'All My Life', o disco novo do VIPER

Estadão

25 de julho de 2007 | 16h09

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Acho que já mencionei por aqui que toco numa banda de rock pesado, o VIPER. Não vou entrar em muitos detalhes sobre a carreira do VIPER, porque quem quiser saber mais sobre o assunto pode entrar no site oficial (www.viperbrazil.com.br) e ouvir músicas, ver fotos, clipes, etc. Ou leia a matéria do Marco Bezzi, publicada no Jornal da Tarde e no portal do Estadão.

Como guitarrista, o que eu vou fazer aqui é comentar o disco novo da banda, ‘All My Life’. Assim, quem sabe, você se empolga e vai até a loja para comprá-lo. 🙂

1. ‘All My Life’: A música que abre o disco é uma canção ‘clássica’ do Pit Passarell, baixista e principal compositor da banda. É uma música que começa rápida, pesada, mas com muita melodia. O Pit escreveu essa música justamente para abrir o disco, porque na cabeça (genial e maluca) dele, ela tem um pique bom ‘pra abrir show’. No meio da música tem uma parte que eu gosto muito: uns vocais à la Queen, com várias vozes sobrepostas, em harmonias bem complexas e interessantes.

2. ‘Come on Come on’: Essa é minha única composição no disco, na verdade eu colaborei apenas com a letra e o Pit fez a música. Quer dizer, eu também ajudei um pouco na música, mas ela é principalmente do Pit. A letra é uma adaptação do conto ‘The Outsider’, do H.P. Lovecraft, um escritor que eu nem gosto muito mas que tem uma estética que tem bastante a ver com heavy metal. É um texto sombrio e agressivo; a história fala sobre um cara que nasce numa torre e passa a vida inteira preso. Um dia ele consegue fugir, escala a torre e vai parar numa floresta. Aí ele entra numa festa e as pessoas ficam horrorizadas. Ele olha então no espelho e, pela primeira vez na vida, descobre que é um monstro. Sei que assim a trama parece meio boba ou ingênua, mas o texto é bastante rebuscado e cria um clima de ‘lenda’ bastante interessante. O Pit acrescentou uma linha na letra ‘Come on come on, I have a gun’ apenas para rimar. Não tem nada a ver com a história. Eu só deixei passar porque não estava no dia em que o vocalista Ricardo Bocci gravou.

Quanto ao instrumental, a música é um rock pesado e cadenciado, com influências de hard rock dos anos 70, principalmente do Deep Purple. Eu faço todos os solos de guitarra do disco, e este é um dos meus favoritos. Ninguém percebe, mas em um dos riffs, eu toco a melodia de ‘Pharao’s Dance’, música que abre o ‘Bitche’s Brew’, disco antológico do Miles Davis. Tinha que dizer isso aqui, assim talvez alguém preste atenção.

3. ‘Miles Away’: Essa música é do vocalista Ricardo Bocci, que acabou de entrar na banda. Fiquei impressionado com ela, porque as outras composições que ele trouxe eram muito calcadas em heavy metal melódico (que eu acho meio chato). Esta não: é muito boa, tem uma energia incrível e um refrão melhor ainda. Ela é muito divertida de tocar ao vivo, com umas guitarras bem fortes e sem muita enrolação.

4. ‘Not That Easy’: Outra música do Pit, outra obra-prima. Pode parecer que estou puxando o saco dele só porque ele é da minha banda, mas isso não é verdade. Ele é um gênio, um dos melhores compositores do País. Quem não gosta de heavy metal tem que ouvir essas composições no violão: são maravilhosas. ‘Not That Easy’ também foi gravada em português numa banda-projeto que a gente teve, o Metanol. Em português ela se chama ‘Última Festa’, e tem uma letra muito boa. Trecho: ‘Vamos comemorar / Que o amor existe / Que estamos vivos e temos amigos / Quero deixar alguma coisa pra você / Uma canção pra você não esquecer”. Muito legal, essa parte sempre me emociona.

Mas voltando a ‘Not That Easy’: é uma chamada ‘power ballad’, uma balada forte e perfeita para ser tocada em grandes estádios (que pretensão! 🙂 .
Eu queria que ela se chamasse ‘Everybody Knows’ (é o que o Bocci canta no refrão), mas fui voto vencido. A parte que eu mais gosto é o final, tem um ‘crescendo’ de bateria (brilhantemente tocada por Renato Graccia) que atinge um clímax… bom, tem que ouvir.

