A adorável família Soprano

Estadão

11 de janeiro de 2010 | 17h24

Tony Soprano

Tony Soprano (James Gandolfini): A série ‘Família Soprano’ é a mistura perfeita entre ‘Os Simpsons’ e ‘O Poderoso Chefão’

Tenho uma personalidade bastante compulsiva em relação a determinados assuntos. Quando me interesso por algo específico, me dedico ao tema de corpo e alma. Coitados dos amigos, que são obrigados a aguentar meus papos monotemáticos durante um bom tempo.

Não vou listar aqui os assuntos sobre os quais me debrucei nos últimos anos. Só digo que vão do estudo sociobiológico dos grandes primatas à vida do diretor Stanely Kubrick. Ou seja, qualquer coisa.

Minha mais nova obsessão é uma série de TV americana que terminou em 2007: Os Sopranos. Tenho ficado horas em frente à TV e estou até reduzindo o ritmo para não acabar rápido demais: são só seis temporadas, cerca de 80 horas de conteúdo. Muito pouco, infelizmente.

Embora oposta do ponto de vista estilístico, a série é, ao lado de Seinfeld, a melhor coisa que já se fez para a TV. Não é só o texto maravilhoso; o elenco é incrível, a direção é sensacional. Os personagens são inteligentes, os roteiros são bem amarrados. É uma ‘dramédia’, mistura perfeita de drama e comédia. E existe algo mais difícil do que equilibrar esses dois mundos? Eu achava que isso só era possível na vida real.

O criador da série se chama David Chase, e ele garante que se baseou em membros da própria família para criar a série. Chase, no entanto, diz que seus parentes não têm nenhuma ligação com a Máfia. Então tá. Na minha opinião, ele chegou para o presidente da HBO e fez uma proposta que ele não poderia recusar’.

Eu sei, o tema ‘Máfia’ agrada mais aos homens. Mas a série não é sobre violência. É sobre as contradições da vida, as motivações que nos movem e os valores que nos moldam, a complexidade da mente humana e suas consequências no cotidiano.

Os Sopranos são uma família de classe média alta de mafiosos que vive em Nova Jersey. O legal é que os personagens não são apenas os criminosos, mas também suas mulheres, filhos, mães… e eles têm que conviver com os problemas do dia a dia, como funcionários de baixo escalão que têm que ser ‘demitidos’ e coisas assim. Não há o glamour de O Poderoso Chefão (a não ser quando os hilários personagens fazem imitações dos colegas da família Corleone). Os Sopranos estão mais para os confusos criminosos de Os Bons Companheiros do que para os milionários de Coppola.

(Como diria Michael Corleone em ‘O Poderoso Chefão 3’: “Nunca odeie seus inimigos. Isso afeta o seu julgamento”.)

Tony, o líder da família, é um personagem tão rico, tão multifacetado, que fico imaginando realmente se ele não existe. Ele não tem nada de maniqueísta: é violento com os inimigos e carinhoso com a família, como qualquer um de nós poderia ser (se fosse da Máfia). Faz análise para curar suas noites maldormidas – e acaba tendo pesadelos com a analista. É surpreendente constatar que, se estivéssemos em sua situação, provavelmente agiríamos da mesma maneira.

O instinto de sobrevivência a qualquer custo, a felicidade que vem com o sucesso, o amor incondicional pela família… No fundo, somos todos iguais. Alguns mais obcecados do que outros, mas isso já é uma outra história.

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