A sinceridade de um político

Estadão

06 de dezembro de 2009 | 22h08

REUTERS/Alessandro Garofalo
Silvio Berlusconi: O premiê italiano também está atolado em escândalos até o pescoço, mas tem algo melhor do que os políticos brasileiros: está bem longe daqui

Cena 1. Brasília, apartamento funcional. O político chega em casa de madrugada e encontra a mulher esperando no sofá.

“Hummmm, oi, querida… Acordada a essa hora?”

“É. Onde o senhor estava?”

“Eu? Você está falando comigo? Eu? Bom… É, eu estava numa reuniãozinha…”

“Até as 6 da manhã?”

“Nossa, já é tarde assim? Nem olhei no relógio…”

“Deu na TV, Sérgio. Todo mundo viu. Minha mãe, nossos filhos, os vizinhos.”

“Mas como? Isso é impossível! Me garantiram que o local era 100% seguro!”

“Pelo jeito não era, né? Pode se preparar: daqui a pouco essa sua cara de pau estará estampada na primeira página de todos os jornais do País.”

“Isso é um absurdo! É tudo culpa da imprensa! Precisamos acabar com esse poder deles! É armação da oposição para acabar com a moralização que estou fazendo!”

“Sérgio, para cima de mim? Moralização, você? Tem vídeo, Sérgio! Tem você falando no vídeo, tem você dando risada… era do que, da minha cara, Sérgio?”

“Não, querida, não fala uma coisa dessas. Você sabe que eu te amo…”

“Eu te amo o escambau! E agora? Como é que a gente vai sair na rua? Como é que você deixou isso acontecer?”

“Mas é tudo mentira, eu juro! A fita foi editada para parecer que o cara era eu! Eles fazem isso, é tecnologia! Eu tenho álibi! Pode ligar para o partido, eu estava lá no momento que alegam ter filmado essa história!”

“Sérgio, não fala besteira, por favor. Você nem sabe quando fizeram esse vídeo.”

“Não sei mesmo, admito. Mas tenho certeza absoluta de que estava em outro lugar naquela maldita hora!”

“Vamos ter que tirar as crianças da escola, mudar de cidade, de país, de vida. Acabou, Sérgio. Acabou.”

“Mas não pode ser. Eu sempre fui um homem de bem. Não era eu nesse vídeo, era outro homem. Sei lá, talvez eu possa alegar múltipla personalidade!”

“Não tem jeito. Eles filmaram você pegando o dinheiro e colocando nos bolsos, Sérgio. Maços e maços de notas. Você vai falar que aquele dinheiro era para quê? Para comprar panetone? Isso é pior do que acreditar em Papai Noel!”

“Peraí. Do que você está falando. Dinheiro? É isso? Eles me filmaram pegando dinheiro de propina?

“É, Sérgio. Acabou.”

“Yupiii! Ha ha ha! Ufa!”

“Como assim, ‘ufa’? Ficou maluco, Sérgio?”

“Ah, querida. Não precisa se preocupar. Aqui é o Brasil, lembra? Não vai acontecer nada. Que alívio, pensei que tinham me filmado saindo do motel com a Sandrinha, secretária do…”

“Como é que é? Quem é Sandrinha, Sérgio? Fala!”

“Ihh, falei demais… Não é nada, querida! Juro que lá no motel também não era eu!”

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