5. ‘Love is All’: Essa é a melhor do disco, mesmo sendo extremamente longa (7 min) e difícil de tocar. No disco ela tem a participação de Andre Matos, que foi nosso primeiro vocalista (no longínquo período 1985-1989) e gravou dois discos com o VIPER, ‘Soldiers of Sunrise’ e ‘Theatre of Fate’. Quando o Andre saiu da banda, em 1990, eu fiquei bem bravo e costumava falar mal dele para as pessoas. Hoje vejo que foi uma coisa ridícula, uma infantilidade minha. O Andre é um cara muito legal, além de ser talvez o melhor vocalista de heavy metal do mundo hoje em dia. Sério, o cara é inacreditável. Voltamos a ser grandes amigos, acho até mais do que antes. Às vezes a gente faz shows juntos, enfim, está tudo numa boa há muito tempo e vai continuar assim pra sempre.

Voltando à música, ‘Love is All’ é uma expressão que o Pit criou e, embora o correto fosse ‘Love is Everything’, acho que a liberdade poética permite. Além disso, ele canta ‘Love is All… That I need’, então tudo bem. Em seus 7 minutos, a música começa lenta, daí fica rápida, lenta de novo… o solo também tem uma citação de jazz (ritmo que eu ando obcecado há algum tempo), desta vez de outro ídolo meu, John Coltrane. Se você prestar atenção, vai ouvir o riff principal de ‘Love Supreme Part 2: Resolution’, do disco ‘Love Supreme’.

6. ‘Cross the Line’: Essa música é do guitarrista Val Santos e tem uns riffs de guitarra matadores. É a mais pesada, até foge um pouco do resto do repertório, mas o público tem gostado bastante. Para conseguir esse peso, o Val abaixou a afinação da guitarra, assim a 6a. corda, normalmente afinda em Mi, virou Dó, e as outras foram abaixadas um tom. Isso é meio técnico, então, para resumir, o que acontece é que a guitarra fica muito mais grave, portanto, muito mais pesada. As bandas de nü metal e o Metallica usam muito isso, e como o sonho do Val é ser o James Hetfield, ele quis fazer isso também. O problema de tocar com outras afinações, porque ao vivo a gente tem que levar muitas guitarras reservas, com afinações diferentes, etc. É um saco, mas a música é boa e talvez eu tenha que concordar em tocá-la ao vivo.

7. ‘Do it All Again’: Foi a primeira música composta para o disco, também pelo Pit. Eu achava que era muito boa, mas como as outras são muito excelentes, essa acabou ficando para trás. É uma música tipicamente VIPER, ou seja, muita influência de Iron Maiden e muitas guitarras ‘gêmeas’ (riffs duplos, com melodias em terças)

8. ‘Violet’: A música mais bonita do disco, outra do Pit. Essa é uma balada que seria primeiro lugar em qualquer rádio do Brasil – se não existisse jabá, claro. A letra é um pouco triste porque eu conheço a história do Pit, mas quem não conhece vai achar que é uma belíssima história de amor. Enfim, ‘Violet’ é muito linda, emocionante. O solo é do meu grande amigo Yves Passarell, que foi guitarrista do VIPER de 1985 até 1999, mais ou menos. Daí ele entrou no Capital Inicial e entrou num ritmo louco, quase nem dá mais para sair e tomar cerveja.

9. ‘Dreamer’: Outra do Val, essa é totalmente heavy metal. Muito metal melódico para o meu gosto, mas tenho que reconhecer que a música é boa. Tem um refrão que gruda na cabeça, então ponto para Val nesse aspecto.

10. ‘Soldier Boy’: Música instrumental do Pit, que a gente vai usar de intro (introdução) na nova turnê. É muito legal, épica, eu a vejo como o personagem da capa do disco ‘Soldiers of Sunrise’ quando era criança. Eu toco violão.

11. ‘Rising Sun’: Música do Ricardo Bocci. Muito boa, embora eu não lembre muito bem como ela é.

12. ‘Miracle’: Composição do Val Santos, tem muito a ver com esse disco: Foi um ‘Miracle’ a gente ter lançado. 🙂

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