A noite perdeu seu rei

Estadão

13 de fevereiro de 2009 | 20h00

AGLIBERTO LIMA/AE

Amigas e amigos,

faleceu hoje Abelardo Figueiredo, diretor artístico e empresário cuja trajetória profissional e de vida se confunde com o próprio showbiz brasileiro. Conheci Abelardo pessoalmente; minha mãe era sua amiga há muitos anos e os dois trabalharam juntos em diversos projetos.

Mais uma vez, o filho apela para o talento da mãe para contar melhor quem foi esse homem e o que ele representou para a cultura brasileira. Nessa história familiar, aproveito para deixar um abraço carinhoso para Mônica, também amiga, que teve a sorte de ter um pai tão maravilhoso.

Com vocês, o espetacular Abelardo Figueiredo.

A noite perdeu seu rei
Helô Machado

O show não pode parar, mas às vezes as luzes se apagam. A música é interrompida. A cortina desce. E uma nova estrela passa a brilhar lá em cima, no céu. Foi hoje. Não tinha sol, nem lua nessa sexta-feira tristonha e chuvosa, que o mundo do show brasileiro perdeu o seu rei: Abelardo Figueiredo.

Na ribalta de sua trajetória de sucesso, Abelardo sempre se envolveu com o mais puro talento artístico do país. Foi além: aqui, ali e lá fora, abriu o coração pulsante do Brasil, revelando seus ritmos diversos, sua música contagiante, suas vozes, suas cores, suas tradições e traduções, seus movimentos mais significativos, todo o talento e a beleza de seu povo.

Levou seus shows para várias capitais da Europa, Estados Unidos, inclusive para o presidente Jimmy Carter, na Casa Branca, para o rei Hassam, no seu palácio encantado do Marrocos. Foi aplaudido de pé por Fidel Castro, em Cuba. Chegou à China, sua última viagem, em 1999, onde realizou 24 shows em 16 cidades, onde o menor público registrado era de 3 mil pessoas e o maior, sei lá. Num estádio gigantesco de Xiamen, parte do show ‘Brasil Canta e Dança’ foi exibido pela TV para toda a China.

Descobridor de talentos, trabalhou com os maiores cantores, bailarinos e atores do Brasil e trazia os seus artistas para dentro de sua casa. Foi padrinho de casamento Elis, de Francis Hime, de Norma Bengell. Começou menino no teatro em Niterói, sua terra natal, veio para São Paulo, fez teatro e televisão, onde criou programas inesquecíveis: ‘Folias Phillips’, ‘Noite de Gala’, ‘Spot Light’, ‘Revista Feminina’.

Coordenou o Ballet do IV Centenário, foi diretor do Ballet do Museu de Arte de São Paulo, dirigiu incontáveis shows: na célebre boate carioca Night and Day, no Urso Branco – trouxe Maísa da Espanha para o show de estréia – no Beco, onde comandou por 18 anos seus pocket-shows e grandes espetáculos, incluindo as temporadas em São Paulo de Rachel Welch, Ivonne de Carlo, Marlene Dietrich.

Dirigiu os festejados shows do Palladium, chegando a transformar Toni Ramos, imaginem, na Geni de Chico Buarque. Sim, o bem comportado ator, vestido de mulher, cantou, dançou e foi a estrela de um elenco de mais de 50 figuras, por exatos 14 meses de sucesso. Com o fechamento do Palladium, depois de cinco anos, Abelardo criou o espetáculo Stravanza, no Studium, sem jamais abandonar a criação de shows para empresas e convenções em todo o Brasil.

Pode-se dizer, sem a menor dúvida, que ele foi o grande mestre da arte de divertir as pessoas. Em muitos dos seus momentos, eu estava lá. No meio da dança, da música, dos acertos, dos desacertos, dos gritos, da preparação, da ansiedade, da correria, da alegria, da emoção, da felicidade total, eu estava lá. Na hora dos amigos do peito, dos encontros consagrados, da primeira vez ou da última, eu estava lá.

E, por incrível que pareça, parece mesmo que eu sempre estive lá. Até quando não estava ainda, quando eu era uma menina, fascinada por shows, pelo Teatro de Revista, que via apenas nos programas que meus pais traziam do teatro, eu estava lá. No meio das plumas e dos paetês, dos passos difíceis, das piruetas, dos costeiros e pandeiros, do acender e apagar das luzes, eu estava lá. Na estréia e na despedida, muito choro, muito riso, esperanças, desatinos, eu estava lá. Sinto que foi sempre assim.

