AC/DC: Uma locomotiva de rock and roll (o clichê é intencional)

Estadão

30 de novembro de 2009 | 18h03

AC/DC por Marcelo Rossi
Uma homenagem do AC/DC às groupies gordinhas: ‘Whole Lotta Rosie’ montada no ‘Rock and Roll Train’. Fotos de Marcelo Rossi

Conheço o AC/DC há anos, mas o show de sexta-feira foi uma surpresa para mim. Mesmo sabendo que ‘Black Ice’ era o disco mais vendido do ano e que a turnê dos australianos só era menos lucrativa que a do U2 e Madonna, eu ainda achava que seria apenas um show a mais. Quanta ignorância (minha).

Confesso que o AC/DC nunca foi a ‘minha’ banda. Eu preferia Led Zeppelin, Beatles, Queen. Achava o AC/DC muito simples, simplista. Meio raso. Mas o AC/DC ao vivo é uma coisa tão sensacional que fiquei sem palavras. Eu, que achava o show do Kiss ao coisa mais incrível do rock and roll, vi que o AC/DC deu de 100 a zero.

Vamos começar pelo palco: enquanto todo mundo está investindo em telões, ou seja, imagens maravilhosas em 3D, etc, o AC/DC coloca uma locomotiva gigante soltando fogo e fumaça. Não é modo de dizer: era uma locomotiva gigante mesmo no palco logo na introdução do show, com ‘Rock and Roll Train’, do disco novo. E daí você tem uma ideia do que é um show do AC/DC. Em ‘Hell’s Bells’, um sino enorme desce no palco e aí, novamente, há o impacto de uma coisa verdadeira, não de uma imagem em um telão. Em ‘Whole Lotta Rosie’, uma boneca inflável gigantesca monta no trem e faz uma homenagem às groupies gordinhas (sim, macho que é macho não liga se a mulher é gordinha). Sem esquecer, claro, os canhões em ‘For Those About to Rock’, explodindo a cada refrão como uma bomba de rock and roll (o clichê é intencional).

É tudo muito orgânico, verdadeiro, vintage. Não há bullshit, para usar uma expressão em português. Há tecnologia, sim, como luzes e telões de alta definição. Mas o principal ali é o som, perfeito e altíssimo, e o culto à guitarra e, por consequência (ou por intenção mesmo) a Angus Young. Ele não é apenas um cara que agita tanto quanto Mick Jagger (ou mais). Ele é um dos melhores guitarristas da atualidade (há 36 anos, diga-se de passagem). Eu achava que Angus era um bom guitarrista de blues rock, com riffs vigorosos e solos memoráveis. Mas ele é mais que isso: ele toca muito, muito. Toca rápido quando é preciso, abusa dos licks de blues na sua tradicional guitarra Gibson SG quando a música urge. E faz isso não apenas uma pequena parte do show: ele toca duas horas de solos incendiários (o clichê é intencional). Quando ele mostra os chifrinhos em ‘Highway to Hell’, dá para acreditar que o cara tem um pacto com o capeta. Em ‘The Jack’, ele faz um strip tease e, na hora de mostrar a bunda, revela uma cueca com o logotipo do AC/DC. Agora me diz uma coisa: quantos caras podem fazer isso em um estádio de 70 mil pessoas sem serem apedrejados? Pois o público idolatra Angus. E com razão. O cara é demais.

Lembrando, claro, que Angus tem 54. Se eu fosse dono de academia, criaria o workout ‘Angus’, que consistiria no seguinte: você corre com uma guitarra no ombro durante uma hora e meia batendo a perninha como Chuck Berry e balançando a cabeça. Tudo isso vestindo um terno e gravata. Quando você estiver encharcado de suor, você tira a camisa e faz isso por mais meia hora. Daí você se joga no chão e roda, sem parar. Daí você pula algumas vezes. Faça isso a cada três dias. Durante 36 anos.

O resto da banda vale apenas porque eles são do AC/DC. Malcolm Young, irmão de Angus, é um bom guitarra base, mas também vamos ser justos. Ele não toca nada de mais. Cliff Williams é um baixista OK, assim como o baterista Phil Rudd (lembro que nos discos o Phil Rudd era tão limitado e sem criatividade que a gente chamava ele de ‘Phil Ruim’.)

Quanto ao vocalista Brian Johnson, permita-me dedicar um parágrafo à parte. É um caso raríssimo de vocalista de banda de rock que não sofre de egolatria. Ele entrou na banda após a morte de Bom Scott por overdose causada pelo próprio vômito (ele engasgou após dormir uma noite bêbado no banco de trás de um carro; dizem também que ele morreu de frio porque estava sem camisa em um inverno europeu daqueles). Isso aconteceu em 1980, e até hoje chamam Brian de ‘o vocalista novo do AC/DC’. E o pior é que ele não parece estar nem aí para isso. Ele não parece estar aí para nada, inclusive para o seu próprio visual. Brian Johnson deve ser, de longe, o cara mais feio do rock. Ele ainda se veste com um caminhoneiro de quinta categoria, com um bonezinho ridículo e uma camisa com as mangas cortadinhas. Ele parece um cara que cantava no bar da frente do Morumbi e chamaram para dar uma canja porque o vocalista titular não apareceu. Sua voz é tão esganiçada que não sei nem se podemos chamar de voz. E, no entanto, ele é perfeito para o AC/DC. Ele é tosco e verdadeiro; ele é autêntico e fala a linguagem de seu público. Ele é popular, mas não populista. Ele é simplão mesmo. Suas letras são clichês puros. E o público quer exatamente isso: algo que seja previsível, confiável. Brian Johnson é um tipo de presidente do sindicato dos roqueiros – e essa analogia que você está fazendo não é culpa minha.

Os fãs do AC/DC não querem comprar um disco e descobrir que a banda ‘está misturando ritmos eletrônicos’ ou ‘incorporando novos elementos ao seu som’. Não. De jeito nenhum. Eles querem o AC/DC de sempre: Angus com os riffs exatamente iguaizinhos ao primeiro disco ‘TNT’, de 1975; e Brian esganiçado como um corvo inglês. Imagine se o AC/DC gravaria uma canção chamada ‘Onde as Ruas não tem Nome’. Nunca. “Como assim, ‘as ruas não têm nome’, cara? É só olhar na placa, seu idiota”, diriam.

Os títulos das músicas do AC/DC, aliás, são tão clichês quanto todo o resto (e isso não é uma crítica): se não tem ‘rock and roll’, tem ‘hell’ ou alguma outra coisa do tipo. Se trocar os nomes, inclusive, não faz a menor diferença: ‘Rock and Roll Train’ e ‘Hell’s Bells” poderiam facilmente ser ‘Hell Train’ ou ‘Rock and Roll Bell’, certo? E ‘Highway to Hell’ poderia ser ‘Highway to Rock and Roll’, não? Isso não importa nem um pouco, aliás. Do contrário, como explicar 70 mil pessoas cantando alegremente ‘Estou na auto-estrada para o inferno”…?

Só sei que o AC/DC provou que são a banda de rock mais poderosa do mundo. O U2 mesmo já assumiu que pode ser uma banda de pop em alguns discos, assim como os Rolling Stones já lançaram ‘Emotional Rescue’. Com o AC/DC não tem essa de balada com violãozinho, não tem sons pré-gravados, nem ‘climas’. Tem uma influência de blues, mas o lance todo é o rock and roll puro, visceral e no volume mais alto possível. O clichê é intencional, sim. Graças aos deuses do rock and roll.

AC/DC foto de Marcelo Rossi

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.