A história do Anvil: Perseguindo o sonho

Felipe Machado

03 de março de 2011 | 19h32

No início dos anos 80, quatro bandas de rock pesado foram convidadas para fazer uma turnê pelo Japão: Scorpions, Whitesnake, Bon Jovi e Anvil. Pouco depois, todas atingiram o estrelato, conquistaram milhares de fãs e foram para o topo das paradas de sucesso. Peraí, eu disse todas? Não. Todas, menos uma. O Anvil.

O Anvil é uma banda canadense que continuou lançando discos, fazendo shows (em lugares cada vez menores e mais vazios) e tentando emplacar algum sucesso. Mas nada aconteceu.

Em 2008, Sacha Gervasi lançou o documentário ‘A História do Anvil’. O filme mostra a banda nos dias de hoje, sem glamour: O vocalista Lips trabalha com merenda escolar; o baterista Robb Reiner é pedreiro. Ensaiam à noite e tocam em buracos nos fins de semana. Detalhe: fazem isso há trinta anos.

O filme dá um pouco de pena, mas é sensacional. Na verdade, é bem mais do que um relato sobre uma banda fracassada. É sobre amizade, sobre como é importante correr atrás de um sonho – mesmo quando esse sonho parece nunca se realizar. O filme é uma obra-prima da condição humana. É tão emocionante que cativa até quem odeia heavy metal. Eu chorei.

O Anvil tocou na semana passada em São Paulo, e é claro que você nem ouviu falar. O local até que estava cheio, com mais de mil fãs de heavy metal. Mas logo no primeiro acorde, descobri por que o Anvil nunca fez sucesso: a banda é muito, muito ruim.

É triste constatar que alguém sem o menor talento sonha em fazer sucesso como artista. As músicas do Anvil são péssimas, não tem a menor criatividade ou originalidade. O fracasso de público do Anvil nunca foi uma injustiça. Eles não fizeram sucesso porque não mereceram fazer sucesso.

Enquanto eu via o show, caiu a ficha: e daí que eu não gostei? O Anvil estava no palco, fazendo o que gostavam, apresentando o que tinham de melhor. Percebi que o importante para aqueles tiozinhos não era o sucesso comercial, mas a capacidade de continuar vivendo o sonho. Eles não querem sair na capa das revistas; eles querem apenas continuar tocando sua música ruim pelo resto da vida. Não importa a minha opinião – não importa a opinião de ninguém. Mesmo sem público, eles estariam tocando com a mesma garra. O sonho aqui não é chegar a nenhum lugar, alcançar um objetivo. O sonho é a jornada, não o lugar para onde ela leva. É ser quem você é, mesmo que você não seja a melhor pessoa do mundo.

Aceitar que a vida é o que se faz dela é uma bela lição de humildade. Se a vida te deu três limões, você faz uma limonada, não um champanhe. Não é triste, nem feliz. É o que é. Sucesso? Sucesso é viver.

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