Roger Mello: ‘Vencemos o eurocentrismo’
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Roger Mello: ‘Vencemos o eurocentrismo’

Pela primeira vez um brasileiro venceu o Prêmio Hans Christian Andersen - espécie de Nobel da literatura infantil e juvenil - na categoria ilustração. Duas escritoras do Brasil já foram premiadas

Bia Reis

13 de maio de 2014 | 06h00

Rumo ao Mundo é o título da reportagem sobre o escritor e ilustrador Roger Mello, que publico nesta terça-feira, 12, no Caderno 2 (clique aqui para ler). Para a matéria, fiz uma longa entrevista com Mello, que coloca a seguir nesta Estante de Letrinhas. Além da entrevista, há um desenho feito gentilmente pelo artista para o Estadoum vídeo da TV Estado.

O ponto de partida para a entrevista foi o Prêmio Hans Christian Andersen – espécie de Nobel da literatura infantil e juvenil -, anunciado em março. Concedido pela Organização Internacional para o Livro Juvenil (IBBY, sigla em inglês) a cada dois anos desde 1958, o prêmio poucas vezes foi dado a profissionais de fora do Hemisfério Norte. O Brasil já havia recebido a láurea duas vezes, na categoria texto, com Lygia Bojunga (1982) e Ana Maria Machado (2000). Neste ano, com Mello, o Brasil entrou para a seleta lista dos países premiados na categoria ilustração. “A premiação rompeu com o eurocentrismo”, festeja Mello, que está neste momento no Japão, para a inauguração de uma retrospectiva de sua carreira, no Chichiro Art Museum, de Azumino. Depois, ele vai para a Coreia do Sul, onde fará uma exposição ao ar livre em um parque semelhante ao nosso Inhotim (imagem abaixo). O Líbano e o México são as paradas seguintes.

Aos 48 anos, Mello – que prefere a palavra desenho à ilustração – foi escolhido, segundo o júri, por não subestimar “a capacidade da criança de reconhecer e decodificar os fenômenos culturais pelas imagens, guiada pela imaginação”. “O jovem leitor ganha um entendimento mais profundo da própria cultura e daquelas ao redor do mundo”, justificaram os jurados, que anunciaram a premiação na Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, a mais importante do setor. A seguir, a entrevista:

O que a sua premiação no Hans Christian Andersen muda para a ilustração brasileira?
Quando ganho um prêmio, o premiado não sou apenas eu, mas toda a ilustração do País. É uma mostra de que as pessoas estão atentas ao Brasil. Em Bolonha, ouvíamos que era a nossa vez. As pessoas ficaram felizes pelo fato de o prêmio ter vindo no ano em que fomos homenageados. Foi a primeira vez que a América Latina ganhou na categoria ilustração. E, tirando a Austrália, que venceu uma vez nos anos 1980, o prêmio não saía do Hemisfério Norte. A premiação rompeu com o eurocentrismo.

É possível falar de uma forma brasileira de ilustrar, de uma ilustração tipicamente brasileira?
Acho que devemos fugir dessa coisa, de um jeito brasileiro de falar. Somos brasileiros, e isso vai estar presente no nosso trabalho. Mas a fronteira da arte é a não fronteira. É ali no meio: pode ser entre o Brasil e a Argentina, naquele lugar que não é lugar nenhum. É o lugar do vazio. A arte não ganha com territorialismo. O Brasil tem uma dimensão continental e é feito de muitos países. O perigo de irmos atrás de uma arte brasileira é achar uma média aritmética entre a fronteira do Uruguai e o Amapá. É muito diferente – é como viajar de um país para outro. A gente é plural, mas também temos o direito de fazermos, se quisermos, o que na arte convencionou-se chamar de universal. O ser brasileiro estará essencialmente ali. O que precisamos no Brasil é que o eixo não fique restrito ao Rio e a São Paulo. Precisamos da produção do Norte, de cada capital do Nordeste, do Centro-Oeste. O Sul, principalmente o Rio Grande do Sul, e Minas já têm uma força na ilustrações. Precisamos viabilizar a produção do restante do País.

Como foram os seus dias depois da premiação?
Uma loucura. Nas 48 horas seguintes ao anúncio já havia 12 países interessados nos meus livros. Daqui até outubro do próximo ano, que é congresso do USBBY (United States Board on Books for Young People), tenho uma extensa programação: feiras, convenções, júris, lançamentos em vários países. Sou nômade e vivo em movimento. Esse é um processo de divulgação não apenas dos meus livros, mas também da ilustração brasileira. Não é o interesse de uma só pessoa, mas de um movimento, uma movida brasileira.

Como é o mercado para a ilustração?
É muito fechado, e eu não sei exatamente o por quê. O fato de a Lygia Bojunga e a Ana Maria Machado terem ganhado o prêmio na categoria escritor abriu o mercado para a literatura brasileira. Mas para a ilustração é ainda mais difícil. O curioso é que, a princípio, parece que a ilustração não precisa de tradução. Mas isso não é necessariamente verdade. Às vezes ela precisa, sim. A leitura da ilustração é diferente da do texto. Para mim, elas são muito parecida – eu digo que consigo falar com imagens. Todo mundo diz que há diferenças, porém eu não consigo vê-las. Mas eu enxergo outra diferença. Na imagem você tem o todo, depois vai para o particular, vai entender os caminhos. No texto verbal não, você tem um particular e nunca o todo. Você termina um livro e não tem o todo. Além disso, os estrangeiros às vezes se assustam com a nossa paleta de cores, acham que é saturada. Mas os espanhóis também saturam e nem todos os alemães e ingleses usam cinza.

