Stephen Michael King: ‘O desenho passou a ser minha voz’
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Stephen Michael King: ‘O desenho passou a ser minha voz’

O escritor e ilustrador australiano conversa sobre a perda auditiva na infância que o fez começar a ler e desenhar, a relação com os pais, incentivo à leitura, literatura e a vida em uma pequena ilha de 350 habitantes; King está no Brasil - veja onde encontrá-lo

Bia Reis

09 Novembro 2018 | 16h54

A natureza e as relações de afeto estão impregnadas na obra do escritor e ilustrador australiano Stephen Michael King. Por meio de seus personagens – animais, plantas, crianças e seus pais –, King aborda temas como liberdade, amizade, companheirismo e amor, como no lançamento O Urso de Todas as Cores (Editora Brinque-Book), que o traz agora para o Brasil (mais informações no fim da entrevista).

Aos 55 anos, King é um dos mais conhecidos e premiados autores estrangeiros de livro ilustrado, tipo de obra em que tanto o texto quanto a imagem são responsáveis pela narrativa. Tomou gosto pela leitura e pelo desenho quando criança, em uma época em que uma perda auditiva o fez se recolher. “O desenho passou a ser a minha voz”, conta. Incentivado pelos pais, mergulhou nos livros e na ilustração e, mais tarde, transformou as duas em trabalho.

É na casa onde mora com a mulher e os dois filhos, em uma pequena ilha na costa da Austrália, que King produziu mais de 45 obras ao longo da carreira, entre as que fez texto e ilustração e as que assinou com outros escritores. No Brasil, entre suas obras mais conhecidas estão Pedro e Tina, O Homem que Amava Caixas, O Urso e a Árvore, e A Árvore Magnífica (em parceria com Nick Bland), todas da Brinque-Book, editora que publica os livros do autor no País.

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Na entrevista a seguir, King fala sobre o início de seu contato com a literatura, como seus pais o incentivaram a ler e a produzir arte, seus temas de interesse, processo criativo, livro ilustrado, como incentivar as crianças a lerem e faz um questionamento: ‘Não entendo por que livros sem ilustrações são um ritual de passagem obrigatório para a vida adulta’. Para ele, autores de literatura para adultos poderiam troca capítulos descritivos por imagens.

*

Você perdeu a audição quando tinha 9 anos. Do que você se lembra dessa época? De que maneira a perda auditiva te levou a escrever e desenhar? 

Comecei a perder a audição quando estava no 4.º ano, mas só fui receber ajuda especializada no 8.º ano, quando tinha 13, 14 anos. Eu, meus pais e minha escola ficamos confusos e abalados. Eu não falava mais durante as aulas nem com os amigos, e as pessoas começaram a achar que eu estivesse com alguma doença mental, tão fechado que me tornei. A música passou a ser muito importante para mim, porque eu podia aumentar o volume do som e pular pelo quarto – precisava me expressar de algum modo. Foi também, então, que o desenho passou a ser minha voz. Já que eu me tornara tão quieto, tinha de mostrar de outra forma aos meus pais, colegas e à escola que eu tinha algum valor dentro de mim. Emoções e ideias reprimidas transformaram-se em desenhos, histórias e poemas.

Como foi o início de seu contato com a literatura? Você cresceu numa casa com livros, seus pais liam para você? 

Minha mãe era professora e meu pai, quase analfabeto, mal sabia ler. Eles se conheceram, se apaixonaram e minha mãe lhe mostrou as histórias que estavam nos livros. Meu pai foi um leitor autodidata: lia a primeira página dos jornais todos os dias. Quando eu e meus irmãos nascemos, ele não queria que perdêssemos a beleza que havia nos livros, como ele perdera. Meu pai lia para nós todas as noites e ainda inventava histórias. Não tínhamos muito dinheiro, mas minha mãe sempre fez questão de que tivéssemos comida, cobertores e belos livros.

Na sua infância, que tipo de livros você gostava de ler? Você frequentava bibliotecas e livrarias? 

