Balada eletrônica: O resto é segunda-feira

Estadão

20 de outubro de 2008 | 11h34

Miss Kittin
Em homenagem às DJs, a bela Miss Kittin

Sempre fui um cara do rock and roll, mas ouço outros estilos de música numa boa e até gosto de muita coisa que passa longe do som das guitarras. Semana passada aceitei o convite de uns amigos (Pééééssimo!) para ir a uma festa de música eletrônica, uma rave daquelas em que a gente passa 12 horas de pé e nem percebe.

Não foi minha primeira vez, mas admito que fazia anos que eu não me metia numa balada assim. Na verdade, fazia tanto tempo que eu nem lembrava mais da sensação de ir para cama ao som dos mesmos passarinhos que estão acostumados a me acordar.

Vamos deixar claro: rave não é para qualquer um. Alguns amigos acharam até que eu era louco de ir, mas não tenho preconceito contra nenhuma tribo, até porque é possível se divertir em qualquer lugar se você estiver ao lado das pessoas certas. (O conceito de pessoas ‘certas’ numa festa assim é bastante subjetivo, se é que você me entende). Enfim, cruzar um pouco as fronteiras da sua tribo é sempre uma boa oportunidade de conhecer lugares novos, mundos novos, gente nova. Nessa festa, por exemplo, conheci muita gente da academia.

Não, não estou falando da Academia Brasileira de Letras, antes que você pense que um globo caiu na minha cabeça e eu fiquei meio estranho. Estou falando da academia onde o culto é ao corpo, não à mente. Os papos são meio vazios, mas os corpos…

Não me lembro do nome ou do rosto de ninguém que conheci, mas na hora achei todo mundo muito agradável. Essa é uma das características de uma rave: o que vale é apenas a eternidade do momento, a cultura do ‘agora’ a serviço do prazer no coração de uma pista perfeita. Uma noite tem que valer uma vida; o resto é segunda-feira.

Tenho amigos músicos que não suportam DJs, mas eu não tenho nada contra. Até gosto deles. Não os considero músicos no sentido tradicional da palavra, mas acho que são artistas contemporâneos que conquistam seguidores como qualquer outro ídolo social, mesmo numa cultura sem rostos como a da música eletrônica. Só não me peça para explicar a diferença entre trance, breakbeat, house, dubstep, grime, downtempo, ambient, jungle, prog, psy, tecno, trance e space. Para mim, é tudo a mesma coisa.

(Ops, não era exatamente isso que nossos avós falavam sobre rock and roll?)

Acordei no dia seguinte com o ouvido zunindo, um apito agudo e constante. Pensando bem, uma rave não é tão diferente assim de um bom show de rock and roll.

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