, sem falar da musicalidade referente à capoeira, fraquíssima na tela.

A capoeira é praticada no mundo todo, da Indonésia à Dinamarca. Só no Brasil, mais de cinco milhões de pessoas gingam e tocam berimbau. É o maior vetor de expansão da língua portuguesa pelo mundo. Precisa, sim, ser representada em livros, filmes, obras de arte. Pierre Verger já fez isso de forma magistral na fotografia. Carybé, nas ilustrações. Jorge Amado deve à capoeiragem muito do que lemos em seus livros. Besouro pode ser um primeiro passo, mesmo que meio torto. Alguns diriam que antes isso do que nada. E eu concordo. Mas não vou louvar o filme e fingir que não vi seus defeitos para ‘defender a coragem de quem fez um filme sobre a capoeira’. Não.

A melhor parte ‘tradicional’ do filme diz respeito ao candomblé. Os orixás aparecem de forma linda no filme. A religião é tratada com respeito, com fundamentos. O momento em que Besouro encontra Oxum é uma das imagens mais bonitas. Mas aí, nesse caso, sei que João Daniel (o diretor) e equipe tiveram uma assessoria de primeira. Um profundo conhecedor de candomblé, que tem cargos importantes na religião, acompanhou tudo de perto. Tenho medo apenas que as pessoas, os leigos, passem a confundir candomblé com capoeira. Candomblé é religião complexa. Capoeira não é religião, apesar de ter nascido com as mesmas pessoas que criaram o candomblé ou o samba.

Logo no início do filme, vemos Mestre Alípio usando aquela velha história de que ‘o Besouro voa porque não sabe que não pode voar… porque não sabe que voar, para ele, seria impossível… Ele é pesado, tem asa curta. Mas mesmo assim, voa.’ Infelizmente, no caso do filme, ‘Besouro’ voa bem baixo. Vale a pena acompanhar esse voo? Vale, desde que se saiba que o voo não é muito alto.

Luiz Antonio é autor do livro infantil ‘Minhas Contas’, da Cosac Naify, que trata sobre tolerência religiosa. E, antes de tudo, capoeirista.

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