O visual dos livros era muito importante para mim. Se o livro não tivesse ilustrações ou fotos que eu gostasse, não lia. Também gostava muito de histórias em quadrinhos. Meus pais me levavam a uma livraria especializada em literatura infantil em Sidney, que existe até hoje, mas íamos mais à biblioteca. No Natal e no aniversário, nunca fiquei sem ganhar um livro.

No livro O Homem que Amava Caixas, você fala do relacionamento de poucas palavras entre um pai e um filho e que se dá por meio de objetos feitos com caixas de papelão. Como era a sua relação com seu pai quando criança?   

Voltando à perda da minha audição, todos ficamos abalados, mas ninguém mais do que o meu pai. Ele se esforçou muito para ser o melhor pai possível, reinventando mesmo sua vida. Acredito que ele se preocupava muito com nosso relacionamento. Quando escrevi O Homem que Amava Caixas, eu tinha 28, 29 anos e pensei muito no jeito silencioso pelo qual meu pai expressava seu amor por mim. Ele era de uma geração de homens que guardava as emoções para si. Seu modo de mostrar amor era garantir que eu tivesse sempre lápis, papel, fita adesiva – qualquer coisa para criar arte. Ele me trazia livros que ensinavam a desenhar, pois sabia que eu era apaixonado por desenho. Mesmo não entendendo de arte, ele compreendia minha necessidade de criar, construir, escrever, desenhar. E, sem alarde, assegurava que eu tivesse meios para isso.

Em O Urso de Todas as Cores, que está sendo lançado no Brasil pela Editora Brinque-Book, você volta à relação entre pai e filhos, mas de uma maneira completamente diferente. É intencional ou surgiu naturalmente?

Acho que os pais tentando achar tempo para ficar com seus filhos é um dos meus temas mais recorrentes. O Homem que Amava Caixas foi inspirado no meu pai e O Urso de Todas as Cores, no meu cunhado, cujo emprego o manda para todos os lugares do mundo, trabalhando muito e tentando aproveitar cada momento que ele pode estar com a sua família. Mas é também sobre os pais se conectarem com a sua criança interior. Acho que isso mostra muito da força: se o homem pode ser gentil e também brincalhão. Esses momentos são preciosos. Eu moro na costa leste da Austrália, numa ilha, e a cada estação há um mercado sazonal onde eu vou e desenho com as crianças, apenas por diversão. Eu desenho cavalos, pássaros, motocicletas e monstros, qualquer coisa que qualquer um me peça para desenhar. Quando pergunto às criança se elas gostariam de um cavalo marrom ou preto, elas sempre me respondem: Eu quero um cavalo de todas as cores. Atinei sobre o quanto é divertido colorir fora das linhas, mas também o quão delicioso é criar padrões de cores dentro dessas mesmas linhas.

Em sua obra, você fala sempre em natureza, liberdade e emoções. Como esses temas surgem no seu trabalho?

Esses são realmente os meus maiores temas. Começo pela liberdade, porque eu não funciono muito bem sem ela. Se eu escuto alguém dizer que só existe um meio de fazer determinada coisa, recuso-me a acreditar. Há muitos meios. Somos todos diferentes. Ouvir as pessoas e aceitar as diferenças é um bom caminho. É melhor descobrir coisas do que fechar portas. Meus livros nascem de minhas experiências – na família, na vida, no amor –, mas adquirem vida própria e se tornam algo único. Se tento impor minhas ideias às minhas histórias, o resultado soa falso. O que mais busco é autenticidade. Em Pedro e Tina, muita gente acha que Tina é minha mulher e Pedro sou eu. A verdade é que sou um pouco Tina e Trish, minha mulher, é um pouco Pedro. O livro é sobre brincar – duas crianças construindo uma casa de árvore sem pensar que diferenças sejam obstáculos. Em relação à natureza, ela está em todo o meu trabalho. Se meus personagens estão em ambiente fechado, então há alguma coisa fora de equilíbrio. A natureza é onde todas as coisas grandes acontecem.

