A parada do orgulho hetero

Estadão

26 de maio de 2008 | 10h21

Há alguns anos, escrevi um texto sobre a Parada Gay para o JT. O evento ainda não era tão mega quanto a de ontem, mas acho que o espírito vale até hoje – ou, talvez, até mais. Fiz apenas algumas adaptações para mantê-lo atual, vamos lá:

Depois de ver o incrível sucesso que foi a parada gay ontem, decidi sair do armário: sou heterossexual. É isso aí. Falei. Tirei esse peso do meus ombros.

Desculpe ser tão sincero, mas acho que vocês têm o direito de saber. Não tenho nada contra a galera do arco-íris, muito pelo contrário. Tenho amigas e amigos gays, acho a coisa mais normal do mundo. Só não agüento quando alguém vem me dizer que ‘o mundo é gay’. Não é. Pelo menos por enquanto. Eles estão cada vez em maior número, o que pela lógica significa que somos cada vez menos.

Por isso, venho a público convocar todos os heterossexuais para uma parada no ano que vem. Vamos sair às ruas e defender nossos direitos. Não sei se vamos conseguir convocar um milhão de heterossexuais, porque a maioria ficará em casa, cuidando dos filhos, ou enterrado em algum sofá na frente da televisão.

É por isso, talvez, que os gays estão dominando o mundo. Nós ficamos quietinhos em casa, nos parques, nos rodízios e botecos. Enquanto isso, eles tomam conta dos restaurantes da moda, os bares mais descolados, as melhores baladas.

É hora de reagir! Vamos deixar as crianças com as babás e dominar a Paulista vestidos com nossos uniformes do dia-a-dia: bermuda, chinelo e camiseta regata branca! Vamos nos armar com pochetes e celulares nos cintos! Vamos deixar a timidez de lado e levar a nossa coleção de Playboys para passear! Vamos usar aqueles bonés com canudinhos que permitem beber cerveja e desfilar ao mesmo tempo!

As mulheres também são bem-vindas. Podem deixar a comida pronta ali mesmo, ao lado do microondas, e compartilhar a exuberância do nosso modo de vida. Podem participar do evento vestidas com qualquer figurino, desde que pelo menos 80% da pele fique à mostra, claro.

A sua presença será fundamental. Não dá para deixar que esse domínio cor-de-rosa continue. Até sinto simpatia pela causa gay, já que não tenho nenhum tipo de preconceito contra raça, sexo ou time de futebol. Só queria que a coisa fosse um pouco mais equilibrada. Nós ficamos com as loirinhas que gostam de meninas, vocês ficam com os sósias de Freddie Mercury.

Feito?

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.