A sua vida é um filme

Estadão

11 de fevereiro de 2007 | 17h31

Poucos filmes revelam a força do tempo sobre os relacionamentos tão bem quanto a ‘bilogia’ ‘Antes do Amanhecer’ (1995)/’Antes do Pôr-do-Sol’ (2004), do diretor americano Richard Linklater. Aqui vai um resumo.

Filme 1: O americano Jesse (Ethan Hawke), 25 anos, viaja de trem pela Europa quando conhece a francesa Celine (Julie Delpy), 26. Os dois começam a conversar e decidem descer em Viena para passar o dia juntos. Apaixonam-se, claro, e combinam de se encontrar seis meses depois, no mesmo lugar. Filme 2: O casal reencontra-se em Paris e passa a tarde conversando sobre aquele dia que passaram juntos nove anos atrás. E imaginam como seria a vida se o encontro combinado tivesse rolado.

O legal é que o reencontro do casal não se dá só no filme, mas também na vida real, já que há mesmo nove anos entre um filme e outro. Isso confere à história uma autenticidade brilhante, reforçada pelo roteiro. Vale alugar os dois DVDs e ver na seqüência.
O argumento que Jesse usa para convencer Celine a descer do trem no meio da viagem é uma aula de sedução: “Passe o dia comigo. Se não, em dez anos, você vai lembrar dos caras com quem poderia ter se casado e não se casou. Eu sou um deles. Esta é a sua viagem do futuro para o passado. Você terá que viver com dúvida.” Quem recusaria essa oferta?

Não quero arranjar briga na sua casa, mas no fundo todo mundo lembra de alguém de vez em quando – principalmente nas horas ruins –, alguém que poderia ter mudado nossa vida se a gente tivesse tomado uma decisão diferente lá atrás, no passado. Essa pessoa sempre parece tão perfeita, não? É só porque ela não é real.

O que esses filmes mostram, porém, é que temos que tomar decisões o tempo inteiro e arcar com suas conseqüências sem inventar desculpas que justifiquem cada decisão tomada. Os bons filmes são aqueles que ficam na nossa cabeça por muito tempo, como algumas sombras do passado, que insistem em aparecer de vez em quando para colorir nossa imaginação… Mas lembre-se que a maioria só existe na ficção. E que a responsabilidade por ser feliz é sempre do diretor do filme. No caso da sua vida, você.

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