Por meio de ilustrações, ‘Migrantes’ narra medo, incerteza, morte e esperança
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Por meio de ilustrações, ‘Migrantes’ narra medo, incerteza, morte e esperança

No Dia Mundial do Refugiado, conheça o premiadíssimo livro-imagem da peruana Issa Watanabe

Bia Reis

20 de junho de 2022 | 08h00

Capa de ‘Migrantes’: ilustração da fila de animais começa na quarta capa. Crédito: Bia Reis

A ilustração da capa se esparrama para a quarta capa porque a fila de migrantes é imensa. Lá estão o rinoceronte, o sapo, a coelha, o porco, o galo, o jacaré, o leão, a raposa, o tucano, o flamingo, a cabra e muitos outros animais. Desamparados, eles caminham com seus poucos pertences.

Segundo o Relatório Mundial sobre Migração 2022, divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em dezembro do ano passado, em 2021 havia 281 milhões de migrantes internacionais, o equivalente a 3,6% da população mundial. O número subiu mesmo durante a pandemia, quando parte dos países fechou suas fronteiras na tentativa de impedir a disseminação do SARS-CoV-2.

Nesta segunda-feira, 20 de junho, Dia Mundial do Refugiado, trago para vocês o livro Migrantes, da ilustradora peruana Issa Watanabe, capaz de abrir portas para conversas e reflexões sobre o tema com leitores de todas as idades.

Ilustradora transforma pessoas em animais com características humanas. Crédito: Bia Reis

Na obra, Issa transforma pessoas em animais com características humanas para abordar o assunto. E logo desperta empatia do leitor.

O fundo das imagens é escuro: na cor preta, com detalhes em azul e verde escuros também. O que se sobressai é o colorido dos animais. Quase uma insistência na esperança.

Issa constrói um sensível livro-imagem, tipo de obra em que o autor tece a narrativa por meio das ilustrações, sem se apoiar em palavras. Fala de um percurso feito por um grupo de migrantes na companhia da incerteza, do medo, da morte e também de um pouco de esperança.

Migrantes em situações cotidianas: leão dá banho em filhote que poderia ser sua presa. Crédito: Bia Reis

Há detalhes tocantes. Os animais não estão em bando – há apenas um indivíduo de cada espécie. E por serem tão diferentes eles são tão parecidos: são todos animais. É comovente a cena em que um leão dá banho em um filhote que poderia ser facilmente sua presa. Uma raposa ajuda um passarinho, um jacaré serve sopa para um urso. E a vida segue.

A morte e as incertezas acompanham os migrantes ao longo do livro. Crédito: Bia Reis

Num certo momento, os migrantes entram em um barco de madeira e se acidentam. Há sofrimento e perda no caminho. E a vida segue.

Issa não apresenta um final fechado para o leitor, deixa a narrativa aberta para cada um construí-la como quiser. Mas há, sim, um tom esperançoso.

Migrantes foi publicado pela primeira vez em 2019 e já foi editado em mais de dez idiomas, entre eles o português, por meio de uma parceria entre Selo Emília, Solisluna Editora e Livros da Raposa Vermelha. Ganhou o prêmio de melhor livro de ficção do Prix Sociers 2021 e melhor livro ilustrado Premi Llibreter 2020. Foi selecionado para o prestigioso catálogo The White Ravens 2020, para a lista dPictus 2020 e eleito a melhor narrativa visual do Banco del Libro de Venezuela 2020. No Brasil, recebeu o selo distinção da Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio 2021 e integrou a lista dos 30 melhores livros infantis da Revista Crescer de 2022.

Já falei algumas vezes sobre o tema nesta Estante de Letrinhas. Compartilho os links com vocês. Eu Estou Aqui: Crianças que Deixaram seus Países para Começar uma Nova Vida no Brasil, de Maísa Zakzuk, da Panda Books; Para Onde Vamos, de Jairo Buitrago e Rafael Yockteng, com tradução de Márcia Leite, da Editora Pulo do Gato; A Chegada, de Shaun Tan, da SM; e Migrar, de José Manuel Mateo e Javier Martínez Pedro, da Editora Pallas.

Serviço
Migrantes
Autora: Issa Watanabe
Editora: Selo Emília, Solisluna Editora e Livros da Raposa Vermelha
Preço: R$ 60 (capa dura)

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