João Luiz Guimarães e Nelson Cruz recontam a fábula dos três porquinhos à moda roseana
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João Luiz Guimarães e Nelson Cruz recontam a fábula dos três porquinhos à moda roseana

'Sagatrissuinorana', da Editora Ôzé, traz história para as Minas Gerais do século 21 e conecta com o rompimento das barragens de Mariana e Brumadinho

Bia Reis

08 de fevereiro de 2021 | 10h00

Capa de ‘Sagatrissuinorana’, da Ôzé Editora. Crédito: Divulgação

Para os três porquinhos, o que poderia ser mais pavoroso do que o lobo mau? E o que apavoraria o lobo mau?

Nas mãos do escritor João Luiz Guimarães e do ilustrador Nelson Cruz, a clássica fábula que habita a infância de gerações de crianças, leitoras ou não, deixa tempo e local incertos e aporta numa Minas Gerais do século 21. Com o deslocamento temporal e espacial vem a marcante referência à tragédia com as barragens de Mariana, em 5 de novembro de 2015, e de Brumadinho, em 25 de janeiro de 2019.

Lançado pela Ôzé Editora no fim de 2020, Sagatrissuinorana – Reconto (à moda Roseana) é uma homenagem do escritor ao seu xará João Guimarães Rosa (1908-1967), cuja obra é reconhecida, entre outros aspectos, pela inventividade linguística. No título, o Guimarães contemporâneo cria um hibridismo em cima de outro hibridismo. Assim, Sagarana, que nomeia um livro de Guimarães Rosa de 1946, parte-se ao meio para a entrada dos três porquinhos com o “trissuino”. Em comum entre os dois universos estão as palavras novidadeiras, Minas Gerais como cenário e a costura de questões universais. 

João Luiz Guimarães se utiliza de frases curtas, com vocabulário apurado e palavras cuidadosamente escolhidas, para narrar a história dos irmãos porcos que constroem, cada um à sua maneira, uma casa para morar. O primeiro trança fibra do buriti em palha e a transforma em parede; o segundo usa taquara verde e folhas de embaúba para erguer a morada e a cerca com espinhos de mandacaru; o terceiro aposta nos clássicos tijolos para a sua fortaleza.

Ilustração de Nelson Cruz. Crédito: Divulgação

É por meio da narrativa visual, assinada pelo incrível Nelson Cruz, um dos mais importantes ilustradores da literatura infantil brasileira, que os autores nos situam: estamos muito perto de barragens construídas por mineradoras para estocar lama resultante de sua produção. As ilustrações trazem uma perspectiva constante com o virar das páginas, que revelam a transformação da paisagem, e traçam paralelamente duas histórias – a construção das casas e o avanço da lama.

Conforme a história transcorre, os inúmeros tons de verde perdem espaço para o vermelho da lama, que, aqui, é personagem. O ângulo da sequência inicial de ilustrações remete de imediato às milhares de imagens de Brumadinho que rodaram o Brasil e o mundo após a tragédia.

A angústia do que está por vir transparece nas ilustrações deste livro. Palavras e imagens dançam para contar uma história potente que coloca o leitor diante de um final aberto em que o desfecho não é necessariamente feliz. Aqui, cabe a ele decidir o que acontece com lobo e porcos.

O livro reconta com maestria a história dos três porquinhos e coloca no centro a questão ambiental, tão importante nos dias de hoje. Assim como o lobo investe com ímpeto contra os porcos, a lama também avança de forma atroz sobre todos eles. A sofisticação do livro, pela linguagem e pela leitura de imagens, sugere uma leitura conjunta de modo que seja facilitada por um mediador.

Ah quem quiser conhecer outro livro que aborda a tragédia com barragens em Mariana não pode perder o Um Dia, Um Rio, de Leo Cunha e André Neves, publicado pela Editora Pulo do Gato. Aqui, a história é narrada sob o ponto de vista do Rio Doce. Uma lindeza.

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Queridos leitores desta Estante de Letrinhas, depois de um período pandêmico dedicado à cobertura do novo coronavírus e sem conseguir falar de livros e histórias, estou de volta. Sigamos em frente!

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Serviço
Sagatrissuinorana
Escritor: João Luiz Guimarães
Ilustrador: Nelson Cruz
Projeto gráfico e capa: Raquel Matsushita
Editora: Ôzé
Preço: R$ 49

ESTANTE DE LETRINHAS
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