Amy Winehouse: Um show meio 'nada', vamos combinar

Estadão

17 de janeiro de 2011 | 14h45

Amy Winehouse até chegou a abrir os braços… mas o show não decolou. A foto é de Daniel Teixeira/AE

Pensei em começar esse texto com a frase “Amy Winehouse é uma farsa”, mas achei um pouco agressivo e fiquei com medo que os fãs me jogassem perucas ou copos de caipirinha quando me encontrassem na rua. Depois pensei em escrever que “o show tinha sido uma decepção”, mas aí eu também estaria sendo conceitualmente errado, já que isso implicaria que eu tinha ido ao show com uma expectativa alta. A verdade é que o show não foi bom, nem ruim. Foi, simplesmente… um show meio ‘nada’.

Confesso que nunca fui muito fã da Amy Winehouse. Sempre achei que era uma cantora superestimada, e quando não consigo enxergar valor em artistas que ganham muito destaque na mídia, automaticamente crio uma birra quase impossível de ser desfeita, a não ser quando uma performance arrebatadora me obriga a admitir que estava errado. Não foi o caso, como vimos no Anhembi. O evento, no entanto, foi interessante para entender por que Amy é um fenômeno tão popular. Quando vi o público aplaudir enfaticamente toda vez que ela dava um gole em sua caneca misteriosa, entendi.

“Ela é bem louca, mas canta muito, né?”, comentavam os fãs. Fiquei com vontade de chacoalhar suas cabeças e dizer: “sim, ela é bem louca, mas não canta muito, não”.

Vamos começar do começo.

Perdi o show de Mayer Hawthorne, mas ouvi falar que foi muito legal. Só de saber que ele é influenciado por Marvin Gaye, já é um bom sinal. Cheguei, sim, a tempo de ver o show da Janelle Monáe, que foi muito bom. Essa, sim, é uma bela cantora. Boa voz, boa presença de palco. Ainda não consegui entender por que as cantoras de soul têm que ter penteados tão ridículos, mas tudo bem. Será que está no contrato? “Nós vamos lançar seu disco, mas você terá que usar um penteado de um metro e meio de altura, ok?”, deve perguntar o presidente da gravadora.

Tecnicamente, a voz da Janelle é poderosa, enorme, daquelas que preenchem com facilidade o céu de um festival ao ar livre. Havia algumas coisas meio esquisitas no show, mas talvez eu que é esteja fora de moda. No meu tempo, a soul music era uma coisa charmosa, envolvente, sexual. Janelle deve ser uma cantora de soul music pós-moderna: os ritmos são rápidos, uptempo, soam como se fossem tocados por uma banda de ska. Soul-ska ou Ska-soul… será que existe isso?

Quanto à banda, os músicos ficam pulando de um lado para o outro (todos excelentes, diga-se de passagem, principalmente o guitarrista-que-estava-de-chapinha). É uma soul music mais visceral, mais porrada. Janelle não é só ‘soul’, mas também ‘body’: dança loucamente, se joga no chão, pula pra lá e pra cá. Ela é tão energética que pensei em apelidá-la de ‘Janelle Indiscreta’, mas um amigo meu disse que a piada era tão ruim que prejudicaria o resto do texto.

Havia, além da correria de Janelle & Cia., alguns elementos teatrais durante o show, como gente vestida ‘De Olhos Bem Fechados’ e máscaras Jungianas. Nunca entendi por que dizem que ‘elementos teatrais valorizam um show’. Nunca concordei com isso. Acho, inclusive, que ‘elementos teatrais’ são bem chatos. Vamos nos concentrar na música? Obrigado.

Em outro momento ‘artístico’, a Janelle pegou uma tela e pintou um quadro enquanto cantava. Fiquei pensando: ‘que legal, quem sabe ela vai leiloá-lo para as vítimas das enchentes no Rio’. Ninguém explicou o que aconteceu com o quadro. Fica aqui a sugestão, se ninguém souber o que fazer com ele.

Janelle saiu aplaudida, e aí todo mundo ficou na expectativa da entrada da estrela da noite, Amy Winehouse. Ou Amy Caipirinhahouse, apelido que ela ganhou durante sua temporada no Rio de Janeiro. Uns quarenta minutos depois, a banda de Amy surge no palco. Só faltava ela.

Tchan-tchan-tchan-tchan…Amy aparece caminhando lentamente, parece uma velhinha de 27 anos. O vestidinho preto e branco caiu bem: tomei como uma homenagem ao Corinthians. Mesmo com o decotão e os seios turbinados de silicone, Amy não é nem um pouco sexy. É uma figura assexuada, apática, baixinha e magrela. As pernas são finas como canetas. Com o penteado, deve ter cerca de 1m30 de altura. Se a Amy fosse careca (que cena linda de se imaginar), eu chutaria que ela não passa de 80 cm.

Agora tenho que dar o braço a torcer: o repertório dela tem canções muito boas: Me and Mr. Jones, Back to Black, You know I’m No Good, Rehab. O problema é que Amy não tem gás para cantar essas músicas com emoção, o que resulta em um show morno, sem graça. Além disso, o som estava meio baixo para um público de trinta mil pessoas. Ou então a banda é que teve que tocar mais baixo para não encobrir a vozinha da vovozinha Amy.

Não sei se o gênero ‘doidona’ é totalmente verdadeiro, mas acho que deve ser. O que me incomoda não é ela abusar das drogas – muitos artistas usam/usaram drogas e produziram grandes trabalhos. O problema de Amy é que as drogas – e tudo o que vem com os excessos, os escândalos, fotos ridículas, etc – não são o pano de fundo para um grande trabalho, mas são justamente a essência do seu trabalho. Não gosto de artistas que aparecem mais nas páginas policiais do que nas críticas de música.