Como é seu processo de produção? O que vem antes: o texto ou a imagem? 

Dificilmente faço um plano. Coleciono ideias o tempo todo, em forma de frases, desenhos… Nem sempre penso em termos de palavras ou arte. Tanto faz o que acontece primeiro. Simplesmente deixo as ideias fluírem. Quando isso ocorre, tenho à mão caneta e papel. A verdade vem de tentar não pensar. No fim, é a paixão pela descoberta que me leva a algum lugar. Minha mãe dizia que a gente só precisa aprender uma coisa: gostar de aprender. Uma vez despertada essa sede de descoberta, pode-se aprender qualquer coisa. Rascunhar e desenhar surgem aleatoriamente. Se eu estou criando ilustrações para outra pessoa, eu tenho de praticar por algumas semanas até achar o meu ritmo.

A leitura de um livro ilustrado demanda uma articulação de duas linguagens: texto e imagem. Isso é complexo, e muitas vezes as crianças são capazes de entender esses livros melhor do que os adultos. Por que essa ideia de livro ilustrado nunca pegou na literatura para adultos?

Não entendo por que livros sem ilustrações são um ritual de passagem obrigatório para a vida adulta. Em muitos livros para adultos, às vezes os autores gastam capítulos descrevendo algo que poderia ser dito com um bom desenho. Recentemente fui indicado na Austrália para o Prêmio de Literatura do Primeiro-Ministro, e eu acredito que o primeiro-ministro australiano tenha entendido isso.

No Brasil, costuma-se dizer que os livros ilustrados são uma espécie de mini-museus e são, para a maioria das crianças, o primeiro contato com arte. Para você, qual é a importância de a criança ter contato com arte cedo?

Essa é uma grande questão. Ler para uma criança deve ser como um jogo. Nessa hora, não é necessário falar sobre aprendizado ou explicar a importância de comer vegetais. As crianças entendem a linguagem dos desenhos. Se elas forem como eu fui, vão descobrir como se comunicar desse jeito. Pelos livros que lerem na infância, a mente vai perceber que arte e palavras se entrelaçam e, quando crescerem, elas próprias vão sentir o resultado.

As crianças brasileiras costumam ter mais contato com livros mais na escola do que em casa, principalmente porque os pais simplesmente não leem. Como atraí-las para os livros e formar novos leitores?

Na Austrália, temos usado esportistas famosos para promover a leitura. Imagino que o Brasil tenha heróis do esporte que poderiam dar o exemplo. Livros foram uma porta de entrada para mudança para o meu pai e uma descoberta para mim. Eles foram uma janela para algo diferente, mas as crianças precisam de exemplos. Se você quer que seus filhos leiam, você deve começar a ler. Na Austrália, o problema é que os meninos param de ler em uma certa idade. Então, se você quer que os meninos continuem lendo, os pais ou o exemplo masculino que você escolher devem estar com livros e serem vistos com eles.

Você conhece algo da literatura infantil brasileira? Você vê similaridades ou diferenças entre crianças de diferentes países e continentes?

Estou constantemente aprendendo. Tenho 55 anos e ilustrei mais de cem livros. Esta é minha primeira viagem ao Brasil. Não conheço as diferenças entre nacionalidades e seus hábitos de leitura porque vivo a maior parte do tempo em uma ilha com 350 habitantes, além de cangurus, equidnas (animal australiano) e vacas. Não penso em diferenças. Penso que, por alguma razão, todos estamos conectados.

Stephen Michael King no Brasil

No dia 5, o autor participou da 64.ª Feira do Livro de Porto Alegre e no dia 10 estará em São Paulo. Às 10 horas, lançará o livro e conversará com leitores na Livraria NoveSete (Rua França Pinto, 97, na Vila Mariana), e às 15 horas na Livraria da Vila, unidade da Lorena (Alameda Lorena, 1.731). Para participar, é preciso retirar ingresso às 9 horas na Livraria da Vila e às 10 horas na Livraria da Vila, mediante compra do livro.

Fotos: Divulgação/Brinque-Book

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