Escolha de ‘Sagatrissuinorana’ como obra do ano pelo Jabuti coloca em evidência o livro ilustrado; entenda por que a literatura infantil está em festa
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Escolha de ‘Sagatrissuinorana’ como obra do ano pelo Jabuti coloca em evidência o livro ilustrado; entenda por que a literatura infantil está em festa

Escritores, ilustradores, editores, editoras e pesquisadores da área festejaram a conquista por inúmeros motivos. Vamos a eles!

Bia Reis

28 de novembro de 2021 | 20h13

Capa de ‘Sagatrissuinorana’, da Ôzé Editora. Crédito: Divulgação

Ser premiado com um Jabuti é para poucos autores e editores. Há várias categorias – muitas surgem e desaparecem com o passar dos anos – e em cada uma delas a concorrência é imensa. Imagine, então, o que é receber o prêmio de livro do ano.

Na cerimônia da 63º edição do Prêmio Jabuti, ocorrida na sexta-feira, 26, o livro do ano foi concedido para Sagatrissuinorana – Reconto (à Moda Roseana), com texto de João Luiz Guimarães e ilustrações de Nelson Cruz, publicado pela ÔZé Editora.

Na obra, a clássica fábula Os Três Porquinhos, que habita a infância de gerações de crianças, leitoras ou não, deixa tempo e local incertos e aporta numa Minas Gerais do século 21. Com o deslocamento temporal e espacial vem a marcante referência às tragédias com as barragens de Mariana, em 2015, e de Brumadinho, em 2019.

A premiação foi comemorada no universo da literatura infantil. Escritores, ilustradores, editores, editoras e pesquisadores da área festejaram a conquista por inúmeros motivos. Vamos a eles!

O prêmio…

1

Elege pela primeira vez um livro ilustrado como livro do ano

Apesar de ser raro, esta não foi a primeira vez que o melhor livro infantil venceu a categoria de livro do ano do Jabuti. Em 2014, por exemplo, Marina Colasanti conquistou o feito com Breve História de Um Pequeno Amor. A maravilha é que pela primeira um livro ilustrado conquistou o título.

Livro ilustrado é um tipo de obra em que texto e imagem são essenciais na história. Não basta ler apenas o texto ou as ilustrações. É preciso interrelacionar as duas linguagens.

Sagatrissuinorana nasceu com o texto de João Luiz e ganhou o sentido que tem com as ilustrações de Nelson Cruz. Se outro ilustrador tivesse recebido a missão de ilustrá-lo, o livro seria completamente diferente.

A escolha de Sagatrissuinorana como melhor livro do ano pelo júri do Jabuti dá destaque para esse tipo de obra, que vem sendo cada vez mais estudada e apreciada, e para a dupla autoria, de escritor e ilustrador.

Os autores de ‘Sagatrissuinorana’: o ilustrador Nelson Cruz (à esquerda) e João Luiz Guimarães (à direita). Crédito: Reprodução

 

2

Dá visibilidade para o chamado “livro sem idade”

Você já ouviu falar no conceito de “livro sem idade”? Ele é utilizado para obras que escapam da classificação para crianças, jovens ou adultos. As indicações etárias são utilizadas pelas editoras, que vendem livros para as escolas e precisam fazer uma sugestão. Mas há livros que muitas vezes são classificados como infantis e que não são, necessariamente, destinados apenas às crianças. É o caso do Sagatrisuinorana.

O livro reverencia o escritor Guimarães Rosa, conecta o leitor às tragédias ambientais ocorridas em Mariana e Brumadinho e coloca o homem como lobo do homem. Sem um mediador, crianças e jovens reconhecerão o reconto de João Luiz, mas provavelmente não farão a conexão com o rompimento das barragens. Leitores mais experientes também descobrirão camadas e mais camadas a cada releitura da obra.

3

Reconhece Nelson Cruz, um dos mais importantes ilustradores contemporâneos brasileiros

‘Se os Tubarões Fossem Homens’, ilustrado por Nelson Cruz. Crédito: Bia Reis

 

Artista plástico, o mineiro Nelson Cruz foi chargista de jornal diário e viveu, como eu, o cotidiano frenético das redações. Cansou. Em busca de tempo para a reflexão, buscou outros caminhos e encontrou na ilustração de livros ilustrados uma paixão e um modo de vida. Em duas décadas, esta é a sétima vez que Nelson, autor de mais de 20 obras, foi premiado com um Jabuti – agora com a conquista do livro do ano.

Além dos livros de autoria própria e dos que assina com parceiros, como João Luiz, Nelson também deixa sua marca em textos de escritores clássicos. Dois dos trabalhos do artista que mais admiro são as ilustrações que ele fez para Se os Tubarões Fossem Homens, do dramaturgo alemão Bertold Brecht (Editora Olho de Vidro). Vale muito a pena também conhecer o traço de Nelson no livro Um Escritor na Capela (Editora SM), em que o artista recriou a fase final de confinamento do escritor Graciliano Ramos na Casa de Correção, do Rio de Janeiro.

Nelson foi premiado inúmeras vezes pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), recebeu o Troféu Monteiro Lobato, da revista Crescer. Também foi indicado pela FNLIJ ao Prêmio Hans Christian Andersen na categoria ilustração, espécie de Nobel da literatura infantil.

4

Dá destaque para o escritor João Luiz Guimarães

João Luiz Guimarães é escritor talentosíssimo, que iniciou sua jornada na escrita fazendo roteiros. Com apenas três livros publicados, foi premiado por todos eles. Sua estreia na literatura infantil se deu em 2015, com O Vento de Oalab, que venceu o 11º Prêmio Barco a Vapor (Editora SM). Depois publicou Papo Reto & Papo Curvo, com ilustrações de Rosinha (Editora do Brasil), que recebeu o Prêmio Off Flip Bibliomundi de Literatura. Agora, com Sagatrisuinorana conquistou o Jabuti de melhor livro infantil e de livro do ano. Aluno da pós-graduação de formação de escritores do Instituto Vera Cruz, fez o reconto que se transformou no Saga como exercício do curso.

5

Coloca em evidência a ÔZé, editora pequena e ousada, e seu editor, Zeco Montes

Zeco Montes foi livreiro conhecido em São Paulo, principalmente por causa da Livraria Ubaldo, que ganhou fama pelos títulos infantis que oferecia aos leitores. Essa foi a vida de Zeco por quase três décadas. Em 2007, ele fechou o negócio e quatro anos depois abriu a ÔZé, editora que publica livros incríveis – como A Avó Amarela, de Júlia Medeiros e Elisa Carareto, que recebeu em 2019 o Jabuti de melhor livro infantil – e que completou uma década neste ano.

Zeco conduz também a Faz de Conta, autointitulada “a menor livraria do mundo com os melhores livros”, que é itinerante. Nela, Zeco carrega obras destinadas a crianças e jovens editadas por editoras pequenas e de altíssima qualidade, como Pulo do Gato, Jujuba, Barbatana e, claro, a ÔZé.

A escolha de Sagatrissuinorana como melhor livro do ano também dá visibilidade para as pequenas editoras, que seguem na luta para sobreviver em meio à mais grave crise sanitária desde a gripe espanhola.

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No dia seguinte ao Jabuti, A Casa Tombada, que tem a pós-graduação O Livro Para a Infância, realizou uma live no YouTube com os autores de Sagatrissuinorana, o editor Zeco Montes e o autor e pesquisador Odilon Moraes, conduzida pela jornalista e coordenadora da pós, Cristiane Rogerio. A conversa foi deliciosa, vale a pena conferir!

 

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