E descobri que, para o grande público, a ‘doideira’ dela é o grande atrativo do show: as pessoas esperam que ela faça alguma coisa louca, tropece, sei lá, morra de overdose no meio do palco. É um sentimento meio de ‘pão e circo’, como se algo perigoso fosse acontecer e fazer o público se sentir importante por ter participado daquele momento. No entanto, ela não caiu; não tropeçou, não morreu. Seria cruel dizer que a falta de escândalos gerou uma decepção, mas é a pura verdade. O público é a multidão gritando ‘pula’ quando vê alguém no topo do prédio.

Algumas pessoas defendem: ‘mas ela é uma grande cantora’. Também discordo. Amy tem, sim, um belo timbre de voz. Parecido até com as grandes cantoras do passado, como Nina Simone e Billie Holiday: uma voz rasgada, incisiva, irônica até. Mas o que é bom nela é o seu timbre, não a totalidade da voz em si, nem sua potência, alcance, afinação. É por isso que ao vivo ela não entrega o que ouvimos no estúdio.

Outra coisa: se for para ouvir uma grande cantora de soul, por que não ouvir as originais? O estilo retrô de Amy pode ser legal para quem não conhece as grandes cantoras do jazz/soul/blues americano, mas para quem conhece… soa como um pastiche, uma imitação bem feita. Melhor ouvir a Joss Stone ou a Alicia Keys, que também imitam as grandes cantoras, mas pelo menos têm vozes de qualidade para fazer homenagens à altura. Só o hype de Amy nunca me convenceu. Além disso, Joss e Alicia têm aquela qualidade de diva que falta a Amy: a sensualidade, o charme, a beleza. Chamar a entorpecida Amy de diva é um desrespeito com as divas.

Como o próprio nome já diz, o Summer Soul Festival foi um festival de… soul music (dã). Posso até estar sendo meio careta, mas não acho que soul music combina com grandes festivais; peraí, deixa eu explicar melhor. Soul music produz um sentimento mais introspectivo, mesmo quando as batidas grooveadas da cozinha musical ( bateria/baixo) fazem a gente dançar de um jeito meio sexy, com as mãozinhas pra cima (mulheres) e arrastando os pés timidamente (homens). Não há grandes refrões para cantar junto, o que é divertido nos grandes festivais de pop e rock. Um festival de soul ao ar livre é mais ou menos como fazer amor na praia: é maravilhoso na teoria, mas seria bem mais divertido se rolasse entre quatro paredes, com a luz certinha, um belo vinho.

Aproveitando que toquei no assunto etílico, como é possível um festival patrocinado por uma cerveja… ficar sem cerveja? Pois foi o que aconteceu. A cerveja acabou no show da Janelle e nem sei se voltou mais tarde.

Como eu estava com muita sede, fui até o bar ao lado do palco. Chegando lá, um bar enorme, fiquei surpreso ao saber que a cerveja também tinha acabado. Foi aí que pensei: ‘onde deve ser o único lugar do festival onde posso encontrar cerveja com certeza?’ E respondi pra mim mesmo: ‘No camarim da Amy, claro.”

Pois foi aí que tive a ideia genial de ir pegar uma cerveja no camarim da Amy. Não vou entrar em detalhes sobre o que fiz para entrar lá, mas a verdade é que cinco minutos depois eu estava tomando Stella Artois na porta do camarim. Foi aí que veio a grande surpresa: a Amy desceu do palco e passou na minha frente, em direção ao banheiro do camarim. Ela nem me viu, claro, até porque estava rodeada por seguranças. Mas achei muito engraçado vê-la descer do palco e ir até o banheiro do camarim, ainda mais quando a produção tinha construído um banheiro para ela embaixo do palco. Talvez o banheiro do camarim tivesse mais privacidade, se é que você me entende.

Pouco depois, durante minha segunda ‘backstage beer’, a Amy passou de novo na minha frente para voltar ao palco. “Por que você não tirou uma foto?”, me perguntaram. “Porque eu estava segurando a cerveja”, respondi. Lembrei na hora de ter lido na imprensa que a Amy estava ‘bem saudável’, com ‘ótima aparência’. Se aquela mulher que passou na minha frente estava com uma ‘ótima aparência’, então talvez as crianças na Somália não estejam numa situação tão ruim assim.

Voltei para a plateia para acompanhar as últimas músicas. Fiquei feliz quando vi que ela voltou para um bis, o que não tinha feito nos shows de Floripa e Rio de Janeiro. Ao final, sussurrou um ‘thank you’ baixinho e desceu as escadas do palco, entrando na van que a levou embora para o hotel e, depois, para uma baladinha no Itaim. Foi isso que ela tinha a dizer para o público brasileiro: ‘thank you’. Se eu ganhasse R$ 13 milhões para fazer uma turnê de cinco shows com uma hora de duração, eu diria ‘thank you’ muito mais empolgado.

Mas, afinal, o show de Amy foi bom? Não, não dá para dizer que foi. Foi ruim? Também não dá para reclamar disso. Foi um show meio ‘nada’, para falar a verdade. Para quem não esperava muito, foi uma bela noite de sábado: uma lua brilhante iluminando o céu, uma noite quente, gostosa, sem chuva. Uma plateia bonita, muitos famosos, um soul music legal rolando nas caixas de som. Foi show de quem mesmo?

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