O testemunhal na literatura infantojuvenil
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O testemunhal na literatura infantojuvenil

Este foi o tema que abriu o Congresso Iberoamericano de Língua e Literatura Infantil e Juvenil, na Cidade do México; para a escritora brasileira Eliana Yunes, a literatura faz com que o leitor reconheça a si mesmo e ao outro

Bia Reis

16 de novembro de 2016 | 02h59

A memória, a vivência, a experiência e a recriação da realidade são características da literatura testemunhal, em que o autor retrata as dores e as alegrias da vida – a sua própria, de maneira autobiográfica, ou a dos outros – e pode compor com elementos ficcionais, sempre com preocupação estética.

A literatura testemunhal foi o tema que abriu o primeiro dia do Congresso Iberoamericano de Língua e Literatura Infantil e Juvenil (Cilelij), que ocorre até esta quinta-feira, 17, na Cidade do México, no México. Nesta terceira edição – a primeira foi realizada em Santiago, no Chile, e a segunda em Bogotá, na Colômbia –, escritores, ilustradores, editores e especialistas em literatura discutirão três eixos temáticos da literatura infantil e juvenil: o testemunhal, o fantástico e o simbólico. A delegação brasileira é formada por Ana Maria Machado, Ciça Fittipaldi, João Anzanello Carrascoza, Eliana Yunes, Gabriela Rodella, Ana Cristina Dubeux Dourado, João Luis Ceccantinni e Nilma Lacerda.

O testemunhal

Eliacer Cansino, Andrea Ferrari, Francisco Hinojosa e o coordenador do painel Pedro Cerrillo (da esq. à dir). Crédito: Fundación SM México 

Escrevi livros testemunhais sem saber que os escrevia. Para mim, mais importante do que o testemunhal é a literatura, que tem necessariamente um artifício estético. Um escritor não é um mensageiro, e uma mensagem não é literatura. Fazemos literatura apenas quando há uma experiência estética. Se há ou não testemunho é outra coisa”, afirmou o premiado escritor espanhol Eliacer Cansino, que participou do painel O Testemunhal na LIJ (Literatura infantojuvenil) com os autores Francisco Hinojosa (México) e Andrea Ferrari (Argentina), no Teatro Julio Castillo. A brasileira Eliana Yunes, que estava escalada, mas não pode comparecer, enviou sua contribuição por escrito.

Para Cansino, a literatura testemunhal trata na maioria das vezes da dor humana. Mas se quase todo testemunho é dor, o que há de específico quando falamos de literatura infantojuvenil? O escritor e filósofo espanhol aponta três condições de sua literatura testemunhal.

Estante de Letrinhas no Facebook: Curta!
Também no Twitter: Siga!
E agora no Instagram: Acompanhe!

Em primeiro lugar, Cansino afirma que o leitor não pode ser poupado. É preciso, sim, falar “de dor e de inferno, porque o inferno existe, mas é necessário abordá-lo com cuidado”. “Procuro não apresentar aos jovens uma descida ao inferno. Tento ser cuidadoso com a apresentação do horror, do mal”, explicou o escritor. Como segunda condição, o espanhol aponta que é preciso trabalhar com o “signo da esperança”. “Deixo uma brecha para a esperança – está é a minha maneira de enfocar a literatura. Todas as crianças crescem, menos aquelas que não têm esperança.” Por fim, Cansino argumenta que a literatura faça a defesa das virtudes essenciais. “Procuro mostrar a excelência do ser humano, o amor, a solidariedade, a justiça. São valores que sustentam a dignidade. Com esses três elementos, construo a minha literatura”, disse o escritor.

Autor de livros para crianças e jovens, Cansino recebeu inúmeros prêmios espanhois, como o Lazarillo de Autores, por El Misterio Velázquez, o de Literatura Juvenil Alandar, por Ok, Señor Foster, que também figura na prestigiosa lista White Ravens. Os livros de Cansino ainda não foram editados em português.

Em sua fala, Eliana Yunes listou uma série de livros brasileiros que tem a característica testemunhal, como Meu Amigo Pintor, de Lygia Bojunga, que trata de suicídio; e Cena de Rua, de Angela Lago, sobre um menino que vende frutas no semáforo e comete um delito. A brasileira destacou a importância de que crianças e jovens tenham contato com relatos de vida em que possam se reconhecer. “Assim, podem projetar seu futuro e encontrar alternativas para a própria realidade. É um reconhecimento de si próprio e do outro.”

Jornalista durante 20 anos, a argentina Andrea Ferrari contou como foi o processo de criação de La Noche del Polizón, livro em que aborda a questão da imigração e com o qual ganhou o Prêmio Los Destacados de Alija, em 2012, na categoria Juvenil. Foram várias entrevistas ao longo de um ano com imigrantes que haviam desembarcado em Buenos Aires. Após os relatos, já com as conversas gravadas, Andrea travou. “Cheguei a achar que jamais encontraria uma voz para falar pelos imigrantes. Desse choque, troquei o relato de primeira para terceira pessoa. Vivi um processo duplo: de aproximação, para absorver a experiência, e de afastamento, para permitir que o livro encontrasse seu próprio caminho. Tive de encontrar uma terceira voz, que não era nem a minha nem a dos entrevistados.”

juan-villoro2O escritor mexicano Juan Villoro. Crédito: Fundación SM México 

Abertura. O congresso foi aberto nesta terça-feira, dia 15, com a conferência do escritor mexicano Juan Villoro, reconhecido como um dos mais importantes autores iberoamericanos contemporâneos em diversos gêneros – novela, conto, ensaio, diário de viagens, crônica, artigos para jornais e peças de teatro – tanto para adultos como para crianças.

* A jornalista Bia Reis viajou a convite da Fundação SM

Mais conteúdo sobre:

Estante de LetrinhasCilelij