O ‘Tempo Justo’ de João Carrascoza
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O ‘Tempo Justo’ de João Carrascoza

Cenas do cotidiano viram poesia em forma de prosa nas linhas do escritor João Anzanello Carrascoza, um dos mais importantes contistas brasileiros contemporâneos. Confira seu lançamento juvenil

Bia Reis

10 Janeiro 2017 | 15h00

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Crédito: Daniel Teixeira/Estadão

 

O passeio a pé, com o pai, por paisagens desconhecidas, a ida à praia com a família, as lembranças de um tio querido, um domingo ao lado do filho, o perdão à mãe pela ausência, a ida à maternidade para receber a nova vida que vai chegar. Cenas comuns, do cotidiano, viram poesia em forma de prosa nas linhas do escritor João Anzanello Carrascoza, um dos mais importantes contistas brasileiros contemporâneos.

A família, o afeto e o correr do tempo permeiam a obra de Carrascoza. Estão nos romances e nos contos, misturados a cafés da manhã, dias ensolarados, jogos de futebol e conversas, muitas conversas, dessas que, de tão simples, muitas vezes não damos valor.

Seu mais recente lançamento, Tempo Justo (Editora SM), é daqueles livros que rompem com as classificações etárias adotadas pelo mercado editorial. É catalogado como juvenil, assim como Aquela Água Toda (CosacNaify) e Aos 7 e aos 40 (CosacNaify), que podem ser lidos (e amados) por leitores de todas as idades. Essas duas últimas obras receberam o Prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) na categoria Juvenil, em 2013 e 2014. Com seu lançamento anterior, Caderno de Um Ausente (CosacNaify), o escritor levou o Prêmio Jabuti 2015 na categoria Romance.

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TEMPO JUSTO

“E, então, eu percebi, na pele, porque na consciência eu já sabia que eu não era mais criança, percebi que as coisas, as coisas mudam, as coisas mudam as coisas, as coisas nos mudam, de repente, como um relâmpago, e eu sentia que aquela hora ele estava se tornando outro para mim, não porque deixasse de ser quem ele era, era eu quem o estava vendo de um modo distinto, palmilhando sua vida em outro trecho, eu quem começara a conhecer de fato um outro ele que nele habitava e eu imaginava enganadoramente já conhecer.”
As Coisas Mudam

Em Tempo Justo, Carrascoza tece 16 narrativas que, em comum, falam de alguma forma sobre o passar do tempo. O tempo que corre e se esforça para manter tudo igual ou para tudo transformar, para promover descobertas, constatações, para emocionar e para fazer pensar. Carrascoza narra primordialmente sob o ponto de vista masculino, seja de um menino, um adolescente, do homem que está prestes a ser pai, do pai que tenta compreender seu filho, do filho que sofre por estar longe da mãe, mas sabe que a vida é assim, de indas e vindas.

Um dos meus contos preferidos é O Sétimo Dia (leia trecho abaixo), em que o escritor fala sobre um domingo qualquer em que o filho, que mora a mãe, está na casa do pai. Ao passar pelo quarto, o homem vê o menino deitado e se dá conta de quão precioso é aquele instante. Assim é a literatura de Carrascoza, feita das miudezas da vida.

“Não era uma plena calmaria o que ele experimentava, tampouco um vértice de tristeza, era apenas o quer era – a vida –, e, por isso, sem pressa, pelas paredes do corredor, o pai entrou no quarto em frente, cobriu o filho com o lençol e desceu a escada para preparar lá embaixo, na cozinha,
o café da manhã. O rumor de um avião ecoou, distante. Eles, o pai e o filho, tinham o dia inteiro,
o dia inteiro para viver juntos:
era só (mais) um domingo.”
O Sétimo Dia

O AUTOR
Carrascoza nasceu em Cravinhos, no interior paulista, em 1962. Foi redator publicitário e hoje, além de escrever, é professor universitário. Estreou na literatura em 1991 com o romance infantojuvenil As Flores do Lado de Baixo. Com bolsa da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, Carrascoza concluiu em 1992 seu primeiro livro de contos, Hotel Solidão, que foi lançado dois anos depois. Na sequência, publicou O Vaso Azul (1998), Duas Tardes (2002), Dias Raros (2004) e Espinhos e Alfinetes (2010), entre outros.

Serviço
Tempo Justo
Escritor: João Carrascoza
Editora: SM
Preço: R$ 40 (média)

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