 

Muito se fala sobre a importância da leitura para o desenvolvimento da criança, mas pouco se discute o fato de que as ilustrações dos chamados livros infantis são, para a maioria das pessoas, o primeiro contato com uma forma de arte contemporânea. Os escritores ainda são mais reconhecidos do que os ilustradores?
O Brasil tem valorizado bastante o ilustrador, mas foi um processo longo. Em sua premiação, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), por exemplo, leva em consideração o livro como um todo. Não adianta uma imagem narrativa maravilhosa e um texto verbal ruim, ou vice-versa. Isso bacana, porque o livro não é compartimentado. Claro, às vezes as ilustrações são tão fantásticas, e o livro dá esse espaço para você lê-lo como você quiser, mesmo que um dos elementos não seja tão bom. Mas o ideal é quando há um acordo entre as duas coisas. É como em uma peça, quando os atores são bons e o texto não. O Brasil tem valorizado bastante o trabalho do ilustrador, o que é preciso agora é uma valorização da literatura ficcional de qualidade para criança.

Quando você era criança, qual era a sua relação com a literatura e as artes em geral?
Sou de Brasília, e a minha família sempre gostou muito de ler. Sempre tivemos muitos livros em casa. Mas meus pais não eram ligados às artes. Ninguém era ilustrador ou desenhava. Meus pais eram funcionários públicos – meu pai trabalhava nos Correios e minha mãe, na Câmara. Era fissurado em ler e em quadrinhos em geral. Um dos primeiros livros que fui apaixonado foi O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado, muito por causa das ilustrações do Caribé, de quem sou fã.

Quando você percebeu que poderia trabalhar com literatura e arte?
Para mim, a arte nunca foi dissociada da literatura. Eu via muita arte nos livros – os livros sempre foram um veículo de contato com a arte. O livro para mim era como um museu, um objeto múltiplo. Hoje tem muita gente se questiona o livro colorido, o livro ilustrado, pergunta se isso é bom, se é ruim. Antes de tudo esse questionamento é errado, porque o livro sempre foi colorido. Os livros persas, os primeiros livros de tradição islâmica, todos ilustrados. A história do livro é a mesma da ilustração. A gente tinha uma campanha silenciosa de leitura – todo mundo lia. Ninguém falava sobre a importância de ler, as pessoas simplesmente liam. Essa mensagem subliminar, de leitura, da imagem, do adulto lendo, fazia a gente querer ler. Ao mesmo tempo, sou geração AI5. Os parentes diziam que os livros precisavam ser escondidos, ouvíamos que alguém tinha sido preso e que os livros precisavam ser escondidos. Brasília é uma cidade muito seca, muito ampla, então os livros não eram queimados, eram jogados no lago para que ninguém percebesse. Imagine a tristeza das pessoas que amam livros ter de fazer isso. Cresci num contexto em que o livro era realmente um objeto poderoso. As pessoas morriam, eram caladas por causa de determinados livros proibidos. Isso exercia um fascínio.

Quando descobriu que poderia trabalhar com arte e literatura?
Eu já desenhava tudo aquilo que lia, gostava de quadrinhos como quem hoje em dia mexe no Instagram. Os quadrinhos eram o meu Instagram. Eu não sabia que o nome disso era ilustração nem me preocupava com isso: era desenho. Eu aliás gosto mais do nome desenho que ilustração. Na língua portuguesa, desenho é projeto também. É uma maneira de pensar. Quando você desenha, você pensa com o traço. Não importava para mim se o desenho era para um livro ou um muro. Um muro pode ser um livro também. Lembro de ter visto uma exposição, no Centro Cultural da Caixa, aqui no Rio, há uns 25 anos. Estudava na época Desenho Industrial. E recebi um convite para essa exposição, que era sobre ilustradores brasileiros. E eu vi a exposição e pensei: ‘É isso o que eu quero fazer’. O fato de eu ter noções de artes gráficas ajuda muito. O que a ilustração tem de específico é que no livro há um lugar gráfico, não é só uma imagem narrativa, mas ela se coloca graficamente dentro do lugar poético do livro. Muitas vezes, um ilustrador que não tem ao menos uma noção gráfica fica refém.

Tem uma preferência entre produzir o livro inteiro, ou ilustrar só, qual é processo preferido?
É igual música. Tem música que é uma parceria, mal comparando (risos), como Vinícius (de Moraes) e Tom (Jobim). Às vezes o Tom faz tudo, às vezes o Chico (Buarque) faz a música e o Edu (Lobo) a letra. Isso não importa. Também posso ilustrar o livro que alguém diagramou, que outra pessoas escreveu. Eu já escrevi livro que outra pessoa ilustrou, com a Graça Lima, ou a Graça e a Mariana (Massarani). Vai ter sempre um livro e a gente vai achar que é da gente. Porque, na verdade, autor todos são. Para mim, até o livreiro é autor. Quem multiplica a leitura também é um pouco autor, porque ele também interfere na leitura. Quem divulga o livro também é autor.

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