Descobri Abelardo na TV, no programa ‘Spot Light’. E eu dançava na sala de casa, com as suas bailarinas e queria entrar naquilo, naquele mundo, de qualquer maneira. Queria conhecer o tal do Abelardo Figueiredo. Afinal, era ele quem fazia tudo aquilo! E como Deus escreve certo por linhas tortas, depois de muitos anos, nossas trilhas deram de cara e aí, pronto. Lá estava eu, diante dele, emocionada e feliz. Na primeira e nas outras vezes que nos encontramos. Até uma certa tarde de ensaio, outros tantos anos depois. Ele percebeu que Abelardo e Heloísa tinham uma ligação especial, que foi sacramentada naquele dia por mais de vinte anos, a última etapa da sua vida.

Ao longo deste tempo todo, eu fui conhecendo o Abelardo, o Abe, o criador de toda aquela magia, o rei da noite, que acordava muito cedo, respirava e transpirava trabalho, que não vivia sem um palco, que quando descansava era para terminar um roteiro e quando pegava o telefone era sempre para falar de show.

Ele também fazia outras coisas, claro. Reunia os amigos em todos os lugares onde morou, desde a casa na Rua Atlântica, onde a porta nunca era trancada, com a sua família-espetáculo: sua mulher Laurinha, uma paixão (dele e de todos que a conheceram), sempre pronta a abrir a casa e o coração para os amigos queridos, todos artistas ou quase artistas, gente absolutamente especial, para quem a arte de saber viver também era um show. E tinha as meninas, Mônica e Patrícia, que, sem saber, desfrutavam a grande emoção de serem filhas do Abelardo Figueiredo, ou seja, viviam no dia a dia a intimidade de um palco eterno, por onde astros e estrelas consagrados passeavam de dia ou de noite.

Abelardo sempre foi um grande papo. Em qualquer lugar, suas histórias fascinantes deixavam todo mundo interessado, empolgado; para dizer a verdade, maravilhado. E acho que foi aí que ele me pegou. Quando percebi, já estava praticamente mudando de meio de comunicação: de jornalista, passei a me dedicar àquele novíssimo encanto, que era o mundo dos espetáculos, que me emocionava a cada reunião, a cada ensaio, a cada música, a cada show, a cada direção daquele cara tão fácil e tão difícil, tão criativo e tão rápido, tão temperamental e tão simples, tão preocupado e tão otimista, tudo isso ao mesmo tempo, na mesma hora.

Lembrando dos espetáculos que o Abelardo ‘pôs de pé’ (como ele dizia) em tantos palcos, concluí que ele também era mágico. Conseguia juntar no seu trabalho o sonho, o talento, a garra, a inteligência, o brilho, a agilidade, o glamour, a coragem, o amor, o bom gosto, a amizade, a fantasia. Abelardo foi um homem da noite, mas tão absolutamente único, que sempre gostou de dormir cedo. Tão genial, que, mesmo sendo daltônico, sabia combinar as cores perfeitamente. Era ele quem escolhia os tecidos (quando não desenhava também os modelos) e a luz dos seus shows.

Quem teve o privilégio de trabalhar com ele, de ser incluído em um de seus roteiros, de assistir a pelo menos um de seus espetáculos, pode se considerar personagem da sua vida. Meses atrás, em uma de suas últimas saídas, chamado ao palco para receber uma homenagem, Abelardo fez um único pedido: que se acendessem as luzes, todas as luzes do teatro, para que toda a platéia pudesse brilhar.

Há dois anos, tive também o orgulho de colaborar no livro ‘O Show Não Pode Parar’, a convite de Mônica, sua filha jornalista, lançado no ano passado. Um passeio iluminado pela vida e obra deste mestre da diversão. Sem deixar seguidores, o múltiplo Abelardo Figueiredo partiu hoje bem preparado para a eternidade. Deixa as filhas Mônica e Patrícia e os netos Manuela, Thomaz, Sofia e Antonia. Quem o conheceu guardará para sempre um Abelardo no seu coração. O meu é este.

Boa noite, senhoras e senhores.

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