A mulher-logotipo

Estadão

24 de agosto de 2008 | 16h48

Diabo Veste Prada

O Diabo Veste Prada, mas a mulher-logotipo é pior: ela veste todas as marcas do mundo ao mesmo tempo

Passeando com minha mulher pela Oscar Freire, dei de cara com uma espécie cada vez mais comum na fauna da cidade: a mulher-logotipo.

Também chamada de mulher-etiqueta ou mulher-vitrine, a mulher-logotipo é fácil de reconhecer. Visualmente ela se destaca pelo número exagerado de marcas de luxo espalhadas pelo corpo, roupas e acessórios. Só para se ter uma idéia, a mulher-logotipo poderia facilmente ser multada pelo Cidade Limpa, aquela lei municipal que proíbe os outdoors.

A mulher-logotipo é coberta por símbolos literalmente dos pés à cabeça. O espécime solto na Oscar Freire usava um par de sapatos estampado com a marca que o diabo veste naquele filme de Hollywood, lembra? Você teria lembrado na hora se tivesse visto um logotipo daquele tamanho. Tive a impressão de que a mulher-logotipo calçava 52, mas tenho certeza de que era só impressão.

Vista de frente, sua calça jeans era até discreta; de costas, porém, esse espécime levemente acima do peso trazia nos bolsos traseiros um logotipo levemente acima do gigantesco. Ela usava um cinto que… bem, sinto muito. A fivela parecia tão pesada que não sei como a mulher se equilibrava sem cair para frente.

Sua camisa era especial: em vez de tecido, era inteirinha costurada com letras brilhantes – e os óculos escuros iam nessa mesma linha. Nem sei como mulher-logotipo conseguia enxergar através de lentes douradas tão… douradas.

Não consegui ver as marcas dos brincos ou do relógio porque estavam cobertos por milhares de cristais. A bolsa – seria mais justo classificá-la como mala – também não exibia nenhum logotipo, a não ser que você considere a pele de um onça-pintada uma espécie de logotipo.

Confesso que fiquei apreensivo por encontrar um espécime de mulher-logotipo à solta, assim, na rua. Eu achava que todas ficavam confinadas em condomínios fechados e shoppings de luxo.

A filosofia delas diz que não basta comprar: tem que mostrar. É uma pena que esses exageros não estejam em extinção, muito pelo contrário. Tenho certeza de que existem pessoas legais debaixo de tantos logotipos – pena que não dá para ver.

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