As nossas conexões afetivas

Estadão

01 de setembro de 2009 | 15h15

Descobrir que algumas pessoas são mais especiais do que outras não me surpreende, mas como e por que isso acontece permanecerá eternamente um mistério. Tudo bem: afinidade e carinho não precisam necessariamente ser explicados com palavras.

Aplicando isso à minha realidade, gostaria de fazer uma pequena homenagem a uma das pessoas mais queridas que passaram pela minha vida (o mais correto seria dizer que fui eu quem passou pela dela), que partiu na última quarta-feira.

Como todo ocidental, não sei lidar com a morte. Porém, mais do que isso, não consigo compreender como alguém tão familiar, que esteve presente nos meus 39 anos de existência, simplesmente deixou de existir. Parece óbvio, mas não é.

Minha tia deixa de existir fisicamente, só para deixar claro. Devido à idade avançada, eu já não a encontrava pessoalmente há algum tempo. Mas seu rosto e seu jeito continuam – e continuarão – gravados em alguma amada gaveta da minha memória, compartimento que acessarei ao ouvir seu nome ou ver pequenas coisas que a tragam de volta, nem que seja por um momento singelo e efêmero.

Pessoas são conexões. E, como tal, ela era ligada à outra pessoa que me deixou e que faz a maior falta. Minha avó e minha tia eram queridas por diversas razões que não vêm ao caso, mas principalmente porque simbolizavam na minha cabeça um mundo melhor, mais correto, mais ‘do bem’.

É claro que elas tinham seus defeitos e certamente discordariam de mim em dezenas de questões, mas não é disso que estou tratando aqui: estou tratando de algo maior, como valores, ética, verdades. Algo que existe cada vez menos ao nosso redor.

Me desculpe se o texto saiu um pouco triste para um domingo de manhã. Não foi a intenção. Nem ela gostaria, como leitora assídua desta coluna. Tentando encerrá-la com um (artificial) tom de otimismo, cito uma prima que durante o velório se utilizou da velha expressão ‘ela finalmente descansou’. Descansar, nada mais justo. Para a família é sempre difícil aceitar, mas todos temos uma história de vida, um caminho a percorrer antes de chegar a um determinado destino.

Onde é esse destino? Sei lá, cada um que busque o seu. E torça para ir embora no momento em que, simplesmente, como se a morte fosse uma escolha, se deseje apenas isso: descansar.
É triste dizer adeus, mas talvez seja possível reduzir esse sentimento de impotência acrescentando uma palavra ao final da frase.

Portanto… adeus, tia Olga. Adeus e obrigado.

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